O ótimo é inimigo do bom

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O leitor Rafael me mandou a seguinte mensagem:

Sou iniciante no mundo dos investimentos e pretendo investir cerca de R$ 150 por mês em ações. Entretanto, já sei que as taxas de corretagem normalmente são muito caras para esse valor de aporte, daí a minha dúvida: devo investir mensalmente, ou juntar a grana para formar um “bolo” maior, e investir uma ou duas vezes ao ano, a fim de minimizar os custos com corretagens? A corretora em que opero cobra R$ 10,80 de taxa de corretagem. Obrigado.

Em primeiro lugar, quero parabenizar o leitor pela consciência financeira acerca dos impactos das custos de transação. Conforme já afirmamos em outro tópico, as taxas de corretagem, administração, impostos etc., são fatores que diminuem o retorno líquido final (que é o que importa), fazendo o investidor receber menos pelo investimento. Aliás, é paradoxal que, no sistema financeiro, quanto mais se pague, menos se receba.

Bom, no caso específico do leitor,há duas soluções possíveis, de imediato: ou investir valores maiores, com um número reduzido de operações (juntando a grana numa poupança, p.ex.), ou então aportar o dinheiro num fundo de ações do banco, caso prefira investir mensalmente, tendo em vista que a taxa de corretagem (R$ 10,80), em relação ao valor investido (R$ 150), representa aproximadamente 7% do total aportado.

Há ainda uma terceira alternativa, que é escolher uma corretora que cobre taxa de corretagem mais barata, há corretoras que chegam a cobrar R$ 5 ou menos de corretagem, nos casos de taxa de corretagem fixa. Ou então optar por uma corretora que trabalhe com a tabela Bovespa. Nesse caso, será cobrado 2% do valor aportado, ou R$ 3. É uma solução intermediária.

Se fosse eu: se eu estivesse nas mesmas condições que as suas, e tivesse a oportunidade de investir R$ 150 mensais, o faria numa corretora que trabalhasse com a Tabela Bovespa de corretagem. Ok, pode não ser a opção mais interessante, no entanto, considerando especificamente as circunstâncias que envolvem o valor investido, é a melhor saída para escapar dos enormes custos que teria com taxa de corretagem de R$ 10,80. Quanto à tarifa de custódia mensal, existe um trabalho adicional, que é procurar uma corretora que isente desse valor de custo fixo, mas existem boas corretoras no ramo que oferecem a isenção.

A grande questão que se coloca é: por quê investir mensalmente ao invés de juntar mais dinheiro e investir menos vezes por ano (1 ou 2 vezes)? Porque, nesse caso, o ótimo é inimigo do bom.

A solução “ótima” seria, sem dúvida, juntar mais dinheiro, já que o impacto da taxa de corretagem seria muito menor em relação ao valor investido. Entretanto, o fato de se investir já, agora, regularmente, tem duas vantagens que compensam muito a eventual desvantagem representada pelo maior impacto da taxa de corretagem.

Em primeiro lugar, isso evita a procrastinação. Faz você desenvolver o hábito de investir, faz você desenvolver a disciplina do investimento regular, o que só será possível se você “botar a mão na massa”, isto é, fazer acontecer, na prática, buscando adquirir o costume de sempre aplicar o dinheiro. Se você esperar a situação perfeita para começar a investir, podem acontecer diversas situações no meio do caminho que poderão fazê-lo desistir da idéia, ou usar o dinheiro para outros fins. Já que o objetivo é o investimento para a independência financeira, quanto antes se fizer, melhor.

Além de evitar a procrastinação, utilizar a boa idéia, ao invés da idéia perfeita, fará com que você aprimore sua atividade de investir. Aportando regularmente R$ 150 todo mês, mesmo pagando uma taxa de corretagem percentualmente maior do que se investisse uma grana maior, despertará em você o desejo de se envolver melhor com o investimento: você monitorará melhor a ação, aumentará sua curiosidade sobre o mercado, e naturalmente te animará a buscar mais informações sobre a Bolsa de Valores.

E veja que você fará tudo isso sem correr o risco de pagar um valor absurdo de custos de transação. Tudo bem que 2% pode não ser um valor exatamente barato, mas ainda assim é bem mais barato que investir os R$ 150 num fundo de banco que cobre 4% a.a. de taxa de administração.

Outra saída possível – e totalmente viável – é investir os mesmos R$ 150 num fundo PIBB de banco de varejo, que cobra 1,559% de taxa de administração. A escolha é sua. Boa sorte nos investimentos!

Ampliando o tema

O desejo inato do ser humano é a perfeição. Queremos o melhor carro, queremos a melhor empresa para investir na Bolsa, queremos o investimento mais rentável, queremos o investimento mais barato. No entanto, quanto mais buscamos a perfeição, mais tempo gastamos, chegando a um ponto em que o melhor a fazer é adotar uma boa idéia (encontrada depois de alguma pesquisa, claro), ao invés da idéia perfeita (que consumiria muito mais tempo e demandaria muito mais esforço e energia), e implementá-la, assim que encontrá-la, desde já.

O importante é você ter a mente aberta para escolhas que, embora não sejam as melhores, sejam as mais úteis no presente momento. Saber ser flexível é um das virtudes que toda pessoa deve desenvolver a fim de evitar ficar adiando escolhas.

Queremos as melhores ações para investir na Bolsa, bater o Índice Bovespa, se for possível, mas será que o tempo de pesquisa compensará a eventual rentabilidade acrescida em decorrência desse estudo? Parece que não. E, nesses casos, o bom tem nome e sigla: ETF. Fundos de índice. Bons, baratos e rentáveis.

