Recentemente, o Banco Sofisa desenvolveu uma ampla campanha de marketing na mídia visando a divulgar sua nova plataforma de investimentos. Batizado de Sofisa Direto, ele se propõe a ser um banco totalmente online, oferecendo um produto de investimento – CDB – com rentabilidade acima da oferecida pelos seus concorrentes. Mas vale a pena investir nessa aplicação financeira? É o que responderemos nesse artigo.
O conceito mais importante em finanças
No que toca ao tema “investimentos”, beber da melhor fonte é sempre a alternativa mais segura, e, consequentemente, a que proporciona melhores resultados. Por isso, prezamos aqui no blog por trazer resenhas de livros de qualidade comprovada, que possam influir, de maneira positiva, na tomada de decisões. Assim, no clássico The Four Pillars of Investing, William Bernstein assevera, após discorrer longamente sobre a história dos mercados:
“The point of this whole historical exercise is to establish the most important concept in finance, that risk and return are inextricably connected. If you desire the opportunity to achieve high returns, you have to shoulder high risks. And if you desire safety, you will of necessity have to content yourself with meager rewards” (p. 12, sem destaque no original).
Numa tradução livre:
“O ponto central de todo este exercício histórico é estabelecer o conceito mais importante em finanças, o de que risco e retorno estão intrinsecamente ligados. Se você quer alcançar altos retornos, você tem de assumir riscos elevados. E se você deseja segurança, terá de se contentar com recompensas escassas”.
A relação risco/retorno deverá sempre ser considerada em suas análises de investimentos. Quanto maior o retorno prometido, maior o grau de risco envolvido. Desconfie sempre de quem prometer altos retornos com baixo risco. Isso não existe.
Por que as ações tendem a superar a rentabilidade da renda fixa, no longo prazo? Por causa do risco inerente ao investimento em renda variável. Para compensar a assunção de um maior grau de risco, é preciso recompensar o investidor com um prêmio. E esse prêmio de risco da renda variável – equity risk premium (leiam esse excelente artigo do Henrique Carvalho para saber mais sobre o assunto) – é o que torna atrativo o investimento em ações. É por isso também que, dentro da renda variável, as ações de segunda linha – as small caps - apresentam retornos históricos superiores às ações blue chips. Afinal, as ações de empresas pequenas são mais arriscadas. Assim, pela lógica, elas devem recompensar o investidor que põe seu dinheiro nelas com uma rentabilidade superior. E a história demonstra que se esse risco tem se pagado, ao longo do tempo, apesar da maior volatilidade.
O mesmo raciocínio se aplica dentro da categoria de renda fixa. Entre CDBs de bancos de primeira linha e CDBs de bancos médios/pequenos, a rentabilidade prometida desses últimos tem que ser maior, sob pena de não atraírem pessoas para sua base de investidores.
E o que é CDB?
CDB é uma sigla para Certificado de Depósito Bancário. De maneira bem simples, é um investimento em renda fixa sob a forma de empréstimo. Ao investir em CDB, você “empresta” dinheiro ao banco, em troca de uma determinada rentabilidade (juros), que pode ser pós-fixada (atrelada a um indicador como o CDI) ou pré-fixada (com rentabilidade previamente definida).
