Resenha: Simplicidade Voluntária, de Duane Elgin

Adotar um estilo de vida simples, que promova a frugalidade, o crescimento pessoal e modos ecologicamente sustentáveis de vida, é uma tarefa que nada tem a ver com levar uma vida de privações e pobreza. É essa uma das mensagens centrais desse verdadeiro clássico da literatura, cuja primeira edição data de 1981, e que o Valores Reais tem a grata satisfação de resenhar hoje.

A editora Cultrix costuma brindar os leitores com a tradução de obras que são verdadeiras pedras preciosas, como o livro Dinheiro e Vida, de Joe Dominguez e Vicki Robin, não por acaso resenhado também aqui no site.

Qual é a imagem que você idealiza de uma vida feliz? Ou melhor, onde você se imagina curtindo momentos de alegria e felicidade? Se você for como boa parte das pessoas que eu conheço – e que você conhece também – provavelmente se imaginará passando seus dias numa casa de campo, ou numa casa de praia, longe do burburinho dos grandes centros.

São locais idealizados por muita gente – basta ver as sensações que se despertam nas pessoas quando, em viagem  de carro ou de ônibus numa estrada, se deparam com fazendas, sítios e casas localizadas no meio rural. Ou então, quando passam perto de praias e vêem casas e habitações longe da agitação. Essas imagens remetem a sensações de paz, liberdade, conforto e tranquilidade.

Logo, essas pessoas igualmente batalham – ou simplesmente sonham – para ter, um dia, sua própria casa de campo, ou casa de praia, distante da agitação das grandes cidades. Se você conhece alguma dessas pessoas – ou melhor, se você é uma dessas pessoas – então o livro de Duane Elgin lhe fornecerá valiosos elementos para caminhar em direção a esse estilo de vida mais simples. Elgin vai além e mostra que não é preciso morar na zona rural ou afastado dos grandes centros para adotar a simplicidade voluntária. Ele mostra que a adoção de hábitos mais simples está menos no exterior, e mais focado no interior das pessoas, na mentalidade delas. Vamos então destrinchar a Simplicidade Voluntária, mergulhando na resenha abaixo!

Informações técnicas

Título: Simplicidade voluntária – Em busca de um estilo de vida exteriormente simples, mas interiormente rico
Autor: Duane Elgin
Número de páginas: 168
Editora: Cultrix
Preço médio: R$ 22

Compre o livro no Submarino [clique aqui]

1. Simplicidade Voluntária e o novo desafio mundial

Adotar um estilo de vida simples é viver com mais consciência, com mais intenção e um propósito definido. É evitar distrações desnecessárias e buscar uma vida de equilíbrio, de forma contínua, dinâmica e real. A vida simples defendida no livro não se confunde e não é viver uma vida de pobreza, que é prejudicial e degradante, ao passo que a vida simples é intencional (lembre-se de que a simplicidade de que trata o livro é a voluntária) e fortalecedora. Tampouco significa abrir mão do progresso, uma vez que busca tirar proveito das tecnologias mais compatíveis com um modo de vida sustentável. Também não significa um retorno ao ambiente bucólico, uma vez que é possível viver uma vida simples onde quer que se esteja, até mesmo numa grande metrópole.

O novo desafio mundial consiste em adotar padrões ecológicos de vida, onde as pessoas possam compartilhar interesses, ou seja, viver de modo não egoísta, e menos orientado ao consumo e à posse de bens materiais.

2. Pessoas que vivem com simplicidade

Pesquisas realizadas pelo autor comprovaram que as pessoas estão se preocupando mais com os aspectos psicológicos e espirituais da vida, adotando um estilo de vida ecologicamente sustentável e mais simples, que promova o crescimento pessoal, valorize os relacionamentos e integre as pessoas na comunidade em que vive, amplificando os processos de cooperação e reforçando os laços de solidariedade.

São trazidos no livro depoimentos de diversas pessoas, que mostram como encararam o desafio de viver a simplicidade em seu dia-a-dia, e dos benefícios que foram incorporados ao seu novo estilo de vida. Não se trata de um processo de afastamento do mundo, mas sim de construção de um novo processo de civilização.