Queremos os melhores investimentos em renda fixa, bater o CDI. Fazemos pesquisas incansáveis nos fundos de bancos, títulos de crédito privados, letras hipotecárias e tal. É um investimento ótimo. Mas quanto tempo e esforço gastamos nessa pesquisa? Aliás, a rentabilidade extra oferecida realmente valerá a pena? Ou não é melhor ficar numa LFT ou fundo DI de baixa taxa de administração? Nesse caso, dado o cenário atual, me parece que até a poupança deve ter seu lugar cativo no portfólio do investidor – pelo menos enquanto a inflação e a SELIC estiverem nos níveis atuais.

Queremos fazer os melhores trabalhos, produzir os melhores relatórios, escrever os melhores artigos para o blog (aham). Mas será que buscar a perfeição não representa uma procrastinação desnecessária em nossas atividades diárias? Será que escrever um artigo bom, produzir um relatório bom, fazer uma tarefa boa, não é mais do que suficiente e adequado para os fins a que nos propomos? E daí que eles não sejam os melhores? Quem se importa? Fará diferença?

Queremos o melhor gadget. Participamos de fóruns de discussão, fazemos pesquisas de preços, visitamos lojas de eletrônicos, trocamos emails com conhecidos, lemos reviews em revistas e em sites na Internet. Quando nos damos conta de que achamos “o” gadget, eis que surge outro melhor e com mais recursos, e, com isso, adiamos nossa compra. Isso é um perigo! O perigo de se auto-sabotar e de achar que o produto perfeito tornará nossa vida perfeita. Nada disso. Às vezes – aliás, muitas vezes – o segredo está em escolher a solução boa, a solução que, embora não seja a perfeita, seja a suficiente para preencher nossas necessidades.

Pense nisso. Enquanto estivermos gastando nosso tempo buscando o ótimo, na verdade, não estaremos fazendo, durante esse intervalo de tempo, coisa alguma, como bem alertou o Get Rich Slowly num excelente artigo (em inglês) que trata do mesmo tema.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

p.s.: a propósito, ontem foi publicado meu artigo no Dinheirama, Sucesso Financeiro: medir para controlar melhor. Não deixem de ler! :D

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6 Responses to O ótimo é inimigo do bom

  1. Denis Storti 11 de maio de 2010 at 22:18 #

    Estou em uma situação muita parecida: investir 150,00 por mes diminuindo custos.

    Ando pesquisando muitas corretores e encontrei uma com uma solução ótima o suficiente: corretagem da Tabela Bovespa – 2% para 150,00, e custódia ZERO.

    Ela é a Concordia.

    Quero saber se tem boa procedencia, se alguem trabalha com ela ou tem informações a mais..?

    Obrigado,

  2. Guilherme 13 de maio de 2010 at 9:04 #

    Denis, me parece ser uma boa corretora sim.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. Denis Storti 15 de maio de 2010 at 9:26 #

    Valeu Guilherme.

    Só pra constar. Fechei com a Spinelli porque a Concordia, apesar dos custos menores no geral, não consta como um sistema de transferencia de recursos por cartao de crédito Visa o que vai me livrar de pagar TEDs/DOCs. A Concordia também exige depósito inicial de R$3000, e na metodologia de poupança de ações a longo prazo que vou adotar isso poderia me prejudicar, desequilibrando a tendencia das ações que eu escolhesse.

    Falando em ações, para escolher ações baseado em analise fundamentalista é preciso ter mesmo uma macrovisão do mercado e da economia global? Teria um jeito mais simples? Posso confiar nas ‘dicas’ que as corretoras dão com opiniões de economistas?

    Estou muito motivado!
    Abraço. Valeu.!

  4. Guilherme 17 de maio de 2010 at 12:02 #

    Denis, na análise fundamentalista, conta mais as informações que você obtém das empresas nas quais você investe.

    Não confie muito nas “dicas” das corretoras, sobretudo nas “carteiras indicadas no mês”, pois elas vivem mudando de mês em mês, te obrigando a realizar novas operações de compra e venda, o que implica em corretagens, o que se traduz em mais dinheiro pro bolso das corretoras. Quanto menos você operar, menos dinheiro terá que desembolsar, e mais lucros conseguirá reter.

    O que você poderá tirar de útil, em relação às “dicas”, não são as carteiras recomendadas, mas sim os relatórios de acompanhamento das empresas. Ainda assim, fique com um pé atrás, e procure compará-las com a opinião de outros analistas do mercado.

    E, finalmente, *jamais* aja com base em opiniões alheias. Faça suas próprias análises, e decida investir com base naquilo que vc concluiu.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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  1. Valores Reais » Viva sua paixão - 18 de junho de 2010

    […] Dentre os diversos assuntos discutidos no site, alguns, pela sua própria natureza, exigem o uso de termos técnicos. Eu procuro tornar factíveis os mais diversos assuntos, porém, se nem todos são “digeríveis”, é porque eu encontro limites na linguagem, que muitas vezes precisa ser técnica. Não há como escapar disso, se houver preferência pelo entendimento do assunto. Reconheço que o ideal seria produzir somente artigos “ótimos”. Entretanto, em face das disponibilidades de tempo e de outras prioridades, tenho que optar, muitas vezes, pelo artigo “bom”. E prefiro publicar um artigo “bom” do que não publicar nada. Pois, como se sabe, o ótimo é inimigo do bom. […]

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