Resenha: Positivamente irracional, de Dan Ariely

Um dos temas que mais despertam minha curiosidade, no âmbito das finanças, é aquele destinado a estudar a economia comportamental, ou seja, os variados aspectos psicológicos que levam o ser humano a tomar decisões sobre o dinheiro, não só no seu aspecto de investimentos, como também – e principalmente – no lado de consumo.

Dado que o ser humano é um ser que, às vezes, é dominado e influenciado por emoções, torna-se necessário conhecer melhor os mecanismos de funcionamento da mente em tais situações, a fim de que possamos orientar nossos próprios comportamentos em nosso benefício presente e futuro. Foi-se o tempo em que se acreditava que os seres humanos eram agentes econômicos puramente racionais.

A irracionalidade está presente de forma inconsciente em muitas das decisões que tomamos em nosso dia-a-dia. O problema é que, em variadas situações, elas repercutem para o futuro, afetando nosso comportamento de longo prazo, o que pode causar danos a nossas vidas diárias. Ter consciência dos mecanismos de funcionamento da mente é, assim, passo essencial para que possamos dirigir e controlar melhor nossas vidas.

“Positivamente irracional” está ancorado em conclusões extraídas de diversos testes científicos realizados por Dan Ariely e sua equipe de colaboradores, no prestigiado MIT. O livro vai além, e contém aspectos da própria história do autor, que teve que superar um doloroso tratamento hospitalar visando se recuperar de um acidente que queimou mais de 70% de seu corpo.

Vamos, então, mergulhar na obra “Positivamente irracional”! 😀

Informações técnicas

Título: Positivamente irracional: os benefícios inesperados de desafiar a lógica em todos os aspectos de nossas vidas

Autor: Dan Ariely

Número de páginas:292

Editora: Campus-Elsevier

Preço médio: R$ 60

Parte I | As maneiras inesperadas como desafiamos a lógica no trabalho

Por que os polpudos bônus em dinheiro a executivos de alto escalão do mundo corporativo nem sempre funcionam? Experimentos conduzidos pela equipe de Dan na área rural da Índia, envolvendo prêmios em dinheiro para exercícios cognitivos e mecânicos de pequena, média e alta complexidade, chegaram à conclusão de que premiar as pessoas monetariamente, para motivá-las, pode ser uma faca de dois gumes. Explica o autor (p. 31):

“No caso de tarefas que exigem habilidades cognitivas, incentivos baixos a médios com base no desempenho podem ajudar. Mas quando o nível de incentivo é muito alto, o prêmio às vezes absorve excesso de atenção, dispersando a mente em relação à tarefa com pensamentos referentes à recompensa. Essa situação pode gerar estresse e, em última instância, comprometer o nível de desempenho”.

Existe um ponto a partir do qual o aumento de incentivos financeiros não se traduz em melhor desempenho. Dessa forma, as empresas poderiam graduar os estímulos em dinheiro, em função do grau de performance que pretendem induzir nos funcionários.

Em relação ao trabalho, é importante que as pessoas, além de fazerem algo que amam, sejam inseridas em um ambiente que lhes proporcionem condições significativas, ou seja, que se sintam estimuladas a fazer o seu trabalho. Ao trabalho, assim, precisa ser conferido um significado, ou seja, uma utilidade. Isso pode ser feito, por exemplo, mediante elogios, ainda que pequenos, aos seus colegas de trabalho e subordinados na relação hierárquica. Os elogios têm potencial para produzir efeitos muito benéficos na mente dos empregados que os recebem, funcionando como um estímulo para a melhor produtividade.

Outra conclusão interessante a que chegou o autor foi o fato de que tendemos a supervalorizar aquele trabalho em que despendemos tanto esforço. Essa supervalorização do objeto de nosso trabalho chega a tal ponto que imaginamos que outras pessoas encaram nossas obras também sob a mesma perspectiva tendenciosa. No entanto, quando o esforço é infrutífero, e não chegamos a concluir o trabalho, nós não nos sentimos tão ligados ao objeto.

Parte II | As maneiras inesperadas como desafiamos a lógica em casa

Essa parte é muito curiosa, e considero o capítulo 6, que a inaugura, a melhor porção do livro. Esse capítulo trata da adaptação, sendo a premissa geral constatada a de que todos os seres, inclusive os humanos, podem se acostumar a quase tudo, com o passar do tempo. São feitas considerações sobre a adaptação hedonista, que tem a ver com a maneira como lidamos a experiências dolorosas ou prazerosas.

Para fazer a adaptação trabalhar a nosso favor, especificamente no caso de compras, o autor sugere que as façamos a intervalos regulares, ao invés de comprar tudo de uma só vez, a fim de tornar mais lento o processo de adaptação. Surge, assim, o conceito de compras intermitentes.

