Resenha: The ETF Book, de Richard Ferri (livro em inglês)

Motivado pelas boas discussões travadas aqui no blog a respeito dos ETFs, resolvi pesquisar na Amazon algum livro que tratasse do assunto. Eis que me deparo com um título de Richard Ferri, que já teve uma obra resenhada aqui no site, All about asset allocation. Diante da qualidade do autor, que dispensa comentários, resolvemos então pegar esse livro  (edição para Kindle) para resenhar. Eis a resenha! 😀

Informações técnicas

Título: The ETF Book: All You Need to Know About Exchange-Traded Funds

Autor: Richard Ferri

Páginas: 415

Preço médio: US$ 18,47

Part I | ETF Basics

Nos primeiros 5 capítulos da obra, o autor faz a introdução nesse tipo de investimento, explicando suas raízes históricas, as modalidades de ETFs, seus benefícios e desvantagens, bem como os ETFs de gestão ativa. Explica o autor que os ETFs são um produto de investimento revolucionário que tomou conta de Wall Street (e da Main Street) como se fosse uma tempestade. Devido a características positivas, tais como flexibilidade, transparência e baixo custo, eles ganharam o apelo das massas, e a tendência daqui para frente é que só cresça o número de ETFs, número esse que assistiu a uma explosão de lançamentos nos últimos anos.

Um dos benefícios dos ETFs é justamente a transparência, já que as normas regulatórias exigem que a composição de suas carteiras seja divulgada diariamente, o que proporciona mais transparência do que os fundos de investimento tradicionais. A transparência é um ponto positivo porque reduz a probabilidade de fraude ou abuso por parte dos gerenciadores de fundos e das empresas administradoras de carteiras. Além disso, os ETFs podem ser negociados ao longo do dia, o que os torna atrativos também para os traders.

Sobre os ETFs gerenciados de forma ativa, que estão começando a surgir no mercado norte-americano, Richard Ferri os vê com reservas, afirmando que existe um choque com a necessidade legal de transparência, explicado acima. Isso porque os fundos de gestão ativa normalmente gostam de “esconder” suas estratégias, para que os seus competidores não as copiem, ao passo que os ETFs têm como um de seus pilares justamente a necessidade de descrição completa dos ativos que estão em suas carteiras. Outro problema é a questão das taxas de administração e outros custos operacionais, como alta frequência de negociação (turnover), que coloca em xeque a possibilidade de sucesso desse tipo de ETF.

Part II | The indexes ETFs follow

Nos 4 capítulos subsequentes, o autor faz uma descrição completa dos índices que os ETFs seguem. Há, basicamente, dois tipos de índices: os índices de mercado, como o DJIA, Nasdaq, SP 500, e índices customizados ou personalizados. Os primeiros objetivam medir os níveis gerais de preço e valor do mercado financeiro. Já o segundo representa uma estratégia de investimento. A estratégia é desenvolver uma técnica de gerenciamento de carteira que o use como a base para produtos de investimento, incluindo os ETFs.

Essa segunda parte do livro se resume, então, à metodologia na construção de índices, com foco especial numa ferramenta chamada “index strategy boxes”, em que o autor desenha um método explicativo dos diversos tipos de índice disponíveis no mercado, ou seja, como os ativos que compõem um índice são selecionados e mantidos. A seleção de ativos pode ser feita de forma passiva, seletiva ou quantitativa, ao passo que a ponderação dos ativos, ou seja, a sua participação de acordo com o peso no índice, pode ser feita segundo critérios que levem em conta a capitalização de mercado, ou critérios de análise fundamentalista, ou ainda em proporções fixas.

Part III | ETF Styles and choices

Nos 6 capítulos que se seguem, o autor explora com profundidade o vasto mercado de alternativas de investimento disponíveis em ETFs – nos EUA, claro. 😛 Isso inclui: ETFs amplamente diversificados em ações – talvez os mais conhecidos de nós, brasileiros, como aqueles que seguem índices de mercado – global equity ETFs (seguem mercados globais de ações, como o próprio nome diz, como os mercados emergentes, europeus e asiáticos), industry sector ETFs (nós temos alguns aqui, como noticiamos nesse artigo: 3 novos fundos de índices de ações (ETFs) baratos lançados no mercado), special equity ETFs (baseados, por exemplo, em ações de empresas ambientalmente sustentáveis, ou socialmente responsáveis), fixed income ETFs (eles têm ETFs baseados até em ativos de renda fixa, é mole!? :P), e commodity e currency ETFs, que, como o próprio nome sugere, baseado em commodities (que tal um ETF indexado ao ouro? :D) e moedas. O autor não é muito fã do investimento em commodities e moedas, uma vez que, no longo prazo, elas não geram retornos reais. Nesse sentido, o pensamento desse autor segue em linha com o adotado por W. Bernstein.

O mercado de ETFs é tão diversificado que já existem até ETFs alavancados e constituídos por hedge funds Tongue out.  Os quais, naturalmente, devem gerar retorno somente para os gestores dos fundos, do que propriamente para os clientes desses fundos.

