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Resenha: Dinheiro e Vida, de Joe Dominguez e Vicki Robin

O título original do livro é “Your money or your life”, e logo no primeiro capítulo do livro é feita a seguinte pergunta ao leitor:

“Se alguém enconstasse um revólver nas suas costelas e pronunciasse essa frase [o dinheiro ou a vida], o que você faria? Quase todo mundo entregaria a carteira. A ameaça funciona porque damos mais valor à vida do que ao dinheiro. Será que damos mesmo?”

Em muitos casos, as pessoas fazem exatamente o contrário, ou seja, priorizam o dinheiro ao invés da vida. O objetivo de ter dinheiro para ganhar a vida acaba se invertendo: o dia-a-dia demonstra que é comum usar a vida para ganhar dinheiro. O que era um meio (dinheiro) para obter o fim (a vida) acaba se transformando no próprio fim (dinheiro), em detrimento do “meio” (a vida).

Joe Dominguez e Vicki Robin demonstram, com argumentos convincentes e bem fundamentados, que é possível viver uma vida produtiva e autêntica e ter todo o conforto material que você precisa ou deseja, de modo que, quando lhe perguntarem: “o dinheiro ou a vida?”, você possa responder: “ficarei com ambos, obrigado”.

Informações técnicas

Título: Dinheiro e vida – mude a sua relação com o dinheiro e obtenha a independência financeira
Autores: Joe Dominguez e Vicki Robin
Número de páginas: 424
Editora: Cultrix
Preço médio: R$ 47

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O livro se propõe a transformar a relação que as pessoas têm com o dinheiro, por meio de um programa de nove passos, que as conduzirá, de acordo com os autores, ao triplo IF – Inteligência Financeira, Integridade Financeira e inclusive Independência Financeira. Os nove passos do programa não são mostrados apenas na teoria: o livro é recheado de histórias reais de pessoas comuns como cozinheiros, gerentes, professores, motoristas de caminhão, cujas vidas ganharam um sentido mais pleno depois que aplicaram na prática as nove etapas apresentadas.

Dentre os vários aspectos que se destacam no livro, um é particularmente impactante: o conceito de suficiência. Inseridos numa sociedade de consumo – os EUA – os autores demonstram a falácia do “quanto mais, melhor”, e mostram, por meio do gráfico da curva da suficiência, que o ápice da satisfação ocorre quando a pessoa atinge o ponto de suficiência, no qual estão incluídas não só coisas que nos proporcionam conforto em quantidade suficiente, como também pequenos “artigos de luxo”.

O dinheiro é conceituado como algo pelo qual escolhemos trocar a nossa energia vital. E o que é energia vital? A energia vital é a distribuição de nosso tempo aqui no planeta, as horas que nos estão disponíveis. Quando vamos trabalhar, trocamos energia vital por dinheiro. De acordo com os autores, essa definição de dinheiro contém uma informação importante:

“A nossa energia vital é mais real na nossa experiência efetiva do que o dinheiro. Poderíamos até afirmar que o dinheiro equivale à nossa energia vital. Assim sendo, embora o dinheiro não possua uma realidade intrínseca, a nossa energia vital possui, pelo menos para nós. Ela é tangível e finita. A nossa energia vital é tudo o que temos. Ela é preciosa porque é limitada e irrecuperável, e porque as nossas escolhas a respeito de como a utilizaremos expressam o significado e o propósito de nosso tempo na terra.”

Primeiro passo

O primeiro passo consiste em fazer uma espécie de trabalho de “arqueologia”: descobrir quanto dinheiro você ganhou durante toda a sua vida e descobrir seu patrimônio líquido, criando um balanço patrimonial pessoal do ativo e do passivo.

Segundo passo

Contém duas partes: calcular o seu salário-hora efetivo, estabelecendo os custos efetivos em tempo e dinheiro necessários para manter o seu emprego; e também fazer um atento acompanhamento de cada centavo que entra ou sai de sua vida. É interessante notar a surpreendente metodologia usada para calcular o salário-hora: não se trata apenas de dividir a renda pela jornada de trabalho, mas incluir nos custos do trabalho todas as horas e despesas relacionadas ao trabalho, como o trajeto ida-e-volta, o traje, a “descompressão” diária (tempo para se recompor em casa quando chega do trabalho), o entretenimento de fuga etc.

Vicki Robin fez uma visita ao Brasil em 2006 e foi entrevista pela revista Época. A própria autora exemplifica como calcular o salário-hora efetivo, que é, afinal, uma das partes desse segundo passo:

“Vamos pensar em alguém que ganha R$ 20 por hora. Ele paga impostos e gasta com transporte, alimentação e roupas para trabalhar. Na verdade, então, ganha cerca de R$ 10. Além disso, não trabalha apenas as oito horas no escritório. Com o trânsito de São Paulo, arrisco dizer que as pessoas devem gastar duas horas por dia para ir e voltar. E outras tantas se preparando para o trabalho – sempre resta um relatório para ler em casa. Então, não são mais R$ 10, mas apenas uns R$ 5. Quando você se dá conta do tempo que as coisas exigem, vê que uma blusa não custa R$ 75, mas sim 15 horas de seu trabalho. Se pensar assim, comprará menos. A cura para essa loucura do consumismo está na consciência. Não é para deixar de comprar. É deixar de buscar a felicidade nas compras. Não é uma maneira de dizer que o consumo é ruim e que você não deve praticá-lo. A questão é despertar desse pesadelo chamado consumismo. ”O consumismo enche todas as horas de nosso dia. É a doença do muito. Não temos tempo sequer para pensar no que realmente queremos.”

