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Não economize como se estivesse prendendo a respiração debaixo d’água

Você certamente conhece alguém que é do tipo “gastador”: gasta mais do que o seu nível de rendimentos permite, vive pendurado no cheque especial, não resiste aos impulsos de consumo, e gosta geralmente de ostentar os bens que acabou de comprar. Certamente o excesso de consumo não faz bem.

Mas você também conhece o sujeito que está no extremo oposto, faz o estilo  que alguns chamam de “muquirana”: é uma pessoa que consegue poupar uma fatia de seus rendimentos, e procura economizar até no cafezinho. O problema ocorre quando isso se torna uma obsessão, e a pessoa passa a se privar de coisas que poderia gastar, mas não gasta, pensando em uma provável possível futura aposentadoria com mais dinheiro no bolso.

Se essa pessoa seguir esse ritmo alucinado de corte de despesas, provavelmente conseguirá se aposentar com muito dinheiro no bolso, desde que faça os investimentos corretos e respeite um prazo razoável de construção de riqueza. Tudo estaria ótimo, se não fosse o fato de ela praticamente ter abdicado de viver o passado.

Quem vive economizando em excesso é como se estivesse prendendo a respiração debaixo d’água. Uma hora, a pessoa irá querer subir até a superfície, para consumir a maior quantidade de oxigênio possível. Sim, até nisso a metáfora tem sua validade: vai chegar uma hora – pode ser o próximo mês, o próximo ano, o próximo aumento de salário – que, de tanto economizar, a pessoa não agüenta e vai querer mais cedo ou mais tarde eliminar essa repressão interna de consumo. Resultado: vai acabar consumindo além da conta, vai “exagerar na dose”, e gastar (bem) mais que o seu orçamento permite. É aquilo que eu poderia chamar de “efeito sanfona”. Já aconteceu com você?

De repente, por conta de uma promoção no trabalho, ou um novo emprego, você recebe um substancial aumento de salário. Ótimo, é uma oportunidade para ampliar a sua zona de conforto, comprando mais coisas, consumindo também mais serviços, quem sabe até aumentando sua conta de celular ou dando um upgrade no pacote da TV a cabo ou no guarda-roupas. Boa parte desses itens motivado por razões emocionais.

Mas aí, você percebe, analisando racionalmente a situação, que exagerou nas despesas do dia-a-dia, e resolve colocar em prática um audacioso plano de redução de custos – veja bem o que eu disse: audacioso. Aí é que está o problema: se antes o problema era gastar em excesso, agora o problema é economizar em excesso. E a pessoa vai caminhando assim, de excesso em excesso, na busca (incessante) de tentar encontrar o equilíbrio…

Vai chegar um momento em que você percebe que “exagerou na dose” novamente, economizou além da conta, e, por conta de um pequeno aumento de salário ou motivado pelo sucesso momentâneo de seus investimentos (p.ex., forte valorização de sua carteira de ações), ou até mesmo motivado por ter conseguido equilibrar as contas, gastando menos, resolve gastar um pouco mais. Mas você não analisa friamente a situação, começa a comprar uma coisa aqui, outra coisa ali, afinal, você merece, pelo tanto de esforço nas economias, mas a situação volta a ficar desequilibrada: você percebe que gastou demais. Agora, é hora de voltar a fazer esforços para economizar e voltar ao nível anterior. E o ciclo recomeça…

A grande dificuldade das pessoas reside, aparentemente, em achar um ponto de equilíbrio. De fato, em meio a mudanças constantes que ocorrem, com gadgets cada vez mais potentes sendo lançados, promoções de passagens baratas para o exterior, lançamentos de imóveis chamativos no jornal, carros com melhores recursos, eletrodomésticos com novas funções, fica difícil manter uma certa ordem.

A primeira pergunta que você deve se fazer é: eu realmente preciso daquilo? Paralelamente, eu acredito firmemente que vale a pena investir em suas paixões, em seus hobbies, desde que não sejam desculpas – que fique bem claro isso – para, novamente, desequilibrar seu orçamento doméstico. Se você gosta de viajar, vá em frente, planeje suas viagens, economize bem, e faça bons passeios. Se você é aficcionado por gadgets, não há problema algum em investir na compra de seus sonhos de consumo, já que é nisso que reside sua satisfação. Se você tem paixão por ler, qual é o problema em sempre reservar uma fatia de seu orçamento para compras em livrarias e lojas virtuais? Você não pode se privar daquilo que constitui suas paixões, pois são essas coisas que dão sentido à sua vida.

Economizar “até o talo” visando a garantir um futuro melhor, nesse aspecto, é uma furada, justamente porque você terá vivido uma vida completamente vazia e destituída daquilo que mais lhe agrada. Um dos blogs cujo RSS recentemente passei a assinar, o Get Rich Slowly, propôs essa definição de lei básica da frugalidade, com a qual estou de acordo:

Frugalidade é isso: decida aquilo que importa para você. Se dê essa permissão de gastar em coisas que lhe trazem satisfação.

Para todo o resto, contente-se com o necessário.

Economizar é, sim, importante, mas evite o excesso de economia, como se estivesse debaixo d’ água por muito tempo, prendendo a respiração. Se você economizar até em suas paixões, você estará economizando também em sua qualidade de vida, o que definitivamente não é bom.

E, como diz o poeta: curta a vida, de maneira que ela valha a pena ser vivida! :D

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus lhes abençoe!

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