O que um livro de finanças pessoais, outro de literatura brasileira, outro ainda de produtividade pessoal, e mais um de psicologia positiva, têm em comum?
Em Dinheiro pode comprar felicidade, MP Dunleavey escreve (p. 103):
“O que tornou o doutor Csikszentmihalyi tão famoso é o seu trabalho pioneiro sobre o fenômeno denominado ‘fluxo’. Fluxo é o estado de total absorção numa determinada atividade, que, embora possa ser exigente ou até mesmo estressante enquanto você a está realizando, oferece posteriormente um profundo senso de satisfação”.
Luzia de Maria, no maravilhoso Clube do Livro, comenta (p. 143):
“O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, com base em um estudo abrangente, que envolveu milhares de pessoas, chegou à conclusão de que, para se alcançar a excelência da vida, uma pessoa deve descobrir o que ele chamou de fluxo e se oferecer a essa experiência, já que ela permite uma vida melhor.
Por sua vez, Jim Loehr e Tony Schwartz, em Envolvimento total, gerenciando energia, e não o tempo, abordam (p. 64):
“Podemos sentir prazer sem qualquer investimento de energia psíquica, mas o deleite só ocorre em consequência de investimentos extraordinários de atenção”, escreve o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, autor de Flow. “Em geral, os melhores momentos (de nossa vida) ocorrem quando o corpo ou a mente de uma pessoa são exigidos até o seu limite, num esforço voluntário para realizar algo difícil e de grande valor”.
Martin Seligman, no excepcional Felicidade autêntica, diz (p. l80):
“A extraordinária contribuição de Mike [Mihaly Csikszentmihalyi] para a psicologia é o conceito de flow. Para você, quando é que o tempo para? Quando é que você se encontra fazendo exatamente o que quer, desejando que não acabe nunca? É quando pinta, faz amor, joga voleibol, fala diante de um grupo, escala uma montanha, ou quando ouve com simpatia os problemas alheios?”
Nenhum outro livro conseguiu a façanha de ser citado com tanta frequência em diferentes obras aqui já resenhadas, de distintos ramos do conhecimento, quanto o “Fluxo”, de Mihaly Csikszentmihalyi.
O trabalho de Mihaly Csikszentmihalyi destina-se a descobrir os elementos-chave das atividades que levam o ser humano a encontrar a excelência em sua vida cotidiana. Trata-se de uma obra de inegável valor científico, apoiada em pesquisas realizadas com milhares de pessoas no mundo inteiro, obra essa que foi condensada no inovador trabalho denominado “Fluxo”. Tal obra, apesar de seu caráter técnico, foi escrita de modo bastante acessível ao público leigo.
Vale destacar, ainda, que os conceitos desenvolvidos por Mihaly Csikszentmihalyi ainda aparecem nas obras, também resenhadas aqui, de Carol Dweck e Leo Babauta.
Ou seja, ele é, de longe, o livro mais citado pelos livros já resenhados aqui no blog. Diante de tanta repercussão, o site Valores Reais não poderia se furtar a esse compromisso, que na verdade é uma satisfação, de “beber direto da fonte”. Senhoras e senhores, ei-lo aqui: vamos descobrir, afinal, o que é o fluxo, por Mihaly Csikszentmihalyi.
Informações técnicas
Título: A descoberta do fluxo – a psicologia do envolvimento na vida cotidiana
Autor: Mihaly Csikszentmihalyi
Editora: Rocco
Número de páginas: 168
Preço médio: R$ 25
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Capítulo 1 – As estruturas da vida cotidiana
Para a vida adquirir significado, precisamos prestar atenção ao que ocorre em nossa volta, e buscar ajuda em fontes confiáveis. Mihaly Csikszentmihalyi, que vamos apelidar de Mike, apenas para fins de facilitar a leitura (já que o nome dele é bastante difícil de ler…rs), dá destaque ao papel da ciência como espelho confiável da realidade, em que podemos nos basear no momento presente, de acordo com as informações que ela nos fornece.
A primeira pesquisa apresentada é sobre o uso do nosso tempo, que é dividido em três partes: atividades produtivas (trabalho, estudo etc.), atividades de manutenção (cuidados com a casa, alimentação, cuidados pessoais, transporte), e atividades de lazer (consumo de mídia, hobbies, conversas, repouso). São essas três atividades que absorvem nossa energia psíquica, e sobre as quais mantemos nossa atenção. Mike aproveita para fazer duras críticas à televisão (corrente ao qual me filio), que atualmente ocupa a maior quantidade de energia psíquica de todos os atos de lazer.
