Apesar de grande parte dos especialistas do mercado financeiro dizerem que o Tesouro Direto é a melhor aplicação em renda fixa, poucos são os que mostram com números a nítida superioridade dos títulos públicos sobre os fundos comercializados nos grandes bancos de varejo. Por quê isso ocorre?
Por medo. Afinal, como a mídia financeira é controlada patrocinada pelos bancos, haveria um evidente conflito de interesses se alguém mais ousado fizesse uma comparação direta entre fundos do Banco do Brasil, Itaú e Bradesco com os títulos públicos subjacentes a esses mesmos fundos.
Como não temos rabo preso com ninguém vinculação a banco algum, vamos, nesse post, mostrar com números as razões pelas quais o investimento em títulos públicos está dando “uma lavada” nos fundos dos grandes bancos de varejo. Para não assustar os clientes mais “conservadores”, “conservadores” no sentido de não investirem de modo algum em produtos que não sejam recomendados pelos empregados dos banqueiros (também conhecidos como “gerentes”), vamos nesse artigo nos restringir aos fundos referenciados DI, que seguem a taxa SELIC. A coisa é muito mais feia (para o lado dos bancos) com os fundos de renda fixa, mas, para não assustar os mais incautos, fiquemos, hoje, apenas com esses investimentos mais simples.
Rentabilidade do Tesouro Direto
Antes de mais nada, uma consideração inicial: essa tabela de rentabilidade não considera as despesas com Imposto de Renda, IOF e taxas dos Agentes de Custódia (e nem, suponho eu, a taxa obrigatória de 0,3% a.a. da CBLC, acrescida de mais 0,1% sobre o valor da operação, no momento da compra do título, resultando em 0,4%, obrigado ao Investimentos e Finanças pela correção!).
Vamos considerar então que o investidor faça seus investimentos numa corretora que cobre 0,2% a.a. de taxa de custódia. Com os 0,4% da CBLC, teríamos, então, cerca de 0,6% a.a. sendo subtraídos do capital investido nos títulos públicos (grato ao leitor André pela correção!). Considerando a rentabilidade no ano de 2010 até o presente momento, o investimento nas LFTs teria rendido, em termos brutos pré-impostos, mas já descontadas as taxas de custódia, aproximadamente 8,10%, e, nos últimos 12 meses, cerca de 8,9% (considerando a LFT com vencimento em 2014, que é a que rendeu menos dentre as de sua categoria).
Isso, repito, supondo que: (a) a taxa de custódia da CBLC não esteja descontada da tabela de rentabilidade; e (b) a taxa de custódia da corretora fique em 0,2% (há corretoras que não cobram essa taxa, o que faria com que a rentabilidade do Tesouro Direto ficasse ainda maior).
Será que os fundos de bancos conseguem oferecer alguma coisa melhor? Vamos descobrir abaixo.
Obs.: as tabelas abaixo já são líquidas das respectivas taxas de administração (mas não de impostos).
Banco do Brasil Estilo (BB)
Vejam só que lástima, principalmente pelas taxas de administração. A coisa fica menos feia quando se trata de fundos com carteira de longo prazo, mas ainda não a ponto de torná-lo comparável ao Tesouro Direto:
Observem que, quanto menor a taxa de administração, maior é a rentabilidade. O problema é que esse fundo aí que rendeu 9,35% nos últimos 12 meses e que, em tese, poderia concorrer com a LFT com vencimento em 2011 (que rendeu 9,57% brutos), exige meio milhão de reais de aplicação inicial. Dose, hein!?
Ainda mais sabendo que, no Tesouro Direto, você pode conseguir uma rentabilidade superior (investindo, por exemplo, numa corretora que não cobra taxa de custódia), com apenas R$ 1 mil. Milão. Com 1/500 do valor do BB. 1/500 avos (se bem que, convenhamos, com 500 kpilas dava pra diversificar um pouquinho mais, não é mesmo!?).
Bradesco Prime
Fonte: Bradesco
Pois é, a situação continua incômoda para investidores de fundos. Esse DI Plus é o melhorzinho, mas exige uma montanha de dinheiro (R$ 80 mil) para poder entrar. E, mesmo assim, a rentabilidade das LFTs ainda pode ser superior no caso de escolha de uma corretora “barata” (0,2% a.a.) ou “gratuita” (0%).
Itaú Personnalité
Fonte: Itaú
Sem chance. Essas horrorosas taxas de administração eliminam qualquer competitividade dos fundos do Itaú perto dos títulos do Tesouro Direto. A exceção fica por conta desse Super Premium, que exige uma “Super Aplicação Mínima Inicial” de R$ 250 mil. Sendo que com R$ 250k eu posso aplicar no Tesouro e ainda obter uma rentabilidade líquida pós-taxas… maior ainda!!!