3. Percepção da vida

A simplicidade voluntária requer uma mudança de mentalidade em relação ao universo, considerando-o como um lar a ser preservado, e em relação à morte, considerando-a como uma aliada, uma vez que, como temos um período finito de tempo na Terra, passamos a estar mais conscientes da necessidade de valorizarmos menos os aspectos materiais da vida, e valorizarmos mais os aspectos intangíveis. Passamos a apreciar, desse modo, de maneira ainda mais intensa, essa dádiva que é a vida.

4. Uma vida mais consciente

É destacada a importância de assumirmos um efetivo controle de nossas ações e pensamentos, uma vez que boa parte deles não passa de reproduções automáticas de comportamentos enraizados na cultura da sociedade, principalmente em relação ao consumo.

Trata-se de remodelar o nosso “eu”, e de ativarmos a nossa capacidade de viver uma vida mais consciente, e menos escravizada por padrões externos de comportamento. Ao realizarmos essa tarefa, não só ampliaremos nossa capacidade de olhar criticamente a realidade criada pela sociedade, como também aumentaremos o leque de nossas próprias escolhas, uma vez que o futuro passa a ser mais conduzido por nós, e menos pelos “outros”.

5. Uma vida mais simples

É o melhor capítulo do livro. Duane Elgin começa esse capítulo dizendo que faz toda a diferença a simplicidade ser voluntariamente escolhida, e utiliza o exemplo de duas pessoas que usam a bicicleta para ir ao trabalho, para economizar combustível. A primeira usa a bicicleta para se exercitar fisicamente, ter contato com a natureza e poupar energia. Ele teria a possibilidade de usar o carro, mas opta pela bicicleta, e sente grande satisfação em optar por esse meio. Já a segunda pessoa vai de bicicleta ao trabalho porque não tem condições de comprar o carro. Ela anseia por ter um carro, e fica ressentida toda vez que tem que ir e voltar do trabalho de bicicleta.

Exteriormente, a atividade é a mesma. Contudo, as perspectivas pessoais são completamente diferentes. Qual das duas oferecerá uma resposta funcional mais eficiente para a economia de combustível: a primeira ou a segunda?  Fica evidente, a partir desse exemplo, descobrir se a vida simples foi voluntariamente escolhida ou externamente imposta. E mais, a simplicidade voluntária envolve não apenas os aspectos puramente objetivos da atividade, mas sobretudo os aspectos subjetivos, ou seja, a intenção com que se faz.

No plano do consumo, uma vida simples requer um equilíbrio, um meio termo, entre os extremos da pobreza e do excesso. E essa é uma tarefa estritamente pessoal, que somente a nós cabe realizar. Precisamos diferenciar necessidades – bens essenciais à nossa sobrevivência e crescimento – dos desejos ou vontades – bens materiais supérfluos, que apenas gratificam nossos desejos psicológicos – e encontrar aquilo que é suficiente para nós, como, aliás, defendem Joe Dominguez e Vicki Robin.

No âmbito das relações interpessoais, viver com mais simplicidade significa deixar de lado conversas e bisbilhotices inúteis, e valorizar a comunicação para reforçar relacionamentos e promover crescimento pessoal.

A capacidade de viver de forma mais simples requer, sobretudo, menos identificação com as posses materiais, através de um processo de maior auto-conscientização.

6. Civilização em transição

De acordo com Elgin, estamos vivendo um período de colapso na civilização, em que impera a desordem nos sistemas, bem como a perda da coesão social. Há três saídas possíveis para esse período de crise: colapso e desintegração da civilização, onde o fim é a destruição da sociedade; estagnação, onde prevalece a manutenção do status quo,  e, por último, revitalização, onde se busca construir um futuro sustentável, ancorado em novos valores.

7. A civilização revitalizada

Para a sociedade se revitalizar, é essencial adotar a simplicidade no viver, baseado, também, na Lei da Simplificação Progressiva, de Arnold Toynbee (p. 144):

“À medida que a evolução prossegue, a civilização passa a transferir parcelas crescentes de energia e atenção dos aspectos materiais para os aspectos não-materiais da vida”.

