Resenha: The Intelligent Asset Allocator, de William Bernstein (livro em inglês) – Parte II: Capítulos 7 a 9 e Conclusão Final

Essa é a segunda parte da resenha do livro The Intelligent Asset Allocator: How to Build Your Portfolio to Maximize Returns and Minimize Risk. A primeira parte pode ser lida aqui.

7. Odds and Ends

O melhor vem para o final. Embora os seis capítulos anteriores sejam todos interessantes, úteis, didáticos e proveitosos, considero os dois últimos capítulos os que trazem mais reflexões, tanto sobre aspectos gerais do mercado de capitais, como sobre os aspectos práticos envolvendo a montagem de uma estratégia eficiente de alocação de ativos, adaptada ao perfil de cada investidor.

O capítulo sete começa com uma exposição sobre o investimento em valor (“value investing”), para demonstrar que boas empresas geralmente são más ações, e más empresas são geralmente boas ações. Ademais, comenta-se sobre a alocação dinâmica de ativos, posições de hedging com ativos internacionais e os efeitos do câmbio, e, finalmente, um pouco de finanças comportamentais.

Mas a parte mais interessante desse capítulo, sob o ponto-de-vista histórico, é sem dúvida a que se destina a investigar uma suposta “nova era” do mercado de ações. Isso porque, na época em que o livro estava sendo escrito, por volta do ano de 1999, começo de 2000, as ações estavam sendo negociadas a preços jamais vistos antes. Muitos questionavam a validade de fundamentos como o P/L, dividend yield, pois eles estavam num padrão completamente distorcido: o P/L estava alto demais, e o DY, baixo demais, ambos como resultado da valorização exponencial das ações. Alguns especulavam que o Dow Jones  iria a 36 mil pontos (!!!) (só lembrando que no Brasil existe gente apostando no Ibovespa a 200 mil – cuidado hein pessoal!).

Mas o autor recomendava cautela (p. 52):

“It cannot be repeated often enough. Identify the era´s conventional wisdom and then ignore it”.

Numa tradução livre:

“Não pode ser repetido com freqüência suficiente [a alta das ações na época). Identifique a sabedoria convencional da época, e depois ignore-a” (o destaque é meu).

Dito e feito.

8. Implementing your asset allocation strategy

São três os passos para escolher sua alocação: primeiro, determine sua alocação básica entre títulos e ações, segundo, determine qual o nível de complexidade você pode tolerar (observação pessoal: normalmente, a gente só descobre o nosso nível de tolerância depois de sermos testados em alguma crise), terceiro, determine o nível de tracking error que você pode tolerar. Vou explicar esse último passo de uma forma mais simples: se você é aquele tipo de investidor que fica comparando mentalmente suas ações com o retorno do Ibovespa, então escolha um índice passivo, um ETF como o PIBB ou o BOVA, ou então monte uma carteira de ações individuais que espelhe o Ibovespa.

O planejamento tributário é o item seguinte, e, para nós, brasileiros, assume especial relevância em face da particularidade que envolve a tributação das negociação em Bolsa de Valores: os ETFs são tributados, qualquer que seja o valor do ganho de capital. Já as negociações com as ações individuais só são tributadas nas vendas no mês superiores a R$ 20 mil. Os custos com corretagens são maiores, mas é preciso analisar se não compensaria montar uma carteira de ações que espelhe o índice, como forma de minimização do pagamento de impostos. Quanto mais baixo for seu preço médio, e quanto maiores forem, no longo prazo, as valorizações, conseqüentemente maiores serão os ganhos de capital. Dessa forma, os 15% de imposto de renda recairão sobre uma fatia bem maior de seu patrimônio. E isso fora os dividendos que caem na conta, e a possibilidade de lucrar (ainda que de modo bem modesto), com os aluguéis de ações.

