Resenha: All about asset allocation, de Richard Ferri – Parte II: Capítulos 9 a 15, e conclusão final

Essa é a segunda parte da resenha do livro All About Asset Allocation, Second Edition. A primeira parte pode ser lida aqui.

9 | Real estate investments

Capítulo muito interessante sobre os investimentos em imóveis. Para mim, em particular, é o melhor capítulo do livro, pois aborda os REITs, que nada mais são do que os fundos imobiliários norte-americanos. Os quatro conceitos-chave explicados no capítulo são:

– Imóveis são uma classe de ativos distinta das ações e da renda fixa;

– Os REITs são uma maneira conveniente de investir em imóveis;

– Os REITs têm baixa correlação com as ações e a renda fixa, durante períodos prolongados;

– Ser proprietário de uma casa provê um lugar para morar e ganhos potenciais.

Para mim, o destaque vai para os dois itens destacados acima, que comprovam que os fundos imobiliários constituem, sim, excelentes alternativas de investimento no mercado imobiliário. E eles ainda contam com esse bônus de servirem muito bem a uma estratégia de alocação de ativos. Nas palavras de Richard Ferri (p. 171):

“A well-diversified portfolio that holds real estate investments alongside stock and bonds has provided superior portfolio returns over one that does not include real estate. That was true even during the poor real estate market that occurred in the mid-2000s”

Por isso, a recomendação de Ferri é enfática (p. 175):

“The only commercial real estate recommended in this book are equity REIT funds and ETFs”.

A porção da carteira destinada aos REITs, de acordo com o autor, deveria ser em torno de 10%.  Para ele, uma alocação em 20% seria muito. Nesse ponto, eu ouso discordar de Ferri, uma vez que cada investidor deve encontrar a proporção de ativos que seja melhor compatível com seus objetivos. No meu caso, por exemplo, a participação dos FIIs está em quase 30% do total de ativos, e há outros colegas que também têm um percentual de ativos de FIIs superior a 20%.

10 | Alternative investments

O autor não chega a ser um crítico tão ácido quanto o Bogle, mas ele também faz severas críticas a investimentos alternativos que, embora possam ter a atratividade da diversificação, têm, como desvantagens, a falta de liquidez e os altos custos. Dentre esses investimentos alternativos que o autor não gosta se encontram as commodities e os hedge funds, que não seriam bons investimentos a longo prazo.

11 |   Realistic market expectations

A construção de um bom plano de investimentos requer que o investidor seja conservador ao estimar suas expectativas de retornos reais, a fim de não ser frustrado em suas previsões.

Nesse capítulo, o destaque vai para os cuidados que o investidor deve ter em relação à inflação, pois ela deve ser descontada dos retornos nominais, com o objetivo de se descobrir os retornos reais dos investimentos. Aliás, por falar em inflação, recomendo a leitura desse excelente artigo no blog HC Investimentos: Como calcular a rentabilidade real de um investimento?

Embora não se saiba os retornos futuros de cada classe de ativos, é possível, ao menos, fazer previsões acerca da relação risco/retorno de cada um deles. Assim, as small caps têm mais risco que as large caps, mas devem ter desempenho igualmente superior no futuro. Os títulos de crédito privados têm mais risco que os títulos do Tesouro Federal, mas devem igualmente superá-los em rentabilidade no futuro.

12 | Building your portfolio

A elaboração de uma carteira de ativos deve levar em conta as necessidades do investidor, que são únicas, e variam de pessoa para pessoa. Ademais, você deve conhecer sua própria tolerância ao risco se quiser ser bem sucedido em seu plano (um artigo sobre tolerância ao risco será publicado no decorrer dessa semana). Ferri divide os ciclos de vida de um investidor em quatro fases: early savers, midlife accumulators, transitional retirees e mature retirees, sendo que o portfolio deve obedecer a cada ciclo de vida. Os que estão no começo da carreira profissional – early savers – podem ter uma concentração elevada de ações em seu portfólio, até 80% do total da carteira, concentração essa que vai diminuindo com o decorrer do tempo.

