Resenha: The Four Pillars of Investing, de William Bernstein (livro em inglês)

William Bernstein já é um velho conhecido dos leitores do blog, pelas resenhas das obras The Intelligent Asset Allocator e The Investor´s Manifesto. Num ambiente literário em que grassa pornografia financeira (desculpe pela expressão, para os mais sensíveis, mas é o próprio Bernstein que usa o termo), não só nos Estados Unidos, mas principalmente no Brasil, onde o que mais se vê são lançamentos de qualidade dúbia e traduções de obras estrangeiras de péssimo gosto, estabeleci como um dos principais objetivos do blog trazer aos leitores conhecimento de nível superior, que fuja ao padrão mastigado, redundante e enfadonho de livros de pouco valor, onde o que mais prevalece acaba sendo o marketing de vendedores inescrupulosos, em detrimento da qualidade que realmente faz diferença positiva e duradoura.

Se ter pensamento crítico é fundamental para ter sucesso em qualquer área de nossas vidas, na área das finanças pessoais isso ganha proporções ainda mais importantes, uma vez que praticamente tudo o que ocorre no nosso cotidiano gira em torno, ou pelo menos tangencia, algum dado de aspecto econômico.

The four pillars of investing é um dos clássicos da literatura norte-americana de finanças pessoais. Muito bem escrito, por um autor que, além do conhecimento científico de economia, ainda tem o dom da comunicação, e um talento para falar do árido terreno das finanças sem ser chato e com um bom humor manifesto, esse livro é um “must read” por todos aqueles que querem controlar as finanças de uma maneira séria, e de forma autônoma. Vamos mergulhar na resenha!? 😀

Informações técnicas

Título: The Four Pillars of Investing: Lessons for Building a Winning Portfolio

Autor: William Bernstein

Número de páginas: 331

Preço médio: US$ 19,80

Pillar One | The Theory of Investing

A mensagem central desse primeiro pilar pode ser resumida na seguinte frase: “não espere altos retornos sem riscos”. Todo mundo pensa logo, ao ler essa frase, nos investimentos como ações e renda fixa: os primeiros dão mais retorno, mas embutem mais volatilidade, ao passo que esses últimos são menos arriscados, mas tendem a proporcionar um retorno menor.

Pois bem. Bernstein vai além e nos convida a fazer uma reflexão sobre essa relação risco x retorno sob uma perspectiva ainda mais ampla. Pense, por exemplo, em termos de países. Em termos de história. Por quê se espera que os retornos futuros das ações nos EUA não sejam tão altos quanto foram no passado? Simples: porque antigamente os EUA eram um país muito mais arriscado para investir. À medida que a economia foi se consolidando, as estruturas sociais se estabilizando, isso acabou se refletindo também no retorno do mercado de ações.

Vejam o caso do Brasil. Nas duas últimas décadas, houve um crescimento exponencial das ações brasileiras – e particularmente nessa última década. Seria algo aleatório? Não. Elas embutiam maior risco. Como, daqui para frente, a tendência é a situação se estabilizar cada vez mais, é esperado, pelo menos em tese, que os retornos futuros não sejam tão altos quanto foram no passado.

Para entender bem os retornos dos ativos, é preciso saber calcular o fluxo de caixa descontado (FCD), ou, nos EUA, conhecido como DDM – Discounted Dividend Model. O autor se ocupa desse exercício no capítulo 2, o qual apresenta um desafio intelectual bastante grande. Trata-se de um capítulo bastante técnico do livro, e que exige muita atenção do leitor, a fim de que seu conteúdo seja corretamente aproveitado.

Outro ponto relevante destacado aqui é a questão de não tentar bater o mercado: o tempo gasto nessa atividade será inútil, pois, se nem os profissionais financeiros conseguem fazê-lo, que dirá o investidor amador, que não tem no mercado financeiro sua principal atividade de sustento. O melhor a fazer, nesse caso, é simplesmente atuar como um investidor chato: investir em fundos de índice de baixo custo, além de fazer uma escolha balanceada na proporção ações/renda fixa de seu portfólio, tendo em vista seu grau de tolerância ao risco e suas outras aptidões e características pessoais.