Conclusões
Isso quer dizer que investir em banco será sempre ruim? Não necessariamente. Isso porque uma das funções do dinheiro é prover liquidez. Você deve ter uma reserva de emergências em caso de situações excepcionais. Nessas hipóteses, ter dinheiro alocado em banco cumpre seu papel, e essa alocação não precisa ser necessariamente em fundos. Pode ser em CBDs e poupança, por exemplo, desde que, preferencialmente, o dinheiro possa ser sacado/transferido no mesmo dia do resgate da aplicação, o famoso D+0.
Agora, se você já tem seu colchão financeiro formado, e quer uma opinião sincera sobre o melhor investimento para renda fixa, a minha dica é: fuja desses fundos caros. Você estará pagando por um serviço que te renderá menos retorno líquido de volta para sua conta. Esqueça nomes de grife (!!!), gerente amiguinho, e outros fatores emocionais que nada tem a ver com gerenciamento correto das finanças pessoais. Seja frio com seu dinheiro, e invista em coisa boa e barata. O “desde que” do título desse artigo se refere aos custos operacionais – desde que você escolha uma corretora barata: 0,2% de taxa de custódia da corretora é o limite aceitável, na minha opinião (para que o custo total com taxas de custódia, incluindo os 0,4% da CBLC, não fique superior a 0,6% a.a.).
Os títulos do Tesouro Direto não têm o mesmo grau de liquidez oferecido pelos fundos dos bancos, mas pera lá: quantas vezes, nos últimos 10 anos, você precisou sacar 100% de seus investimentos depositados no banco? Será que liquidez é tão necessária assim? Repito: se você já tem seu colchão de emergências formado e forrado, não pague o preço da conveniência de investir o dinheiro só em produto de banco. Busque alternativas que façam seu dinheiro render mais. E é óbvio que ele renderá mais nessas alternativas menos glamourosas, como títulos públicos – desde que se escolha uma corretora barata; e você também não tenha que arcar com outros custos operacionais, como TEDs/DOCs, tarifas de saque etc.
Estou preparando um estudo que fará uma análise dos fundos de renda fixa x Tesouro Direto (NTN-Bs, NTN-Fs e LTNs). Por enquanto, fiquem alertas sobre os investimentos que cobrem taxas altas de administração. Pois, no mercado financeiro, é não pagando que se recebe mais.
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!
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Ainda está válido a sugestão de investimento em Tesouro Direto atualmente? Vejo que a matéria tem algum tempo. Surgiu alguma outra aplicação interessante nesta mesma linha? Quero algo que possa realizar um depósito hoje e não temos necessidade imediata do valor, saque para 1 ano ou mais adiante.
Ranerio, para seus objetivos, os títulos do Tesouro Direto continuam sendo excelente alternativa de investimento!
Guilherme, descobri esse site agora e fiquei muito feliz. Um olhar prático e direto sobre o mercado financeiro. valeu!
Marcelo, obrigado!
Ótimo artigo você esta se parabéns.
Gostaria de tirar uma dúvida, comprei R$ 2000,00 em tesouro direto no dia 23/02/2012 este titulo LFT 070317 com vencimento em 2017. Minha dúvida é, se eu vender antes do prazo de vencimento o que eu posso perder.
Grato
Sidney, obrigado!
Como a LFT é um título que oscila pouco, você em tese não corre o risco de perder caso venda antecipadamente o título.
Boa tarde!
Tenho R$ 300 mil aplicados em Fundo DI BB Premium Estilo. Ofereceram aplicação em Fundo Imobiliário do Banco do Brasil (oferta para início de abril/2012). Seriam bom diversificar com 50%?
Aguardo. Grato.
Jorge, infelizmente não posso opinar, pois desconheço esse fundo a ser lançado pelo BB. A pergunta que você deve se fazer é: tenho necessidade de ter todo esse valor aplicado nesse fundo? Daqui pra frente, aplicações pós-fixadas ao DI, como esse do BB, tendem a render cada vez menos…
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!
Dúvida, investi na LFT 070315 no momento em que a SELIC estava 12% a.a.
Se eu resgatar o título só no vencimento eu vou receber 12% ao longo dos anos ou mesmo tirando só no vencimento o rendimento varia tbm com a SELIC ?
Renato, o rendimento varia com a SELIC. Para receber 12% ao longo dos ano, teria que comprar um título prefixado a essa taxa.
Muito obrigado. Mesmo assim, vc acha que compensa deixar o dinheiro aí se eu não estiver precisando dele?
Compensa sim! Uma LFT com baixa taxa de custódia equivale a uns 95 a 97% do CDI. Em qualquer banco de primeira linha, para conseguir um rendimento equivalente, o valor do aporte tem que ser, geralmente, bastante grande. De modo que é interessante carregar a LFT até o vencimento, em março de 2015.