Outra ideia interessante desse capítulo é o percentual de renda fixa que deve um investidor possuir, conhecida como “your age in bonds”. Ou seja, se você tem 30 anos, deve ter, em teoria, 30% de sua carteira em renda fixa. Ferri sugere uma versão modificada dessa ideia, baseada nas necessidades de vida de cada pessoa. A regra “your age in bonds” é a inversão da “regra do 100”, uma vez que essa indicaria o percentual de renda variável que uma pessoa deveria possuir.

Eu não gosto desse tipo de regra simplista, como escrevi nesse artigo: Anos 2000: década perdida para os investidores norte-americanos?

Ferri “bate na tecla” da necessidade da alocação de ativos ser um fator estritamente pessoal e único, e isso, ao menos sob minha ótica, constitui uma das mais valiosas lições do livro. Isso porque, embora os investidores sejam parecidos em muitos aspectos, certamente não os são em muitos outros aspectos. Daí a necessidade de os portfólios serem construídos levando em conta as características pessoais de cada investidor: seu estilo de vida, suas necessidades, sua tolerância ao risco etc.

13 | How behavior affects asset allocation decisions

As finanças comportamentais têm um capítulo próprio no livro, e aqui o autor explica que uma carteira de ativos alocada com sucesso requer de você uma atitude racional e metódica ao gerenciar seu portfólio. A melhor alocação de ativos é aquela em que o investidor se sente confortável em todas as condições do mercado, e que sobretudo tenha condições de mantê-la mesmo durante baixas prolongadas de mercado.

Conhecer a sua tolerância o risco é fundamental, e Ferri propõe testes para avaliar o nível de tolerância ao risco.

14 | When to change your asset allocation

Há três razões legítimas que justificam uma mudança na alocação de ativos. São elas:

– Sua meta financeira está bem próxima de ser alcançada;

– Você percebe que não precisará do dinheiro acumulado durante sua vida;

– Você percebe que sua tolerância ao risco não era tão alta quanto você pensava que fosse.

Para cada situação, o autor propõe soluções para a mudança de alocação. As duas primeiras razões para uma mudança de alocação podem ser feitas com os benefícios da calma e da reflexão. Já a última mudança de alocação pode se tornar emocionalmente pesada, a menos que você reconheça os sintomas do excesso de risco cedo e lide com a situação de modo apropriado.

E o que fazer se um pesado bear market ocorrer exatamente um pouco antes da aposentadoria? Foi o que aconteceu com milhares baby boomers nesse último tufão financeiro. Nesse caso, são 5 as lições de Ferri:

– Não aumentar o risco;

– Não diminuir o risco;

– Tentar economizar e poupar mais nos anos ou meses finais antes da aposentadoria;

– Você pode ter que trabalhar um ou dos anos a mais (foi a dica que mais li nas edições do ano de 2009/2010 da revista Kiplinger´s, de finanças pessoais dos EUA, provando que a tese de Ferri é acertada);

– Se você decidir ir em frente com seu plano de aposentadoria, você deve reduzir seus gastos até que sua conta volte a ter um valor maior. Tente gastar apenas a porção do seu portfólio gerada pelos juros e dividendos.

15 | Fees matter in asset allocation planning

Bom, quem acompanha o blog há algum tempo poderia dispensar os comentários desse capítulo… :)

Aqui, Ferri demonstra a importância de reduzir os custos operacionais, que abrangem não somente as taxas de administração, como também os custos tributários. Ter estratégias eficientes para a redução da carga tributária é uma maneira de elevar os ganhos.

O autor inclusive explica uma estratégia que é bem parecida com a estratégia de redução de estoque de imposto a pagar, do INI, o qual noticiamos há algum tempo. Será que o autor do artigo no Informativo INI aproveitou as ideias do Richard Ferri para escrever aquele texto?