Part IV | Portfolio management using ETFs

É a melhor parte da obra, e também a mais útil, do ponto-de-vista do investidor/leitor brasileiro. Nos últimos 6 capítulos da obra, Richard Ferri explica, em detalhes, 4 alternativas de investimento usando ETFs. A primeira é a mais simples: carteiras passivas de ETFs. O investimento passivo começa pela escolha de uma seleção de classes de ativos amplos, que se adaptem às suas metas financeiras de longo prazo; e continua com a construção de uma alocação de ativos alvo usando essas classes de ativos que sejam condizentes com suas metas. Uma das vantagens dessa estratégia passiva é o baixo custo. Como nem todo mundo consegue se adaptar psicologicamente a esse método, Ferri propõe uma estratégia baseada numa carteira principal, fundamentada em ETFs baseados em índices de mercado, e uma pequena porção da carteira dedicada a ETFs que sigam índices customizados. Não deixa de ser uma ideia bastante aproximada com a que escrevi nesse artigo: Pensando em uma estratégia mista na Bolsa de Valores: parcela em ações individuais, parcela em ETFs,  e, portanto, que me agradou bastante.

A segunda opção é o investimento baseado em ciclos de vida. É uma tática passiva em que a alocação em cada classe de ativos permanece constante em cada estágio da vida da pessoa. Pessoas diferentes têm necessidades diferentes: jovens podem ser mais agressivos em suas aplicações, embora nem sempre: Jovens devem concentrar suas aplicações em investimento de risco? Nem sempre. Já pessoas próximas da aposentadoria poderão querer ter uma carteira mais conservadora. E assim por diante.

A terceira opção é baseada em estratégias ativas de gerenciamento de carteira, em que se busca alcançar retornos superiores aos do mercado. Muitas pessoas tentam fazê-lo – na verdade, isso é o que a maioria do mercado tenta fazer – mas poucos conseguem retornos que justifiquem o tempo e a energia gastos – fora os custos de dinheiro, uma vez que fundos de gestão ativa envolvem o pagamento de taxas de administração mais altas.

Finalmente, a quarta opção se baseia em estratégias especiais e, portanto, atípicas, como, por exemplo, montar uma carteira de ETFs como uma proteção contra uma concentração excessiva de ações numa única empresa. Por exemplo, suponha que você seja um empregado de uma empresa do setor de tecnologia. Parte da remuneração vem em forma de ações dessa mesma empresa. Para evitar que você fique muito posicionado nesse setor, usar ETFs setoriais – ou mesmo de índices amplos – pode funcionar como um hedge. O negócio lá nos EUA é tão especializado nesse mercado de ETFs que existem até ETFs que contém ações componentes da NASDAQ com exceção das empresas de tecnologia (no Brasil, seria algo como ter um ETF baseado no PIBB11 menos empresas siderúrgicas, por exemplo). Dependendo do caso, pode valer a pena usar essa estratégia.

O último capítulo contém dicas operacionais para os investidores em ETFs, tais como quais fatores levar em conta na hora de negociar ETFs, se vale a pena contratar consultores especializados, quais firmas de corretagem escolher, o melhor momento para negociação de ETFs durante o pregão, e assim por diante.

Conclusão

O livro traça um panorama completo sobre o mercado de ETFs norte-americano, situando-o no contexto geral do mercado financeiro. Destaque especial para a ampla cobertura das centenas de ETFs disponíveis no mercado, bem como a metodologia de construção de índices, ou seja, dos benchmarks.

Ferri dá grande ênfase à efervescência pela qual vem passando esse setor, com o lançamento de centenas de novos ETFs a cada ano. O autor estima que, por volta de 2020, o volume negociado por meio de ETFs superará o volume negociado por meio de fundos de investimento (mutual funds, na terminologia de lá). “Essa, com certeza, é uma excitante indústria, cuja revolução está apenas começando”, nas palavras do autor.

Para nós, brasileiros, praticamente alheios a toda essa novidade, resta a utilidade de capítulos como os contidos na última parte, que trata das estratégias de gerenciamento de ativos usando ETFs, e na terceira parte, que trata de multiplicidade de opções de ETFs disponíveis para investimento, cobrindo quase toda a extensão de ativos financeiros transacionáveis no mercado.

É bom saber que os fundos de índice com cotas negociadas em Bolsa são uma realidade que veio para ficar. Tomara que no Brasil em breve também tenhamos ETFs baseados em renda fixa, commodities, fundos imobiliários, desde que sejam cobradas baixas taxas de administração. Trata-se de um importante instrumento de investimentos que, se usado de forma consciente, oferece vantagens atrativas para o investidor aplicar seu dinheiro.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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13 Responses to Resenha: The ETF Book, de Richard Ferri (livro em inglês)

  1. Henrique Carvalho 19 de dezembro de 2010 at 9:17 #

    Ferri manda muito bem!

    Abraços Guilherme!