Pillar Two | The History of Investing

O segundo pilar para construir uma carteira de investimentos vencedora é conhecer a história. Bernstein faz um passeio pela história dos mercados de capitais, principalmente pelas bolhas: quando surgiram, como surgiram, e como estouraram, devastando fortunas e arruinando a vida de milhares de pessoas. De acordo com o autor, 4 são as condições para a formação de bolhas:

– uma revolução tecnológica em curso (dot.com), ou uma mudança nas práticas financeiras;
– liquidez, i.e., crédito fácil (hipotecas subprime);
– amnésia da última bolha. Isto geralmente leva uma geração (20-30 anos);
– abandono dos métodos consagrados de avaliação de ativos, geralmente causado pela chegada, em massa, ao mercado, de investidores inexperientes (Brasil 2008).

Embora possa parecer enfadonho à primeira vista, os 2 capítulos que compõem esse segundo pilar forma uma das porções mais saborosas do livro. Por quê? Porque as histórias se repetem. Podem ser outros os personagens, outras as circunstâncias, mas os fatores subjacentes às bolhas e suas subsequentes crises parecem formar um “padrão”, que se repete de tempos em tempos, mesmo em um mundo cada vez mais globalizado, como referido no livro The Globalization of World Politics.

Por isso, é preciso atentar para a advertência preciosa de John Templeton:

“The four most expensive words in the English language are: ‘this time, it´s different’.”

Pillar Three | The Psychology of Investing

O terceiro pilar de sustentação de uma boa carteira de investimentos diz respeito à psicologia – finanças comportamentais – que pode ser resumida na seguinte frase:

“Identify the era´s conventional wisdom and assume that it is wrong. More often than not, it is”.

Engraçado como os seres humanos pensam que são melhor do que a média: pensam que são melhores motoristas que a média, pensam que irão ganhar mais do que a média do mercado etc. Ocorre que, os seres humanos, enquanto grupo, integram a média, logo, é impossível que a maioria esteja acima dela. Evite o excesso de confiança, evite dar ênfase exagerada aos dados mais recentes, e ignorar o resto, evite, sobretudo, pensar os investimentos como algo agradável, como um entretenimento. Quanto mais chato for seu investimento, mais retorno ele lhe dará. E é justamente por isso que é tão difícil investir em fundos indexados: que graça há em dizer para os outros que você tem PIBBs na carteira? Não teria mais graça se você dissesse que investe em ações …er… do Banco Panamericano? (glup!)

Pillar Four | The Business of Investing

Como eu já havia dito em outra ocasião, a indústria de investimentos não é sua amiga. É evidente que o mercado financeiro apresenta um conflito de interesses intrínseco. Esse é um jogo de soma zero: cada real gasto em taxas de administração, corretagem, custódia, e tarifas bancárias e comissões é irremediavelmente perdido por você. Você precisa entender como a mídia financeira trabalha e como ela desempenha um papel central na sobrevivência da indústria de fundos de investimento e de corretoras.

E dá-lhe pedrada! Bernstein destila toda sua ácida crítica às casas de corretagem e à indústria de fundos mútuos. Mas também sobra para a mídia: jornais, revistas e TV. A mídia e a indústria financeira desenvolvem uma relação de promiscuidade: a sobrevivência de uma depende desesperadamente da sobrevivência de outra. E os interesses de ambas jogam contra os interesses dos investidores. Fiquem alertas!

Posso assegurar que a leitura desse quarto pilar foi fundamental para eu evitar fazer a assinatura de algumas revistas, jornais e canais de TV a cabo, os quais, por questão de ética, claro, vou omitir. W. Bernstein foi suficientemente persuasivo para demonstrar que tudo isso não passa de perda de tempo. Tempo inútil. No final dessa parte, o autor dá dicas de como se educar de verdade na área das finanças pessoais. Vou seguir as sugestões dele, e publicá-las aqui no blog na forma de textos. Aguardem… 😀

Investment Strategy | Assembling the Four Pillars

Na última parte do livro, o autor fornece dicas de como preparar e executar um plano de investimentos, usando como exemplo um projeto destinado a financiar uma aposentadoria, que é, de longe, a maior tarefa financeira dos norte-americanos (abaixo dela, vêm a compra da casa própria, e a educação universitária dos filhos).

Agora, um detalhe curioso. Lembram daquele artigo que publiquei já faz um cadinho de tempo: vocês incluem a reserva de emergência e o dinheiro do salário na sua estratégia de alocação de ativos? Pois bem. W. Bernstein sugere que todos os ativos, para todas as metas – reserva de emergências, aposentadoria, poupança para casa – sejam gerenciados como se fossem integrantes de uma só carteira. É o que o autor chama de “portfolio´s the thing”.