O problema disso tudo é equacionar a posse de ações individuais com os rebalanceamentos. Afinal, se você mantém, digamos, umas 20 ações na carteira, e decide fixar metas de rebalanceamento anual, quais ações você irá vender e em qual proporção? Enfim, depois de saber mais sobre asset allocation, a gente acaba ficando com mais perguntas do que respostas propriamente ditas…

Voltando ao livro: na execução do plano, Bernstein introduz o conceito de “value averaging” (VA), concebido por Michael Edleson, método esse que é uma sofisticação do “dollar cost averaging” (DCA). O VA é um método de execução de investimentos que consiste em também aplicar regularmente, mas aumentar ou diminuir as quantias mensais investidas conforme os movimentos do mercado vão influenciando o valor do investimento: comprar mais ações quando o mercado está em baixa, aportando mais dinheiro do que o normal (lembre-se de que no DCA a quantia mensal é fixa), e comprando menos ações, com menos dinheiro, quando o mercado está em alta – ou até vender. Tudo tendo em mira o valor médio do investimento.

Eu achei muito interessante esse método, que é melhor abordado num livro que o Edleson escreveu, prefaciado por Berstein.

Posteriormente, Bernstein aborda os rebalanceamentos em contas diferidas de impostos  e em contas que são tributadas. Como regra, o autor recomenda rebalancear o menos possível, principalmente nas contas tributadas, onde há pagamentos de impostos sobre ganhos de capital.

Uma nota curiosa: no Brasil, as contas de impostos diferidos são representadas pelos planos de previdência privada do tipo PGBL, onde não há pagamento de impostos durante a fase de acumulação de capital, mas sim na fase de recebimento. Durante a fase de acumulação de capital incidem as famigeradas taxas de carregamento e de administração. Não há incidência de Imposto de Renda semestral, o também “famigerado” “come-cotas”, que faz o Leão “comer” parte dos ganhos de seus fundos de investimentos no final dos meses de maio e de novembro de cada ano.

O PGBL não é para qualquer um – os artigos do Viver de Renda são elucidativos a respeito de como eles podem se tornar um mau negócio -, mas, para aqueles que ainda têm algum ganho com ele, e os mantém, aqui vai uma dica preciosa:  os rebalanceamentos entre os fundos que compõem um plano são livres de impostos, durante a fase de acumulação de capital. Se você tem seu plano estruturado em dois fundos, um de renda fixa, e outro de renda variável, você pode transferir dinheiro de um fundo para outro, desde que respeitado o prazo de carência, sem incidência de imposto de renda sobre eventuais ganhos de capital que tenha tido até então. Mas isso vale apenas para direcionamento entre fundos, durante a fase de contribuição. Se você quiser resgatar, sacar o dinheiro, ele será tributado com alíquotas que serão tão mais pesadas quanto mais cedo você resgatar.

O autor, em seguida, comenta sobre os fundos “asset allocation” existentes nos EUA, e diz que não vale a pena em função de serem novidades, portanto, não terem um histórico de desempenho avaliável, além de o desempenho não ter sido tão bom a ponto de justificar a compra de algum desses fundos.

No Brasil, há os fundos multimercado, que investem em diversas classes de ativos, mas eu não os recomendo porque você perde a essência da alocação de ativos: o controle de sua carteira. Nesses fundos, você delega o controle para um terceiro. Além de pagar altas taxas de administração, por óbvio.

No final do capítulo, são feitas considerações sobre os planos de saques na fase de aposentadoria, bem como feito um resumo de tudo o que foi dito até então, também na forma de uma anedota: agora, é o primo Harry que lhe pede conselhos. E o que você fala?

