Resenha: O milionário mora ao lado, de Thomas Stanley e William Danko

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Como você imagina que vive um típico milionário americano? Ele tem o carro do ano, vive em luxuosas mansões, gasta horrores com jóias e artigos de luxo, certo? Errado. Apenas uma minoria de milionários vive uma vida de ostentação. Um típico milionário americano, na verdade, leva uma vida bastante frugal, e pode passar despercebido aos olhos da maioria dos norte-americanos. Ele pode, inclusive, ser o vizinho do lado. Daí o nome do livro: “O Milionário mora ao lado”.

Informações técnicas

Título: O milionário mora ao lado – os surpreendentes segredos dos ricaços americanos

Autores: Thomas Stanley e William Danko

Número de páginas: 309

Editora: Manole

Faixa de preço: R$ 32 a R$ 48

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O conteúdo do livro foi fundamentado numa extensa pesquisa científica realizada pelos autores durante mais de 20 anos, a partir de respostas a questionários enviados aos milionários, bem como entrevistas pessoais e sessões de conversas com grupos de abastados. Apesar de o livro ter sido escrito no fim da década de 90, suas conclusões permanecem inteiramente válidas, uma vez que, mais do que levantar números e estatísticas, o livro registra fatos e hábitos dos milionários norte-americanos.

Uma das primeiras coisas que os autores desmistificam é que alta renda não significa necessariamente estar rico, uma vez que a pessoa pode gastar tudo o que ganha, ter um alto padrão de vida (= alto consumo) e, nessas condições, não está ficando rica. De acordo com os autores,

Riqueza é aquilo que você acumula, não aquilo que você gasta.

Aliás, riqueza tem muito mais a ver com um estilo de vida baseado muito mais em perseverança, muito trabalho, planejamento e auto-disciplina. Riqueza tem mais a ver com construção de patrimônio líquido do que com alta renda. Outro dado curioso é constatar que a maioria dos milionários não herdou sua fortuna: oitenta por cento deles são ricos de primeira geração.

O livro trabalha sete características comuns a todos os que conseguiram construir riqueza – os denominados PAR (Prodigiosos Acumuladores de Riqueza) – em contraposição aos SAR (Sub-Acumuladores de Riquezas). Esses sete denominadores comuns correspondem a sete capítulos do livro:

1. Levam uma vida frugal: ou seja, vivem muito abaixo de seus meios. Os autores chegam a dizer que ser frugal constitui a pedra fundamental na construção de riqueza. Nesse tópico, é mostrado que um milionário americano típico tem um estilo de vida surpreendentemente simples: dentre outras coisas, não paga caro por relógios, sapatos e ternos, e planeja muito bem as suas compras, aproveitando sempre que possível as liquidações e os cupons de desconto.

2. Alocam de maneira eficiente os fatores tempo, energia e dinheiro, com o objetivo de construir riqueza: constatou-se que os PAR, em relação aos SAR, alocam quase o dobro de horas mensais para planejar seus investimentos financeiros. É curioso observar que os SAR investem em aplicações financeiras de fácil resgate, já tendo em vista as imediatas necessidades de consumo, ao passo que os PAR investem em negócios e aplicações que requerem mais planejamento. Em relação às ações, os PAR também não ficam girando a carteira de modo constante: pelo contrário, comprovou-se que a maioria deles conservam suas ações durante vários anos.

3. Crêem que a independência financeira é mais importante do que exibir alto status social: os típicos milionários americanos não gastam horrores em veículos: grande parte deles prefere usar veículos comuns norte-americanos, ao invés de luxuosos importados, sendo que parcela considerável compra carros usados.

4. Não receberam ajuda financeira dos pais: como dito acima, a maioria dos milionários americanos é de primeira geração e não receberam o que os autores denominam de PSE (Pronto-Socorro Econômico), presentes em dinheiro (ou conversíveis em dinheiro) dos pais. A conclusão lógica é a de que doar precipita o consumo, mais do que economia e investimento. Uma conclusão reveladora da pesquisa é que, comumente, o filho economicamente mais produtivo recebe a menor parte da riqueza dos pais, enquanto que o menos produtivo recebe a maior parte. Disso se extrai uma conclusão, estatisticamente comprovada: “quanto mais dinheiro um filho adulto ganha de presente, menos irá acumular; os que ganham menos presentes monetários acumulam mais”.

5. Seus filhos adultos são auto-suficientes economicamente: nesse capítulo, os autores abordam o tema da transmissão de riqueza intergeracional, incluindo as 10 regras que os pais abastados ensinam a seus filhos que se tornaram bem-sucedidos.

6. São competentes para identificar as oportunidades de mercado: aqui são relacionadas algumas das profissões e serviços que têm como público-alvo os milionários norte-americanos. Talvez seja o capítulo que menos interesse ao leitor brasileiro, já que pouco do que está nesse capítulo pode ser aproveitado para ser aplicado aqui.