Em seguida, o autor sugere como construir uma carteira com fundos de índice de baixo custo, entre ações e renda fixa, levando em conta seu horizonte de tempo, grau de tolerância ao risco e estrutura tributária pessoal. Fala também da importância dos rebalanceamentos periódicos e de algumas técnicas de investimento em ações, elogiando bastante o value averaging, sobre o qual inclusive já fizemos a resenha do livro: Value Averaging, de Michael E. Edleson (livro em inglês).

No final, um posfácio escrito depois da crise de 2008 acaba comprovando que as lições de Four Pillars seguem firmes e fortes.

Conclusão

Embora isso possa parecer uma redundância, e na verdade é, esse é outro livro de William Bernstein que leva a qualificação de excelente do blog Valores Reais. E a obra leva esse selo pelo conjunto sólido de destaques que apresenta: lições indeléveis sobre a história do mercado de capitais, rigor técnico na explicação de conceitos matemáticos complicados, como aquele do capítulo 2 – fluxo de caixa descontado -, forte embasamento teórico na análise da relação risco/retorno dos principais ativos disponíveis para investimento, e uma visão crítica sobre a mídia financeira e os fundos de investimentos – onde tem muito lobo em pele de ovelha…

Esse é um livro mais denso que o The Investor´s Manifesto, escrito pelo mesmo autor, e também resenhado aqui no blog. Aliás, algumas passagens desse último livro foram literalmente transcritas do The Four Pillars, o que, de maneira alguma, tira o mérito daquela.

Particularmente para mim, dois foram os grandes pontos positivos do The Four Pillars. Primeiro, a ênfase na necessidade de compreender a história do mercado de capitais, lição que procurarei seguir daqui para frente. E, segundo, ficar o mais longe possível desse duplinha do barulho formada pela indústria de investimentos e mídia financeira. Procurarei gastar menos tempo com consumo de mídia e investimentos de fundos de bancos/corretoras, e me concentrar mais nos investimentos, digamos, “mais secos”, como títulos do Tesouro Direto, ETFs e outros investimentos que seguem a linha do “chatos, mas rentáveis”.

O caminho é por aí mesmo. Ignorar o que estão dizendo, e concentrar-se nos aspectos mais importantes na montagem e execução de uma carteira de investimentos. Quem dominar os 4 pilares, estará apto a ter controle da própria vida financeira. Palmas para o W. Bernstein, por ter escrito uma obra de alta magnitude para todos aqueles que querem e crêem que têm condições de se tornarem auto-didatas nos investimentos, sem precisarem recorrer a um consultor financeiro.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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9 Responses to Resenha: The Four Pillars of Investing, de William Bernstein (livro em inglês)

  1. Rafael 26 de dezembro de 2010 at 1:05 #

    Bela resenha, parabéns.
    Acesso bastante o site Infomoney, e me parecem bem intencionados, mas já pensei se não podiam ter influência dos seus patrocinadores (corretoras, entre outros) em alguns conteúdos …
    O próprio site da bmfbovespa, pode ser tendencioso, mas não me parece ser o caso, pois eles recomendam investimentos de longo prazo, gerando menos emolumentos pra eles …

  2. Jônatas 26 de dezembro de 2010 at 1:19 #

    Guilherme,

    Tenho dúvida se o FDC realmente reflete a possibilidade de retorno de uma empresa. No longo prazo sim, mas em se tratando de Bolsa de Valores tudo é muito especulativo. Definir o preço justo por esta técnica, na minha visão, é errado. Até gostaria de ler a opinião do HC como economista, haja vista que a técnica, se não me engano, vem da economia.
    Gui, vc poderia escrever um artigo sobre FDC também. Sua didática fantástica ser-me-ia (tá certa essa palavra? rs) de grande utilidade.
    Realmente, a grande maioria das pessoas acredita estar acima da média. E isso ocorre em todas as áreas, não só em finanças.
    A relação entre investidor e corretora é de mutualidade. Cada lado procura obter as maiores vantagens possíveis. Sobre revistas, jornais e outros; já deixei de assinar faz alguns anos. Minhas referências são livros e blogs.
    Adorei a resenha, a que mais me fez pensar das que li aqui o VR, parabéns!

    Abraço!

  3. Investimentos e Finanças 26 de dezembro de 2010 at 7:45 #

    Guilherme,

    Existe uma certa contradição no livro, não? Primeiro ele ensina como calcular o valor justo atraves do fluxo de caixa descontado; e depois ele recomenda não perder tempo com análise e investir no indice.