1. Risco e retorno estão entrelaçados de modo intrínseco;

2. Aqueles que não aprendem com a História estão condenados a repeti-la;

3. O comportamento da carteira de investimentos difere do comportamento de suas partes constituintes;

4. Para um dado grau de risco, há uma carteira que entrega mais retorno; essa carteira ocupa a fronteira eficiente da composição de portfólios;

5. Foque sua atenção no comportamento de seu portfólio, não de suas partes constituintes;

6. Reconheça os benefícios do rebalanceamento;

7. Os mercados são mais inteligentes que você; eles são mais inteligentes que os “experts”;

8. Saiba quão caros são os tomates (uma metáfora para você se lembrar de avaliar os custos dos investimentos, não apenas as taxas de administração, mas também todas aquelas camadas adicionais da qual falamos antes);

9. Boas empresas são geralmente más ações; más empresas são geralmente boas ações;

10. No longo prazo, é muito difícil bater um fundo de índice de baixo custo.

9. Investment Resources

No capítulo final, são dadas dicas de outros livros, periódicos e sites interessantes a respeito do assunto. Completam o livro alguns apêndices, quadros e tabelas, um glossário, índice remissivo e bibliografia completa (que tanta falta faz a muitos livros brasileiros sobre finanças pessoais… fica aqui a dica, se algum escritor brasileiro estiver lendo essa resenha – coloque a bibliografia no final do livro).

Conclusão

Na capa, John Bogle diz: “this is a GREAT book!”. Preciso dizer mais alguma coisa? 😀

William Bernstein trata de modo absolutamente claro e didático o assunto alocação de ativos, sob a perspectiva de um investidor individual que queira conhecer o tema. Extremamente didático, com muita densidade técnica, e escrito de uma forma leve e até com bom humor, você ainda tem a possibilidade de aperfeiçoar o aprendizado no inglês com esse livro.

O que eu lamento é que livros tão bons como esse não sejam trazidos para o mercado editorial brasileiro, infestado, às vezes, com obras de qualidade duvidosa. A minha esperança é que essa situação mude. Sinceramente, eu preferiria pagar R$ 50 comprando uma edição nacional traduzida, do que desembolsar U$ 20 comprando de um site estrangeiro. Mas, enquanto essa realidade não vem, vou continuar sendo um (feliz) cliente da Amazon.

Para quem quer iniciar seus estudos na alocação de ativos, o livro do Bernstein não é uma ótima pedida não. É uma excelente pedida. Você só tem a ganhar investindo seu tempo e seu dinheiro em acumular conhecimento, antes de se preocupar em acumular dinheiro. Pois o conhecimento é seu, e isso ninguém pode tirar de você. E, com ele, conhecimento, você é capaz de conseguir coisas que vão além de sua capacidade de imaginação.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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8 Responses to Resenha: The Intelligent Asset Allocator, de William Bernstein (livro em inglês) – Parte II: Capítulos 7 a 9 e Conclusão Final

  1. Henrique Carvalho 6 de junho de 2010 at 10:17 #

    Parabéns pela resenha!

    Grande Abraço!

  2. Guilherme 6 de junho de 2010 at 11:37 #

    Ôpa, valeu Henrique!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. felipe 7 de junho de 2010 at 0:35 #

    ei… explique melhor esse negócio de “boas ações sao más empresas, e más empresas são boas ações”.

    òtima resenha, e gostei do DCA versus VA.

  4. Guilherme 7 de junho de 2010 at 11:12 #

    Obrigado, Felipe.

    Assim que puder, explicarei mais sobre essa assertiva do Bernstein qto às ações x empresas.

    E sobre o VA, tem artigo novo saindo essa semana explicando mais sobre essa estratégia.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  5. Willy Fog 11 de novembro de 2010 at 15:18 #

    Preciso ler este livro, parece muito interessante! 😛
    .
    Uma pergunta Guilherme: saberia dizer se o autor deste livro e dos demais sobre asset allocation que você já leu administra algum fundo “multimercado” utilizando os princípios propostos em tais livros??
    .
    Parabéns pela Resenha!
    .
    Abcs

  6. Guilherme 12 de novembro de 2010 at 8:21 #

    Willy, os autores desses livros normalmente prestam serviços de consultoria financeira. No máximo, sugerem ativos para compor a carteira, mas não administram fundos. O que não deixa de ser interessante, já que assim eles evitam conflitos de interesse.

    Obrigado!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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