Capítulo 2 – O conteúdo da experiência
Nesse capítulo é desenvolvido o conceito-chave do fluxo. Para adquirir controle sobre a vida psíquica, que é o combustível básico do pensamento, a pessoa precisa aprender a se concentrar. Concentrar a atenção é, assim, o fundamento para executar operações mentais com algum tipo de profundidade.
Para uma pessoa passar por experiências de “fluxo”, ela precisa enfrentar desafios, consubstanciados em um conjunto claro de metas, límpidas e compatíveis, que forneçam feedback imediato, ou seja, que deixem claro o seu desempenho. Além disso, as suas habilidades devem estar envolvidas na superação de um desafio que está no limite de sua capacidade de controle. Nessas condições, a atenção se ordena e recebe total investimento, de modo que a pessoa fica completamente concentrada, uma vez que sua energia psíquica está sendo exigida ao máximo. O seguinte trecho resume a essência da tese do autor (p. 39):
“É o envolvimento pleno do fluxo, em vez da felicidade, que gera a excelência na vida. Quando estamos no fluxo, não estamos felizes, porque para experimentar a felicidade precisamos focalizar nossos estados interiores, e isso retiraria nossa atenção da tarefa que estamos realizando. Só depois de completada a tarefa é que temos tempo para olhar para trás e ver o que aconteceu, e então somos inundados com a gratidão pela excelência da experiência – desse modo, retrospectivamente, somos felizes”.
Exemplos de fluxo: o alpinista que enfrenta o desafio de escalar uma montanha, o estudante que está envolvido numa trabalhosa pesquisa acadêmica, o cozinheiro que está diante do preparo de um prato que lhe exige total atenção, o atleta que percorre uma maratona, o vendedor que se encontra diante da missão de realizar uma etapa de vendas, e assim por diante.
E por quê as pessoas relatam ter tão poucas experiências de fluxo, em seu dia-a-dia?
Simples: porque para alcançar tal nível de experiência, é preciso um investimento inicial de energia psíquica, e esse tipo de energia é geralmente o que mais falta às pessoas. Ao invés de chegarem em casa, do trabalho, dispostas a realizarem atividades capazes de gerarem fluxo – como prática de exercícios físicos, estudos, desenvolvimento de novas habilidades culinárias, participação em projetos sociais – elas preferem receber um estímulo já pronto vindo da televisão, ou do jogo, ou ainda de qualquer outra forma de vício, que as façam “relaxar” (bebidas, cigarros etc.). Em outros termos, falta energia às pessoas. Esse ponto será retomado adiante, no capítulo 3, com uma conclusão um tanto quanto interessante…
Capítulo 3 – Como nos sentimos quando fazemos coisas diferentes
São feitos comentários sobre os níveis de felicidade, motivação, concentração e fluxo nas diferentes atividades que ocupam o cotidiano de uma pessoa: atividades produtivas, de manutenção e de lazer, com foco principalmente nesse último.
É que há dois tipos de lazer: o ativo (hobbies, esporte, socialização) e o passivo (consumo de mídia, principalmente TV), sendo que o lazer passivo produz pouco fluxo, ao contrário do lazer ativo. O paradoxo, descoberto nas pesquisas, é que as pessoas gastam mais tempo com o lazer passivo do que com o ativo. Assim, o primeiro passo para tornar a vida mais enriquecedora é ordenar as atividades de modo que elas produzam as experiências mais positivas.
Um dado importante é prestar atenção ao que realizamos todo dia e notar como nos sentimos diante de diferentes atividades, lugares e com diferentes companhias, priorizando aquelas que nos proporcionam maiores retornos em termos de satisfação. O vital é descobrir o que funciona melhor no nosso caso.
Capítulo 4 – O paradoxo do trabalho
As pesquisas concluíram que as pessoas, enquanto trabalham, prefeririam fazer outra coisa. Todavia, é no trabalho, e não no lazer, que são encontradas as maiores fontes de fluxo. Isso ocorre porque é no trabalho que geralmente se encontram todos os elementos do fluxo: são atividades que apresentam metas factíveis, exigem o investimento ordenado de energia psíquica e concentração, fornecem feedback imediato, e cujas tarefas exigem habilidades que estão no limiar de nosso controle.
Mais um vez, enfatiza-se que as experiências de fluxo são menos ditadas por condições externas, e mais influenciadas pelo modo com que o indivíduo trabalha.