    Abs

  4. Henrique Carvalho 26 de dezembro de 2010 at 10:20 #

    Ótima Resenha Guilherme!

    Embora eu não tenha lido este livro, Bernstein é leitura obrigatória para todo investidor sério.

    @Jônatas – Pretendo escrever um artigo sobre como precificar ações no HC Investimentos. A técnica em si não é de difícil compreensão. O problema são os números que devem ser usados no modelo, o que depende bastante da visão do analista.

    @Inv.Fin – Como eu disse, não li o livro, mas lendo o Investor’s Manifesto, fica claro que ele não usa esse modelo para calcular o preço justo de empresas, mas sim de índices.

    Grande Abraço!

  5. Evertonric 26 de dezembro de 2010 at 17:18 #

    Legal Guilherme,parabéns pela resenha, vc é um cara muito culto mesmo, acredito que este blog aqui, o VR, seria o blog que mais resenha livros….
    A leitura é obrigatoria , mas o problema é tempo companheiro, sendo assim, me dedico a leitura de blogs, e site de revistas (como Exame.com), procuro assinar os feeds, pra não perder tempo entrando nos sites todos os dias.
    .
    Investindo a longo prazo e fazendo uma (1) compra por mês, vc pode economizar muito (tempo e dimdim), então, e com ETFs como parte da carteira em RV tbem ajuda muito, sou contra investir somente em ETFs, porque acredito em empresas com grande potencial de ganhos, mas tbem sou contra uma diversificação acima de 10 ou 12 ações individuais na carteira de RV, pois muito ovos em muitas cestas, dificulta segurar todas as cestas (entenda-se como analizar, ou algo assim).
    .
    Forte Abraços

  6. Gisely Chessed 26 de dezembro de 2010 at 18:30 #

    Ótima resenha, vou comprá-lo. Também cortei a assinatura de revista e um jornal econômico que realmente apenas indicam produtos e apenas contribuem com “o que não fazer”. Quanto aos investimentos chatos, já lí que enriquecer é um ato repetitivo e monótono e é por isso que poucas pessoas conseguem enriquecer, concordo plenamente (apesar de adorar o bankline rsrs).

  7. Willy Fog 27 de dezembro de 2010 at 22:58 #

    Legal Guilherme!
    .
    Parabéns por mais uma boa resenha.
    .
    Abcs

  8. Flavio 29 de dezembro de 2010 at 17:16 #

    Jônatas: o FCD não serve pro curto prazo. Aí é especulação mesmo. Aqui vale a pena citar Benjamin Graham: no curto prazo o mercado é uma pesquisa de opinião. No longo prazo, uma balança.

    Mudando de assunto: uma vez peguei um vôo da TAM e eles deram a Gazeta Mercantil (ou era Jornal do Commércio?). Havia uma página inteira dedicada a mid caps, com uma tabela com o preço-alvo estimado pra cada uma delas no final daquele ano (2005). Guardei essa página e, 2 anos depois, encontrei-a dentro de uma gaveta no trabalho. Resolvi checar se aquelas 20 ações haviam mesmo atingido os tais preços-alvo. Resposta: a maioria absoluta não. Algumas até caíram de preço. Só uma ou outra chegou ou passou do alvo.

    Por essas e outras que não assino nenhum jornal/revista econômico.

  9. Guilherme 5 de janeiro de 2011 at 20:24 #

    Rafael, obrigado! Temos sempre que fazer uma leitura crítica dos sites de notícias!

    Jônatas, muito bom comentário! Sim, vou pensar num futuro artigo sobre o FDC. É um tema denso, mas muito interessante do ponto-de-vista intelectual!

    IF, como o nosso amigo Henrique disse, ele usa a ferramenta para cálculo de índices, e não de ações individuais.

    Henrique, valeu!

    Everton, obrigado! O tempo é curto, e ser seletivo nas leituras ajuda bastante!

    Gisely, thanks! Realmente, os jornais e revistas parecem seguir um padrão de qualidade inferior no mundo todo, não só nos EUA. Os nossos, como não poderiam deixar de ser, seguem esse padrão negativo de qualidade.

    Willy, valeu!

    Flavio, muito interessante essa sua experiência com o referido jornal. Mais uma prova de quanta baboseira se escreve na grande mídia… vamos ficar longe desse tipo de material!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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