7. Escolheram a ocupação certa. Concluiu-se que a maioria dos abastados é constituída por proprietários de negócios e profissionais liberais autônomos. Em relação a esse ponto, chegou-se a outra curiosa conclusão: embora o senso comum tende a acreditar que são as empresas de alta tecnologia as que mais fornecem milionários, percebeu-se que, no longo prazo, quem acaba triunfando e sobrevivendo mais são empresas de categorias banais/convencionais de negócios, como manufaturas de lambris (alguém sabe o que é isso? :D) e de materiais de construção, lojas de eletrônica e de peças de automóvel.

Ao longo do livro, e para facilitar a compreensão, são mostrados diversos casos concretos de pessoas milionárias, que estão no grupo dos PAR, comparando-as com aqueles que pertencem ao grupo dos SAR. O interessante é notar que os membros do grupo dos SAR geralmente também apresentam renda elevadíssima, que poderia fazer com que eles se incluíssem no grupo dos PAR, porém, devido a um padrão de vida superior ao que poderia ostentar, estão na categoria dos SAR. Com isso, os autores demonstram que, para verdadeiramente acumular riqueza, não basta ter alta renda, é preciso dispor de um patrimônio líquido compatível com a sua renda anual.

Aliás, para acumular riqueza, tampouco é preciso ter alta renda: são mostrados exemplos concretos de pessoas que ganham uma renda relativamente baixa, como bombeiros, mas que estão na categoria dos PAR.

São diversas as conclusões do livro que surpreendem e geram polêmica. Numa delas, verificou-se que, em relação aos ganhadores de alta renda (que ganham no mínimo 100 mil dólares por ano), existe uma correlação negativa entre educação e acumulação de riqueza. Ou seja, quanto maior o nível de educação, menor será a chance de acumular riqueza. Isso ocorre porque os profissionais com muita instrução (médicos, advogados, engenheiros) iniciam muito tarde a corrida pelos ganhos, sendo difícil construir riqueza enquanto se está apenas estudando. A conclusão lógica é: quanto mais tempo a pessoa fica na faculdade, mais ela adia o início de sua produção de riqueza. Polêmico, não?

Eu já penso de um modo um pouco diferente: embora o grau de instrução não seja uma condição necessária para a acumulação de riqueza, ela no mínimo potencializa tal acumulação, ou seja, aumenta as chances de o indivíduo formar patrimônio, na medida em que o aumento de conhecimento conduz a pessoa a ter uma melhor interpretação dos fatos da realidade, utilizando-os em seu favor. Ademais, coloco o termo “educação” aqui, com o significado não restrito de “educação formal”, mas sim a toda e qualquer forma de aquisição de conhecimento especializado, que possa ser útil para aumentar o valor da atividade da pessoa, incluindo o tempo gasto em participação em seminários, palestras, leitura de livros etc.

Na verdade, entendo que a combinação “educação + vivência” é que aumenta as probabilidades da pessoa em vencer no jogo da vida. Um fator, isoladamente considerado, não pode explicar, por si só, o sucesso da pessoa em determinado ramo de atividades.

Conclusão

A leitura do livro é muito proveitosa e agradável porque, além de estarem suas conclusões empiricamente e estatisticamente comprovadas, não fica só na teoria, apresentando exemplos de casos reais de pessoas que são e não são acumuladoras de riqueza. Embora não se possa concordar com todas as conclusões da pesquisa (que, como afirmou o ViverdeRenda, é quase um estudo sociológico), muito do que está ali pode ser aplicado e vivenciado pelos leitores brasileiros que pretendem acumular riqueza, principalmente em relação ao estilo de vida frugal e modo de lidar com os investimentos, cujos resultados práticos, para serem obtidos, dependem, antes de mais nada, de uma profunda mudança de mentalidade acerca dos seus próprios hábitos de consumo.

O que o livro realça – e é importante destacar isso – é que é possível ser um construtor de riqueza (e mais, um prodigioso acumulador de riqueza), tendo uma renda relativamente baixa, desde que “se jogue bem na defensiva” (levando uma vida frugal), e se invista corretamente o dinheiro ganho.

Essa última safra de livros que estou lendo é muito boa, e, como não poderia deixar de ser, esse também merece o selo: leitura recomendada e aprovada! :D

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus lhes abençoe!

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20 Responses to Resenha: O milionário mora ao lado, de Thomas Stanley e William Danko

  1. Turi Souza 26 de abril de 2010 at 19:56 #

    Gostei da resenha do livro. Tem informações aqui que eu já sigo a um tempo, e comprovo a eficácia.

    Quanto ao perder tempo na faculdade é realmente polêmico, mas bota as pessoas pra pensar…

  2. Guilherme 27 de abril de 2010 at 9:39 #

    Obrigado pelo comentário, Turi!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. Willy Fog 9 de julho de 2010 at 14:13 #

    Com certeza a leitura do livro é recomendada para qualquer pessoa que queira melhorar sua qualidade de vida.

