A verdadeira essência do conceito de independência financeira

Normalmente, lemos em livros e ouvimos em palestras que independência financeira significaria ter rendimentos passivos suficientes para cobrir nossas despesas, de modo que, a partir daí, não precisássemos trabalhar para ganhar dinheiro para sobreviver. Esse conceito é incompleto e não capta a verdadeira essência do conceito de independência financeira.

Com efeito, o problema do conceito tradicional (“rendimentos suficientes para cobrir as despesas”) é que ele se reduz a fazer uma simples interligação entre os termos “independência” e “financeira”. Se:

independência = liberdade

financeira = dinheiro

Então ter independência financeira significaria, pura e simplesmente, ter liberdade em relação ao dinheiro, não depender dele para fazer as coisas na vida. Trata-se de um simplificação exagerada do conceito pois, a partir do momento em que as pessoas passam a orientar suas ações a partir de uma visão reducionista de independência financeira, passam a agir com o foco orientado a ganhar mais dinheiro. Afinal, se ganhar mais “dinheiro” significaria diminuir a distância que nos separa rumo à “liberdade”, então a conclusão lógica seria aumentar o ritmo de ganho de capital para eliminar a dependência financeira. Isso seria correto se não fosse o fato de que a vida não se resume a ganhar dinheiro.

O que provocou a minha mudança de visão em relação a esse tema foi a leitura do livro “Dinheiro e Vida”, de Joe Dominguez e Vicki Robin, e o trecho do livro que capta a verdadeira essência do conceito de independência financeira é esse:

A Independência Financeira é qualquer coisa que faça com que você deixe de depender do dinheiro para conduzir a sua vida“.

Logo, ter saúde é um dos meios de alcançar a independência financeira, pois você não dependerá de remédios e tratamentos. Ter auto-estima é um dos elementos vitais para alcançar a independência financeira, pois você dependerá de menos salão de beleza, cirurgias plásticas, cosméticos caros, para se considerar bonita(o). Ter relacionamentos é um dos meios para você conseguir a independência financeira, pois você não precisará dialogar com a TV e gastar tempo em compras para satisfazer sua vida. Ter um casamento sólido é peça-chave para conquistar a independência financeira, pois você não pagará pensão alimentícia, custas judiciais e despesas com honorários.

Qual é o problema da definição clássica de independência financeira? É que ela foca em ter mais dinheiro, em acumular dinheiro. Joe Dominguez e Vicki Robin propõe um conceito em que as energias da pessoa se concentrem em ter mais vida, em maximizar sua vida: ter mais saúde, ter mais relacionamentos, ter mais tempo… Veja que mudança sutil, mas poderosa.

Na medida em que você percebe que o dinheiro é uma coisa externa, e a vida é aquilo que lhe é interno (na verdade,  a vida é tudo o que você tem), e também passa a compreender corretamente a essência do conceito de independência financeira, seu campo de visão se amplia, e você passa a valorizar todos os aspectos de sua vida que lhe conduzam a ter “mais vida”, e não apenas a ter mais dinheiro.

Se você concentrasse sua atenção no foco errado, você tenderia a se preocupar em acumular apenas mais dinheiro, colocando em plano secundário todas as demais dimensões de sua vida, as quais são também igualmente importantes para o alcance da independência financeira. Ou alguém acha aqui que ter dinheiro mas ser doente fará a pessoa viver uma vida financeiramente independente?

E esse é o grande erro, devo dizer, de grande parte do que é publicado por aí a respeito do conceito de independência financeira: eles priorizam o objeto – ter renda passiva suficiente para cobrir suas despesas – em detrimento do sujeito – a vida da pessoa. Ao fazerem isso, eles diminuem o seu campo de visão e, consequentemente, limitam seu raio de ação, que passa a ter como meta quase que obsessiva apenas o ganho de patrimônio tangível, colocando em plano inferior seu patrimônio intangível.

Fique esperto e oriente suas ações a partir do conceito correto de independência financeira. Que coisas você  pode mudar em sua vida para depender menos de dinheiro? Fazer a refeição em casa ao invés de jantar fora? Locar um DVD ao invés de ir ao cinema? Brincar com seus filhos no parquinho ao invés de levá-los para passear no shopping?  Fazer a reconciliação com seu cônjuge? Pense e use a criatividade para preencher sua vida com qualquer coisa que seja mais econômica, mais frugal, e que lhe conduza a depender menos de mais dinheiro.

Se você já está fazendo isso, ou seja, se pratica exercícios físicos com regularidade, cuida de sua auto-estima, reserva um tempo de qualidade com seus filhos, valoriza o relacionamento com seu cônjuge, meus parabéns! Inconscientemente, você já está pavimentando seu caminho rumo à independência financeira, no qual ter dinheiro constitui apenas mais um componente nessa importante tarefa, e não o item mais importante.

Desenvolver o conceito correto de independência financeira será fundamental para que não só seu dinheiro seja bem administrado e cresça em qualidade e quantidade, mas também a sua própria vida dê um salto, e cresça também, tanto em quantidade como em qualidade. 😀

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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15 Responses to A verdadeira essência do conceito de independência financeira

  1. Reverson 14 de fevereiro de 2010 at 18:47 #

    Fantástico post, Hotmar!!
    Na verdade, o melhor que li até agora!
    Enquanto muitos correm atrás de adquirir a tal “independência financeira” abdicando, muitas vezes, de sua vida pessoal e familiar, você nos traz para o real cerne da questão: termos a “liberdade financeira” em nossas vidas, sermos libertos da cobiça por mais dinheiro enquanto a nossa vida passa diante dos nossos olhos sem usufruí-la.
    Não estou aqui combatendo a busca pela “independência financeira” falado nos livros, mas apenas enfatizando que a busca pelo dinheiro não é mais importante do que sua família ou VOCÊ!
    A Bíblia fala para não ajuntarmos nosso tesouro na terra, onde o tempo a corrói e os ladrões a cobiçam e a roubam, mas nos exorta a ajuntar tesouros no céu, onde não há traça nem ladrões. E complementa: “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. (Mt 6.19-21)
    É o meu desejo que nós possamos colocar o nosso coração não na busca pela riqueza ou poder terrenos, mas que ele esteja onde o homem não possa chegar, nem o tempo possa corroer.
    Parabéns e que Deus continue a te abençoar.