Suponha que você receba uma bolada de R$ 2 mil. Ao invés de torrar tudo numa TV, num única compra, ou então numa farra de compras de um único dia no shopping, o autor sugere que você faça várias compras intermitentes com o dinheiro; por exemplo, gastando R$ 400 ao longo de 5 meses. Agindo assim, a felicidade não chegará a um nível inicial tão elevado, mas será revigorada continuamente, a cada nova compra, em consequência das mudanças reiteradas.

Além disso, para maximizar nossa satisfação total na vida, sugere-se que redirecionemos nossos investimentos em produtos e serviços em prazeres mais efêmeros (mergulhos, viagens etc.), ao invés de gastarmos em coisas que nos proporcionem experiências contínuas (sofá, TV etc.). Trata-se da tão aclamada ideia de se investir em “experiências”, em vez de “coisas”.

Exemplifica o autor (p. 163):

“Portanto, se você estiver em dúvida entre investir numa experiência passageira (mergulho) ou numa experiência constante (novo sofá) e avaliar que as duas produzirão impacto semelhante em sua felicidade total, selecione a mais efêmera. No longo prazo, a contribuição do sofá para sua felicidade provavelmente ficará muito aquém de suas expectativas, enquanto o prazer reiterado e as lembranças duradouras da prática do mergulho provavelmente deixarão pegadas muito mais profundas e extensas em sua vida”.

Como nem todos reagem da mesma maneira à adaptação, Dan sugere que você explore seus padrões individuais e identifique os fatores que mais instigam sua capacidade de adaptação.

Outros comentários são feitos sobre o mercado de namoros online, e a questão das doações de dinheiro para obras de caridade (ponto esse também abordado no livro Idéias que colam, de Chip Heath e Dan Heath).

Outro capítulo que chamou minha atenção foi o 10, que trata dos efeitos duradouros das emoções efêmeras. Sabe aquele velho ditado de que você não deve agir de cabeça quente? Pois os experimentos científicos de Dan confirmam que essa proposição é exata, ou seja, que não devemos agir influenciados sob emoções negativas, pois elas podem se perpetuar para o futuro, criando um padrão de comportamentos. Diz o autor (p. 223):

“Para o bem ou para o mal, as emoções são efêmeras. Um congestionamento de trãnsito pode aborrecer, um presente pode agradar e uma pisada numa unha encravada pode levar-nos a um acesso de imprecações, mas não ficamos aborrecidos, felizes ou exasperados para sempre. No entanto, se reagirmos impulsivamente a nossos sentimentos momentâneos, podemos arrepender-nos de nossos comportamentos impetuosos para o resto da vida”.

A solução é dar tempo para resfriar, antes de tomar a decisão de agir.

Em suma, como estamos sujeitos a muitas tendências irracionais, e como, em geral, não temos consciência completa de como elas interferem em nossas decisões, devemos aprender a questionar e a testar nossas crenças, a fim de que possamos verificar se estamos certos ou errados, e, assim, melhor controlar nossas vidas.

Isso não significa que devemos ser totalmente racionais, como o Spock, de Jornada nas Estrelas. Segundo Dan, devemos conservar nosso lado “Homer Simpson”, pois algumas manifestações de nossas irracionalidades são os que conferem e dão um toque de humanidade a nós, como, por exemplo, a nossa capacidade de supervalorizar nosso trabalho, de conferir significado a ele, de nos adaptarmos a novos ambientes, de agirmos sob intuição etc.

Assim, ao invés de buscarmos a racionalidade total, devemos valorizar as imperfeições que nos beneficiam, identificar as que não gostamos, e lidar com o mundo de modo a tirar melhor vantagem de superar nossas próprias limitações.

E isso só se faz experimentando, como afirmei em outro artigo: Experimentar faz parte do processo.

Conclusão

Esse livro apresenta perspectivas interessantes de como agimos sob a influência de padrões emotivos de comportamento, e de como tais padrões podem extrapolar o momento presente e repercutir em nossa vida, no longo prazo.

A obra abre nossas mentes no sentido de que devemos agir tendo consciência dos diversos mecanismos comportamentais que impulsionam nossas decisões, bem como alerta para a importância de testarmos e exploramos aqueles padrões que mais sejam compatíveis com nossos gostos e aptidões.

O livro é bastante interessante e oferece um ótimo conteúdo para entretenimento e reflexão, com pitadas de humor de Dan acerca de sua própria condição, na época em que estava sob tratamento para curar seus problemas de saúde.

Entretanto, o preço do livro é muito alto, o que me faz sugerir que você o pegue emprestado numa biblioteca e o discuta com alguns amigos os pontos da obra mais interessantes. É um livro original, com algumas ideias passíveis de implementação na prática do dia-a-dia, embora não tanto a ponto de se equiparar com livros como Idéias que colam, de Chip Heath e Dan Heath, Envolvimento total: gerenciando energia e não o tempo, de Jim Loehr e Tony Schwartz.