  2. Glaucia 19 de dezembro de 2010 at 10:25 #

    Oie, não costumo fazer propaganda, mas comprei uns bons livros da coleção ExpoMoney por 9,90 nessa promoção do submarino…

    Pessoal, promoção #leve5pague4 livros por R$9,90 cada! Nesse link: http://migre.me/31UI8

    Muito bom!! =)

  3. Willy Fog 19 de dezembro de 2010 at 11:23 #

    Aê Guilherme!
    .
    o Kindle tá rendendo hein? Este livro dever ser muito bom. Já adicionei na minha lista. O Brasil com seus 7 ETFs ainda está muito longe dos mais de 800 ETFs do EUA. Um ETF aqui de FII já ajudaria muito hein? Vamos ver. Parabéns pela resenha.
    .
    Abcs

  4. Jônatas 19 de dezembro de 2010 at 12:11 #

    Guilherme,

    E seu livro hein!? Você poderia ser um dos primeiros, se não o primeiro, a publicar um livro sobre ETF no Brasil.
    Sem pressão tá!? rsrs, é só uma ideia.

    Abraço!

  5. Guilherme 19 de dezembro de 2010 at 14:52 #

    Henrique, ele manda mesmo!

    Glaucia, ótima dica!

    Willy, e não é que tá!? rsrsrs

    Jônatas, gostei da ideia!!! Eu vou pensar nela (sem pressão…..rsrss)

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  6. Naelyan 19 de dezembro de 2010 at 17:26 #

    Guilherme,

    Muito interessante esta resenha! Pena que no Brasil o assunto seja pouco tratado fora da esfera da internet. Esta semana recebemos a revista Você S/A – ed. 150 – e tem um especial de 26 páginas sobre finanças. Apesar de não ter lido em profundidade, não vi mencionado em nenhum lugar os investimentos em ETF’s.

    Em compensação, 6 páginas são dedicadas aos “melhores fundos” sendo a maioria de bancos de varejo com diversas taxas de administração (caras em sua maioria) – até aparece fundo cobrando 6% aa!

    Abraços

  7. Guilherme 19 de dezembro de 2010 at 18:59 #

    Oi, Naê!

    De fato, o assunto é pouco difundido na grande mídia. Por coincidência, na sexta-feira à noite, eu também li esse exemplar da revista Você S.A., motivado por esse especial de finanças. De fato, os ETFs ficaram de fora e, em vez de dar destaque ao Tesouro Direto, debêntures, letras de crédito imobiliário, CDBs e outras opções atraentes em renda fixa, eles preferiram mostrar os “melhores fundos”. Nossa, e como tem fundo caro, não é mesmo!? 😮

    De todas as matérias que saíram na grande mídia nesse ano, a mais equilibrada foi a de capa da Época, comentada aqui mesmo no blog. As revistas, no geral, precisam de uma melhorada grande para começarem a falar de produtos melhores e mais baratos!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  8. Jônatas 19 de dezembro de 2010 at 22:19 #

    @Naelyan
    Puts, fui assinante da Voce S/A por 5 anos. Faz 2 que não sou mais. Por esta e outras coisas!

  9. Finanças Inteligentes 20 de dezembro de 2010 at 11:09 #

    Brasil tem muito espaço pra lançar EFTs, principalmente na área de commodities. Estamos caminhando pra isso, tomara que apareçam algumas novidades em 2011!

  10. Ricardo Borges 20 de dezembro de 2010 at 15:06 #

    Guilherme,
    destes livros que vc indica, tem algum que seja em espanhol?
    Então, vou pedir um favor: Caso tenha, e vc saiba, poderia informar o título também em espanhol.
    Parabéns pela resenha
    Atenciosamente,
    Ricardo

  11. Naelyan 20 de dezembro de 2010 at 16:18 #

    @Jônatas

    Jônatas,

    Eu tb fui assinante da Você S.A. por um tempo, mas depois fui desanimando com o nível das reportagens e cancelei.

    Só recebemos esta edição pois o Julian tinha alguns pontos do cartão de crédito que iam expirar, então aproveitamos para trocar por uma “assinatura” trimestral da revista. Já recebemos duas, mas do jeito que está não iremos continuar.

    Outra fato, a Você S.A. lançou neste mês uma edição voltada ao público feminino. Dei uma folheada na banca e na minha opinião, não vale 1 real. Prefiro muito mais a Elas & Lucros.

    Abraços!

  12. Finanças Inteligentes 22 de dezembro de 2010 at 22:05 #

    Bingo!

    Acabou de sair:
    Em 2011, variedade de ETFs listados na bolsa vai “quase dobrar”, diz BM&F Bovespa
    http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/infomoney/2010/12/22/em-2011-variedade-de-etfs-listados-na-bolsa-vai-quase-dobrar-diz-bmf-bovespa.jhtm

  13. Guilherme 3 de janeiro de 2011 at 21:34 #

    Ricardo, pelo que eu me lembre, só o livro do Leo Babauta, The power of less, tem versão em espanhol.

    F.I., ótima notícia. Gostei do ETF do fundo de índice de carbono, desde que venha com uma baixa taxa de administração, por óbvio.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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