Terceiro passo

Consiste na tabulação mensal: você determinará as categorias e subcategorias de gastos que refletem a qualidade única de sua vida.

Quarto passo

É uma avaliação dos gastos, por meio de três perguntas a respeito do total gasto em cada uma das subcategorias:

1. O que eu recebi em realização, satisfação e valor é proporcional à energia vital despendida?

2. Esse gasto de energia vital está em harmonia com os meus valores e propósitos de vida?

3. Como esse dispêndio poderia mudar se eu não tivesse que trabalhar para viver?

Quinto passo

Esse passo envolve construir um gráfico de suas receitas e despesas mensais, grande o suficiente para acomodar de três a cinco anos de dados.

Sexto passo

É aqui que ganha especial relevo o tema da frugalidade. Esse passo aborda o uso inteligente da energia vital (dinheiro), e a redução ou eliminação consciente das despesas. São apresentadas nada mais nada menos que 101 estratégias para economizar. Eis algumas: compre nas feiras livres produtos agrícolas cultivados em sua região, seja seu próprio agente de viagens, ofereça-se para trabalhar como lanterninha voluntário em um teatro de sua cidade (caso você seja fã de teatro), pare de jantar fora e só volte a fazê-lo quando isso voltar a ser novidade, prometa às crianças no máximo três presentes de Natal e peça que escolham o que desejam (mais do que isso é exagero).

Sétimo passo

O ponto central desse passo é o trabalho. Tal qual o dinheiro, também aqui é redefinido o conceito de trabalho, uma vez que confundimos a noção de trabalho com a de emprego remunerado. De acordo com os autores,

“O emprego remunerado extrai o seu único valor intrínseco do fato de que somos pagos para fazê-lo. Tudo o mais que fazemos é uma expressão de quem somos e não do que precisamos fazer devido a uma necessidade econômica. Ao romper o vínculo (entre trabalho e dinheiro), recuperamos a qualidade, os valores e a auto-estima como a nossa essência. Ao romper o vínculo, podemos redefinir o trabalho simplesmente como qualquer coisa que façamos em harmonia com o nosso propósito de vida. Ao romper o vínculo, resgatamos a nossa vida”.

O objetivo desse passo é aumentar a renda valorizando a energia vital que você investe no trabalho, permutando-a pela mais elevada remuneração compatível com sua saúde e sua integridade.

Oitavo passo

Trata da independência financeira e do chamado ponto de cruzamento, onde a renda do capital investido ultrapassa as despesas mensais.

Nono passo

Dedica-se a cuidar do gerenciamento das finanças, onde são tratados os elementos capital (quantia investida a longo prazo, em investimentos seguros que rendam juros), proteção (a nossa clássica reserva de emergências), e provisão (manifestação do seu constante hábito de poupar). Os autores recomendam o investimento em títulos do Tesouro Americano de longo prazo, bem como os títulos de agências patrocinadas pelo Governo Federal dos EUA – o equivalente aos nossos títulos públicos do Tesouro Direto.

É um passo em que, embora os princípios gerais seja válidos e perfeitamente aplicáveis aqui (tais como a necessidade de procurar ser uma pessoa ativa no gerenciamento do dinheiro), apresenta um conteúdo no qual eu tenha uma visão diferente. Isso porque entendo que é possível o investimento em ações mesmo na fase de usufruto de capital, seja por meio de retiradas mensais em valores isentos de Imposto de Renda (ou seja, abaixo de R$ 20 mil por mês, com a venda de ações), seja por meio de saques de dividendos.

Conclusão

Leitura excelente e que recomendo para qualquer pessoa, inclusive para aquelas que não gostam e não querem investir tempo em investimentos. As reflexões que esse livro provocam são surpreendentes e provocam inquietações no leitor, ao mesmo tempo em que o motiva para ter uma vida melhor não só no aspecto financeiro, mas sobretudo nos aspectos não financeiros - e essa é uma das virtudes do livro.

Concordo plenamente com o Trent Hamm quando ele diz que esse livro afeta profundamente seus pensamentos e/ou suas ações, fazendo as pessoas repensarem suas escolhas de vida a partir de perspectivas bem tangíveis.

No final das contas, percebe-se que o dinheiro não é nada mais que uma ferramenta que você usa para maximizar o tempo fazendo coisas que você gosta.

Em outros termos, de nada adianta ter uma vida com ativos tangíveis em quantidade suficiente para aproveitar a vida, se a sua própria vida, ou seus ativos intangíveis, não estiverem disponíveis em quantidade suficiente para serem igualmente usufruídos.

Parafraseando o amigo Viver de Renda, livro recomendadíssimo e com alto potencial de alterar sua relação com o dinheiro. :D

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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