Capítulo 5 – Os riscos e as oportunidades do lazer
As descobertas das pesquisas conduzidas por Mike são surpreendentes: o indivíduo médio não está preparado para o ócio. As pessoas em geral não sabem aproveitar o tempo livre. Ou melhor, isso não é tão surpreendente assim. Seja sincero: você se prepara para o seu fim de semana? Você planeja o que fazer no domingo (à exceção de ler nossas resenhas dominicais…aham)? Você se prepara para ocupar suas férias? Quando você está lá pelo meio, ou mais para o fim de suas férias, já não vê a hora de voltar para o trabalho?
Se você não tiver metas claras sobre a ocupação de seu tempo de livre, naturalmente perderá a concentração. Perdendo a concentração, você perde também a motivação. Ficando desmotivado, começam a surgir sinais de ansiedade em você, divagando em problemas insolúveis. Para velar esses problemas, mesmo sem estar consciente disso, você procura estímulos externos para ocupar sua mente e aniquilar a ansiedade. É aqui que entram a televisão, o envolvimento em sexualidade promíscua, bebidas, cigarros e toda sorte de drogas. Todas essas atividades não produzem alegria duradoura, mas pelo menos evitam o descontrole. Aparentemente, muitos consideram válida essa barganha.
O segredo para um lazer mais significativo é redimensioná-lo, de forma a ocupar as horas livres com mais atividades de lazer ativo, como hobbies, esportes, socialização, pois são essas as atividades que mais tendem a produzir fluxo. O problema é que nossa sociedade está produzindo uma geração de pessoas viciadas em entretenimento passivo, consumida em atividades que as mantém na inércia, como assistir televisão, por exemplo.
Martin Seligman explica, no livro Felicidade Autêntica, com absoluta clareza, esse drama da sociedade atual: buscam-se “atalhos” para a felicidade, em coisas que levam somente a prazeres (televisão, jogos eletrônicos, bebidas), em detrimento das gratificações, que são as emoções positivas justamente ligadas ao desenvolvimento de nossas forças e virtudes.
Capítulo 6 – Relacionamentos e qualidade de vida
Nesse capítulo, Mike discorre sobre como os relacionamentos – com a família, com os amigos, com a comunidade local – podem produzir experiências de fluxo, e, assim, elevar os níveis de qualidade de vida das pessoas.
Capítulo 7 – Como mudar os padrões de vida
Para ter uma vida mais enriquecedora, é preciso investir energia psíquica em atividades com maior probabilidade de produzir fluxo. A partir dessa mensagem central, Mike formula orientações sobre como melhorar a experiência no trabalho, nas relações familiares e com os amigos.
Um dado curioso, captado desse capítulo, é a intersecção constatada com as ideias concebidas por David Allen, que, dentro da metodologia GTD, destaca a importância de gerenciamento de listas. Mike também dá ênfase a esse aspecto particular da rotina de trabalho, esclarecendo que as listas são essenciais para criar ordem no trabalho, e, assim, concentrar a atenção nas atividades que requerem foco e, ao mesmo tempo, controlar o estresse.
Outro dado interessante é a intersecção com as ideias de Stephen Kanitz, que, no livro Família acima de tudo, realça o papel ativo que os pais devem ter na criação dos filhos. Ora, esse é um dos pontos centrais defendidos por Mike, que sustenta que o investimento contínuo de energia não é necessário só no ambiente profissional, mas também a construção de relacionamentos familiares. O problema é que muita gente acha que esses relacionamentos seriam “naturais”, e exigiriam, portanto, pouco esforço mental.
Capítulo 8 – A personalidade autotélica
Esse é o meu capítulo predileto, um dos melhores capítulos que já li em toda minha vida, particularmente o trecho que vai da página 119 até a 127. Indivíduos com personalidade autotélica são aqueles que fazem as coisas por si mesmas, tendo a experiência como meta principal, em vez de serem motivados por recompensas externas. Pessoas autotélicas não dependem de metas externas para se satisfazerem, uma vez que encontram gratificação nas tarefas por si mesmas.
O “ser autotélico” está relacionado sobretudo ao que a pessoa faz com seu tempo, em particular com seu tempo livre. O exercício de habilidades só é possível em atividades que tendem a produzir fluxo, como o trabalho intelectual e o lazer ativo, ao invés do entretenimento e lazer passivos.