É, sem dúvida, um bom livro, mas não um passível de colocação no mesmo nível dos livros citados no parágrafo anterior.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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8 Responses to Resenha: Positivamente irracional, de Dan Ariely

  1. Vida Boa Investimentos 26 de setembro de 2010 at 16:04 #

    legal

  2. rodpba 27 de setembro de 2010 at 8:00 #

    Grande Guilherme!

    Mais uma excelente resenha. Seu blog se aproxima cada vez mais do seu inspirador TSD (The Simple Dollar). Gosto muito dos dois, mas mais do seu! hehehhe

    Lá tem tantos posts que não me interessam que eu até esqueço de visitar!

    Um outro blog que eu leio e que tem idéias bastante interessantes, bem como uma seção show de experimentos em psicologia é do meu “xará” (mesmo nome, mas não o conheço pessoalmente):

    http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2009/06/experimentos-em-psicologia-introducao.html

    Vou colocar mais uma sugestão aqui, que foi um post que eu escrevi para um blog de um grande amigo, sobre o voto nulo:

    http://www.chongas.com.br/2010/09/desafio-chongas-cidadao/

    E por último, nobre Guilherme, tenho uma sugestão de seleção de palavras. Você usou “ao invés de”… Não que esteja tecnicamente errado mas certa vez aprendi a seguinte diferenciação:

    – Ao invés de: noção de sentidos opostos -> várias compras ao invés de torrar tudo.

    – Em vez de: noção de troca, no lugar de -> experiências, em vez de coisas

    Abraço!

  3. Willy Fog 27 de setembro de 2010 at 16:31 #

    Legal a resenha colega Guilherme! Preciso ler este livro, este tema de psicologia financeira muito me interessa hehehe. 😛

  4. Guilherme 27 de setembro de 2010 at 21:13 #

    Grande rodpba, obrigado pelos comentários!

    O TSD continua sendo uma fonte fabulosa de inspiração para muitos dos artigos escritos no site…estou em processo de aperfeiçoamento contínuo, gerenciando bem meus recursos de tempo, a fim de que o VR fique bem palatável ao público leitor. 😉

    E gostei muito dos seus links e dicas de sites, bem como a correção do português. Isso é fundamental para ter textos cada vez mais claros e corretos. Thanks. 😀

    Willy, então, psicologia financeira está em voga hoje em dia… e esse tema tem sempre lugar cativo aqui no blog.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  5. Bruno 21 de abril de 2011 at 22:24 #

    O livro de Dan Ariely é realmente muito interessante.
    Sobre o mesmo tema, recomendo “Proteja seu dinheiro de você mesmo”, de Gary Belsky e Thomas Gilovich (Ed. Futura, 2002; ; Título original: “Why smart people make big money mistakes”), um dos primeiros (e certamente um dos melhores) livros que já li sobre economia comportamental e finanças pessoais.
    Escrito por um psicólogo e por um jornalista (combinação que deu certo e que, pelo estilo adotado, faz lembrar “Freakonomics”, também escrito por uma dupla, no caso economista e jornalista), apresenta, de forma muito inteligente e bem humorada, diversas situações do cotidiano que ilustram bem os aspectos psicológicos e econômicos que participam na tomada de decisões financeiras.
    Um livro que não teve, no Brasil, o reconhecimento e o sucesso que merecia.

  6. Guilherme 25 de abril de 2011 at 18:46 #

    Gostei das indicações, Bruno!

  7. Rosana 13 de outubro de 2015 at 12:16 #

    Excelente resenha, Guilherme :)

    “Mas quando o nível de incentivo é muito alto, o prêmio às vezes absorve excesso de atenção, dispersando a mente em relação à tarefa com pensamentos referentes à recompensa.”
    É verdade mesmo, nosso foco muda totalmente se tivermos um bom prêmio à vista.

    Gostei da explicação sobre a opção por eventos efêmeros ao invés de coisas materiais. O exemplo do sofá foi brilhante, dessa maneira não tem como não entendermos a imensa diferença que ambos farão em nossas vidas. Muitas pessoas podem até falar que os momentos passam, que serão apenas fotos do passado. Mas são exatamente esses momentos que nos dão força e ânimo para viver, que nos ajudam a “recarregar nossas baterias” de forma que estejamos aptos a produzir o que quer que seja com mais qualidade.
    Eu acho que é tudo uma questão de equilíbrio, de temperança e nesse assunto específico do artigo, tenho muito, muito mesmo a aprender, mas posso dizer que essa leitura é como aquela luz no fim do túnel, que com o tempo vai se tornando mais forte, desde que as devidas mudanças sejam feitas.

    Abraços,

    • Guilherme 14 de outubro de 2015 at 18:47 #

      Obrigado, Rosana!

      Concordo com você, a respeito dos eventos efêmeros.

      Eu acho esses livros ótimos, pois nos permitem avaliar nossos próprios comportamentos e emoções, de forma que conseguimos lidar melhor com diversos tipos de situações.

      Como disse você, colocar em prática tudo isso requer prudência, temperança e uma boa pitada de equilíbrio.

      Abraços!

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