    Realmente polêmico esse tema da educação. Um dos autores mesmo falou no livro que um dos motivos pelos quais ele não era rico é porque passou 10 anos numa faculdade. Um dos maiores exemplos que tenho que educação formal não é pré-requisito para que uma pessoa seja financeiramente bem sucedida é a do apresentador do Aprendiz da Inglaterra, Sir Alan Sugar (SAS), que possui um fortuna de mais de 1 bilhão de dolares. Ele largou a escola aos 16 anos e começou com 100 dolares se não me engano vendendo beterraba com uma kombi em Londres, depois expandiu seus negócios no ramo de computadores, onde fez sua fortuna. Os programas do aprendiz que ele já apresentou estão disponíveis no youtube.

    Por outro lado temos como exemplo o Warren Buffet que possui faculdade e mestrado em economia se não me engano. E ainda no livro Investimentos do Mauro Halfeld tem uma pesquisa que mostra que quanto maior o tempo de estudo de uma pessoa, maior é a sua renda. Realmente polêmico.

    Enfim Guilherme, gostaria de te dar uma sugestão livro para uma resenha no futuro. O livro é A Energia do Dinheiro de Maria Nemeth, livro fantástico na minha opinião.

    Abcs

  4. Guilherme 9 de julho de 2010 at 19:58 #

    Willy, muito bom seu comentário!

    Eu acredito que, na dúvida, a pessoa deve optar pela educação. Pelo menos há mais probabilidade de obter sucesso financeiro. :wink:

    E valeu pela dica do livro A energia do dinheiro! Está anotado aqui!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  5. Samuel 9 de novembro de 2011 at 19:03 #

    Willy,
    Essa pesquisa quanto maior o tempo de estudo maior a sua renda é verdadeira sim, o livro não diz o contrário, apenas diz que a sua renda não diz muito se você é ou não “rico”, o que conta é o seu patrimônio líquido, ou seja quanto você conseguiu poupar da sua renda durante o tempo. No livro ele ainda cita exemplos de pessoas com uma renda alta e outra que tem a metade dessa, possui um patrimonio liquído 3,4 vezes maior do que o abastado pela renda.
    Abraço!

  6. Guilherme 12 de novembro de 2011 at 14:47 #

    Samuel, obrigado pela participação. Acho que é nesse sentido mesmo que os autores do livro quiseram se expressar.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  7. Juliano 14 de novembro de 2011 at 8:56 #

    O Jacob do site Earlyretirementextreme juntou 100 mil dólares aos 30 anos e com seu padrão de gastos atuais não vai precisar trabalhar mais. Dependendo do ponto de vista, ele é uma pessoa comum que vive como um milionário.

  8. Guilherme 15 de novembro de 2011 at 13:41 #

    Legal sua dica, Juliano!

    Aqui segue o link para quem quiser saber mais: http://earlyretirementextreme.com/

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  9. Paulo 29 de fevereiro de 2012 at 16:33 #

    Otimo

  10. Investidor de Risco 25 de maio de 2012 at 19:35 #

    Este post eu copiei e colei no meu word para reler periodicamente… é importante ter isto em mente sempre… atualmente é muito fácil ceder às tentações e desviar-se do caminho da frugalidade…

    Valeu!

  11. Guilherme 27 de maio de 2012 at 8:29 #

    Valeu Paulo, value IR!

    De fato, quando se atinge uma certa taxa de riqueza, devemos manter a mentalidade com foco na frugalidade, pois as tentações do consumismo estão em toda a parte…

  12. Marcos 11 de agosto de 2012 at 20:13 #

    Interessante a resenha do livro. Com relacao ao tempo de estudo ser inversamente proporcional ao acumulo de riqueza, sabemos que os EUA sao muito diferentes quanto as oportunidades de emprego e principalmente o salario pago por empregos aonde nao necessitamos de muito estudo. O trabalho bracal e muito remunerado na America do Norte. Tenho 14 primos que vivem no Canada e talvez dois tenham curso superior, mas a maioria vive em situacao estavel economicamente falando.
    Abraco.

  13. Lucas Mascarenhas 5 de novembro de 2012 at 13:29 #

    Cara, sua resenha está muito boa. Deixei um link pra ela, e coloquei alguns trechos, no meu blog sobre livros de gestão, negócios, empreendedorismo e marketing. Forte abraço.

  14. Guilherme 15 de novembro de 2012 at 17:50 #

    Lucas, obrigado pelo link, e parabéns pelo blog!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  15. Eliane Nascimento 12 de dezembro de 2012 at 16:14 #

    A educação formal precisa existir em todos os casos. Porém nos EUA, antes de aluno entrar na faculdade, a sua bagagem de conhecimento é muito mais extensa do que a que temos no Brasil. – Explicado: Ainda somos “emergentes”…

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