  2. hotmar 14 de fevereiro de 2010 at 18:57 #

    Reverson, fiquei muito, muito feliz, ao ler seus comentários. São mensagens como a sua que fazem valer a pena escrever esse blog.

    Percebo q vc tb captou com maestria o núcleo da questão, e o verso bíblico de Mt 6:19-21 é a síntese perfeita daquilo que transmito por aqui.

    Confesso q tb gostei muito de escrever esse artigo, e o retorno seu provou q eu tinha razão.

    Muito obrigado pelas palavras, e q vc continue a nos prestigiar por aqui.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. leo cumin 17 de fevereiro de 2010 at 23:32 #

    opa hotmar otimo post

    so gostaria de fazer um adendo se me é possivel.

    o seu conceito de independencia financeira engloba mais do que realmente ela é. De fato a independencia financeira no “conceito classico” é somente acumular ativos que gerem em renda passiva o necessario para o sustento e manutenção de um padrao de vida.

    entretando no meu ver manter esse padrao de vida, ou seja, poder gastar tempo com amigos, familia, viajar, comer, se vestir, cuidar da saude e etc demanda dinheiro que normalmente é ganho com o gasto de tempo no trabalho e é por isso que busca-se a IF.

    no meu ver atingir a IF so tem sentido se no seu plano esta escrito “poder cuidar da minha qualidade de vida.” acumular dinheiro somente por acumular como voce bem disse nao leva a lugar algum e nao gera uma felicidade completa..

    acredito sinceramente em que devemos amar e gostar do que temos…. nao preciso de uma ferrari para me sentir com um carrao, um carro de uns 100k ja é muito luxo… nao preciso de uma calça com uma etiqueta de marca para me sentir bem, uma roupa que me sirva bem e seja bonita e confortavel mesmo que de brecho esta valendo.

    agora so nao concordo que todos devemos ser frugais….. se todos forem frugais, fecha loja no shopping, fecha lojas de carro, fecha restaurantes gourmet, fecha baladas e cinema e assim vai….

    devemos sim querer mais… esse é o espirito humano, sempre querer mais, no dia em que o ser humano acomoda esta fadado a morte.

    no meu ver o dinheiro sempre foi e é um “meio” e nao o “fim”.

  4. hotmar 18 de fevereiro de 2010 at 11:57 #

    Leo, muito boas as suas observações! Vc conseguiu captar a essência da mensagem, e soube traduzir em palavras aquilo que se deve priorizar na vida.

    Gostaria, nesse sentido, de melhor esclarecer um ponto sobre o qual acho interessante continuar a debater: a vida frugal. Veja que existe uma diferença básica entre viver com frugalidade e viver com privação. A pessoa que gosta de baladas e abre mão das baladas para ter mais dinheiro rumo à independência financeira na verdade não está vivendo uma vida frugal, mas sim uma vida de privações, pois ela está abdicando daquilo que deveria ser exatamente a área na qual poderia gastar mais dinheiro: a sua paixão. Sua qualidade de vida logo logo se deteriorará.

    Da mesma forma, a pessoa que gosta de turismo e abre mão de viagens está sendo incoerente, pois está se privando justamente daquilo que deveria ser sua maior razão para gastar.

    Então, a conclusão lógica é que é possível viver uma vida com qualidade sem passar por privações, desde que se invista o tempo e o dinheiro naquilo que consubstancia a paixão da pessoa. Nesse sentido, a frugalidade tem em suas raízes, em sua base, uma lei básica, que é essa: “decida aquilo que importa para você. Se dê essa permissão de gastar em coisas que lhe trazem satisfação”.

    Escrevi mais a respeito aqui: http://www.valoresreais.com/2010/01/16/nao-economize-como-se-estivesse-prendendo-a-respiracao-debaixo-dagua/ Vale a pena dar uma olhada.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  5. Eduardo Canastra 15 de abril de 2011 at 10:59 #

    Acabei de ler o livro Dinheiro e Vida e tenho seguidos as praticas ali descritas em busca da frugalidade. Sucesso total!! valeu muito pela dica.

  6. Guilherme 15 de abril de 2011 at 22:24 #

    Obrigado, Eduardo! E o livro é realmente ótimo, penso em fazer uma releitura dele em breve….

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  7. Everton Spolaor 12 de fevereiro de 2012 at 18:10 #

    Excelente reflexão. Estou até repassando o link para alguns amigos.
    Convido-o a conhecer meu website em http://www.sombrasdarealidade.com.br.
    Grande abraço.
    Everton.

  8. Investidor de Risco 27 de maio de 2012 at 23:25 #

    Este post, bem como os comentários que o complementam, é o tipo de leitura rápida boa de ter guardada para ser revisitada periodicamente… estas coisas passam desapercebidas no dia a dia… rever conceitos é importante para voltar ao real objetivo…

  9. Guilherme 2 de junho de 2012 at 12:47 #

    Obrigado, Everton! A propósito, muito bom o seu site!

    Valeu, IR! Eu também sempre releio esses posts antigos pra rememorar conceitos importantes… :)

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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