Conclusão

Sistematizar um bom plano de investimentos requer habilidade para selecionar ativos que tenham baixa correlação entre si, para redução de riscos, investir em ativos bem diversificados, manter os custos e tributos sob controle, e rebalancear a carteira periodicamente, a fim de manter os pesos de cada ativo dentro dos percentuais originais – o autor sugere fazer o rebalanceamento anualmente.

Ferri trata com profundidade o tema, com explicações históricas e bem detalhadas, sobretudo do mercado de ações e de renda fixa, ambos, é claro, dos Estados Unidos. Fica visível o apreço dele pelos REITs, como maneira inteligente de diversificar a carteira, reduzir os riscos, e incrementar os retornos de longo prazo, bem como o seu desapreço pelos investimentos em commodities, hedge funds e private equity funds.

Ele é mais um que advoga a tese do uso dos ETFs e fundos de índice de baixo custo, como veículos apropriados para a montagem de uma carteira bem diversificada, que capte a rentabilidade total do mercado.

Gostei particularmente do capítulo 12, em que ele foca no método “ciclo de vida” para a montagem dos portfólios. Pretendo retomar esse tema em posts futuros.

Esse livro é mais “sério” e mais denso que o do William Bernstein, resenhado antes. De uma maneira geral, eu recomendo primeiro a leitura do livro do Bernstein, por ser mais bem-humorado e com menos páginas.

Em resumo, “All about asset allocation” é um livro excelente, que lhe abre as mentes para o desenho de uma estratégia de alocação de ativos que vá ao encontro de suas necessidades. É o mais completo que já li até hoje sobre o tema, o que justifica inteiramente o título “all about”. Se você está a fim de encontrar um livro que lhe mostre, de maneira abrangente, os fundamentos da alocação de ativos, esse livro é o que há. 😀

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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6 Responses to Resenha: All about asset allocation, de Richard Ferri – Parte II: Capítulos 9 a 15, e conclusão final

  1. Henrique Carvalho 19 de setembro de 2010 at 1:09 #

    Clap Clap Clap!

    Ficou excelente a resenha Guilherme!

    Grande Abraço!

  2. Jônatas 19 de setembro de 2010 at 11:28 #

    Guilherme,
    Uma das disciplinas que leciono é “Economia e mercado”. Por afinidade e gosto pelo tema acabo focando o lado investimentos. Sempre que um aluno pede indicações de livros sobre o assunto eu tenho falado: Não compre livro nenhum ainda, leia o Blog Valores Reais.

    Mais uma resenha fantástica; tenho aprendido muito por aqui, melhor que isso, tenho repensado muitas coisas em meus investimentos.

    Grande abraço, fica com Deus.

  3. Willy Fog 19 de setembro de 2010 at 20:00 #

    Gostei muito desta resenha colega Guilherme! 😀 :) 😛

    Continue com o ótimo trabalho.

    Abcs

  4. Guilherme 19 de setembro de 2010 at 21:13 #

    Henrique, valeu! 😀

    Jônatas, fico honrado pelas indicações que faz aos seus alunos! :)

    Willy, vou continuar!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  5. Major 16 de maio de 2011 at 16:21 #

    Terminei de ler hoje este livro do Richard Ferri.

    Gostei bastante. O único ponto que não entendi, como vc bem notou, foi a questão de nas alocações sugeridas no livro nunca haver uma recomendação acima de 10% para os REITs. Na pagina 171 ele justifica esta posição dizendo haver apenas 100 REITs negociados no mercado americano o que acarretaria em um mercado de baixa liquidez e alta volatilidade.

    Agora eu pergunto: o caso brasileiro dos fundos imobiliários não seria ainda pior ?

    Ótima resenha Guilherme !

  6. Guilherme 16 de maio de 2011 at 20:45 #

    Olá, Major, obrigado!

    Sobre a questão dos REITs: olha, para falar a verdade, eu acho que seria sim, ainda pior, uma vez que o mercado está muito concentrado em poucas empresas. Isso não seria motivo suficiente para dispensar o investimento em FIIs, mas aumenta muito os riscos.

    Para investir em fundos imobiliários, uma ampla diversificação é fundamental.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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