As mudanças que apóiam a revitalização da civilização são focadas, principalmente, no uso de bens e serviços ambientalmente sustentáveis. Isso de fato vem ocorrendo, pela preocupação cada vez maior das pessoas e das empresas em favorecer o uso de tecnologias verdes, diminuindo seu impacto ambiental.

Ademais, é preciso sair do estado de hipnose cultural do consumismo, e, aqui, Elgin traça severas críticas à televisão.

Todas essas medidas são necessárias para a construção de um futuro sustentável, tanto no plano individual, quanto no plano coletivo, onde a participação de cada um, ao transformar sua própria vida, é fundamental para caminhar nessa direção.

Conclusão

É outro livro excelente, carimbado com o selo de “fortemente recomendado”, do site Valores Reais, não só por valorizar os aspectos intangíveis da vida, que se constitui no núcleo da mensagem desse site, mas também por destacar que as mudanças fundamentais na vida dependem menos de governos, projetos sociais e da sociedade, e mais da atuação individual de cada pessoa no plano de sua própria vida.

Eliminar distrações desnecessárias, ter consciência de suas próprias atitudes de consumo e de relacionamento, e agir de forma cooperativa com os demais membros da comunidade onde se vive, são alguns dos pontos mais destacados nessa obra, de inegável valor, cujas lições são de fato atemporais, e permanecem vivas e bem atuantes, mesmo decorridos quase 30 anos (!) de sua publicação original.

As ideias basilares dessa obra encontram muita ressonância com o livro Dinheiro e Vida, portanto, quem já tiver lido esse último livro, encontrará na obra de Duane Elgin um complemento de primeira, onde se foca mais nos aspectos intangíveis, ecológicos e comunitários, e menos nas questões financeiras.

Para finalizar, deixo aqui a dica de um site brasileiro, com conteúdo qualificado sobre o tema, cujo endereço não poderia ser mais apropriado: www.simplicidadevoluntaria.com 😀

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

, ,

4 Responses to Resenha: Simplicidade Voluntária, de Duane Elgin

  1. Rosana 22 de janeiro de 2014 at 12:07 #

    Esse livro deve ser muito bom, para mim esse já é um dos melhores posts do Valores Reais.
    O que mais me chamou a atenção é o livro ter sido publicado em 1981 e ter assuntos tão atuais. Se naquela época o autor já percebeu tudo isso, imagine hoje quão pior as coisas estão em relação ao materialismo…
    Eu ainda não havia pensado na possibilidade de viver uma vida realmente simples em uma caótica cidade grande. Sempre acreditei que a vida simples e feliz tem total relação com aquela casinha em um sítio e nenhuma com a cidade grande. Isso fez com que eu me interessasse ainda mais pelo livro.
    Gostei do exemplo da bicicleta, diferentes perspectivas podem tornar a pessoa satisfeita ou frustrada com o que possui.
    Vou procurar esse livro. Sua resenha ficou ótima, parabéns!

    • Guilherme 22 de janeiro de 2014 at 12:33 #

      Realmente, Rosana, os assuntos tratados no livro estão mais atuais do que nunca!

      Abç!

Trackbacks/Pingbacks

  1. Valores Reais » A arte do desapego - 23 de julho de 2010

    […] da vida provoca um círculo vicioso muito bem descrito no livro Simplicidade Voluntária (p. 82), resenhado no blog recentemente: “Quando o objetivo fundamental de uma pessoa é maximizar os prazeres materiais, minimizando […]

  2. Valores Reais » A Lei da Simplificação Progressiva e a crescente valorização dos serviços intelectuais - 31 de julho de 2010

    […] livro Simplicidade Voluntária, resenhado no aqui no site há algumas semanas atrás, Duane Elgin faz referência à Lei da Simplificação Progressiva, formulada pelo historiador […]

Deixe uma resposta

Powered by WordPress. Designed by Woo Themes