Para ter uma personalidade autotélica, é preciso investir energia psíquica no que ocorre ao seu redor, e se dedicar a atividades por elas mesmas, sem esperar uma resposta imediata. Preocupando-se menos consigo mesmas, elas possuem mais energia psíquica para experimentar a vida. É muito importante controlar nossa atenção, e dirigi-las para atividades que explorem nossas habilidades, nossas forças e virtudes. O mundo está cheio de coisas interessantes para fazer, e não há desculpas para ficar entendiado.
Ao invés de nos preocuparmos tão somente com o futuro, deveríamos é investir nossa vontade e nosso tempo em atividades que nos façam apreciar a vida aqui e agora.
Capítulo 9 – O amor ao destino
As pessoas com personalidade autotélicas produzem atividades de fluxo que não beneficiam apenas elas, mas sim a todas as outras pessoas. Ou seja, elas contribuem para a melhora do mundo. Não é possível que uma pessoa leve uma vida excelente se ela não se sentir pertencente a algo maior que ela mesma.
O desafio, portanto, é usar essa fonte de energia psíquica que concentra a atenção e motiva a ação, ou seja, o fluxo, para finalidades construtivas, que direcionem e contribuem para a melhora da sociedade como um todo. Isso porque as consequências do que fazemos não atingem somente a nós: elas têm impacto sobre o restante do universo. Cada pessoa é única, e participa de um contexto (físico, social, cultural) que ninguém mais compartilha.
Saber canalizar nossa energia psíquica para a produção do bem é um dos desafios que pertence a todos e a cada um de nós.
Conclusão
Sem dúvida, “A descoberta do fluxo” é um dos melhores livros que já li. E não só isso: é um dos que tive a melhor satisfação em resenhar. Não só porque é a fonte para a construção de ideias defendidas em vários outros livros por aqui também já resenhados, como também pela ideias originais ali contidas.
A leitura do livro proporcionou uma séria de novas perspectivas a respeito de temas “clássicos” que envolvem a sociedade atual, temas esses que não se limitam a aspectos práticos das atividades do dia-a-dia, mas que sugerem também reflexões mais amplas a respeito do papel que cada um de nós desempenha dentro do quadro geral da humanidade.
Voltarei a debater, no futuro, com os leitores, diversos tópicos suscitados pela leitura do livro.
O melhor é que o fluxo descreve um tipo de experiência que está ao alcance de qualquer um. Um dos grandes méritos de Mike é possibilitar ao leitor a oportunidade de refletir sobre suas próprias atividades cotidianas, e moldá-las de forma a tornar sua vida mais enriquecedora, não só no aspecto individual, mas também no contexto mais amplo de sua inserção na sociedade em que vive.
Enfim, um livro que tem tudo a ver com Valores Reais. Aliás, devo dizer que a elaboração dessa resenha provocou uma experiência de fluxo em seu autor. Espero que a leitura dessa resenha também tenha produzido o mesmo efeito em você, leitor.
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!
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[...] que “pendurou as chuteiras” da vida corporativa. Isso não chega a ser novidade, pois, como destacamos domingo passado, normalmente é no trabalho que realizamos mais experiências de [...]
[...] fará com que você ative circuitos cerebrais e biológicos responsável pela sensação de fluxo, fazendo, por via de consequência, seu tempo [...]
Boa resenha Guilherme!
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Nunca tinha ouvido falar deste autor. O livro deve ser mesmo interessante, já que foi citado por autores de diferentes áreas do conhecimento. Pena que está indisponível pelo submarino.
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Abcs
Valeu, Willy!
Você pode tentar pegar o livro na Estante Virtual, pois o livro já é de uma edição um pouco mais antiga.
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!
Menino, tô louca com esse Mike! Adorei, quero devorar esse livro logo que tiver oportunidade. Adoro temas como esse que nos dão a chance de ver um brilho, uma luz no nosso cotidiano e faz com q enriqueçamos muito mais as nossas vidas.
Abraço, fique com Deus!
Pô Guilherme, parabéns! Parabéns mesmo pela resenha e com isso nos proporcionar o conhecimento mais afundo desse livro. Um grande abraço.
Andreia, obrigado! Esse livro é o que há!
Luís, obrigado!
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!
Incrível… varias situações da minha vida em que eu, sem explicação nenhuma, estava à vontade e com tudo dando certo podem ser explicadas por esse tal fluxo… muito legal!
Legal, Eduardo!
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!
O livro “A Descoberta do Fluxo” está esgotado para venda. Agradeço se alguem informar o título em inglês ou souber onde ainda há exemplar em portugues a venda.