Os CDBs apresentam algumas vantagens em relação aos fundos de investimento em renda fixa similares (fundos DI, por exemplo, quando se toma como parâmetro os CDBs pós-fixados atrelados ao CDI), tais como a inexistência de taxa de administração e a cobertura do FGC para valores depositados de até R$ 70 mil. Esse é, aliás, um dos motes que o Banco Sofisa está apregoando: “investimento garantido até R$ 70 mil”. Para saber mais sobre o FGC, recomendo a leitura de dois artigos: O que é FGC: Fundo Garantidor de Créditos? e E se o banco, onde eu estiver investindo em CDB, quebrar? O FGC na prática (saiu na Folha de S. Paulo de domingo)… Só invista em CDB se você souber a mecânica desse tipo de investimento. Não vá fazer o que eu fiz há algum tempo, como escrevi nesse outro artigo: Aprenda com meus erros de investimentos #1: CDB a 85% do CDI!? Uauuu…
Os CDBs do Banco Sofisa Direto
O Banco Sofisa Direto oferece 4 modalidades de CDB, conforme explica essa página: pós-fixados com liquidez diária, com rentabilidade bruta de 100% do CDI; pós-fixados sem liquidez, ou, nos dizeres do banco, “com liquidez apenas no vencimento” (ou seja, cujo resgate só poderá ser feito na data de vencimento do título), com rentabilidade bruta de até 110% do CDI (respeitando a regra: quanto maior o tempo de permanência no produto, maior a rentabilidade bruta prometida); CDB prefixado sem liquidez, com rentabilidade bruta de até 13,81% a.a. (logicamente que a maior taxa prometida só é paga a quem se dispuser a ficar com o investimento que apresenta o prazo mais longo de permanência); e, finalmente, CDB prefixado vinculado ao IPCA, também sem liquidez, que paga, em média, IPCA + 7,75% a.a. Rentabilidades bastante expressivas e atrativas, principalmente para quem tem pequenos valores para investir. Em grandes bancos, só se consegue 100% do CDI para quem tem valores muito expressivos, de R$ 300 mil para cima, geralmente. Veja, por exemplo, a tabela de rentabilidade dos CDBs DI, com liquidez diária, do Banco HSBC:
Em outros bancos de grande porte, a situação é similar. No Santander, por exemplo, com R$ 50k, a rentabilidade do CDB DI com liquidez diária é de pouco mais de 90% do CDI. O que os grandes bancos (Itaú, Bradesco e o próprio Santander, dentre outros) normalmente fazem é oferecer um CDB do tipo “escalonado”, ou seja, cuja taxa bruta do CDI aumenta quanto maior o tempo de permanência no investimento, geralmente com retroatividade do acréscimo da taxa do CDI envolvida. Por exemplo, o Bradesco oferece o CDB Fidelidade (que chegou a ser, inclusive, objeto de peça publicitária na mídia tempos atrás), que paga o seguinte percentual de CDI para aplicação de até R$ 49 mil:
O problema desses CDBs “Fidelidade” (Bradesco), “Recompensa” (Santander) e “Plus” (Itaú) é que, se você precisar resgatar o dinheiro antes do início do prazo em que é aplicada a alíquota mais alta, pode ter rentabilidade muito baixa, muito próxima a da caderneta de poupança. Há um prejuízo da liquidez em prol de uma melhor rentabilidade. Isso não quer dizer que os produtos deixem de ter liquidez diária, mas sim que, para obter a melhor rentabilidade – algo próximo de 100% do CDI – é preciso tornar o produto “ilíquido”, isto é, não mexê-lo durante vários anos (geralmente de 2 a 3 anos).
O Banco Sofisa coloca, em seu site, um quadro comparativo de rentabilidade entre os CDBs do Sofisa Direto com seus 4 principais “concorrentes”: poupança, Tesouro Direto, Fundos DI de grandes bancos e CDBs de grandes bancos. Em todos eles, verifica-se os CDBs do Banco Sofisa Direto como o “vencedor” na rentabilidade comparativa. Uma nota importante para os leitores: rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura, devendo os dados serem analisados dentro de um quadro analítico mais amplo.
Na verdade, os CDBs do Banco Sofisa Direto precisariam apresentar retornos superiores aos da poupança, Tesouro Direto, fundos DI e CDBs de grandes bancos, pois o risco de se aplicar em CDBs de bancos de menor porte – tais como Panamericano, Schahin, FICSA e similares – é maior do que o risco de se aplicar, respectivamente, em poupança, em Tesouro Direto, em fundos DI e em CDBs de grandes bancos. Lembre-se: risco/retorno. Prêmio de risco. A propósito, o Banco Schahin foi comprado pelo Banco BMG, pois aquele estava com dificuldades em repor seu caixa, segundo notícia apurada no jornal O Globo. E esse banco de nome complicado era o mesmo que, segundo informação publicada na Internet, oferecia CDB com taxa de 112% do CDI. Tá ligado? Risco/retorno. Risco/retorno (eu disse risco/retorno?).
Pessoal, não existe “almoço grátis”. Quer maiores retornos? Então assuma maiores riscos. Não há outra maneira de melhorar a rentabilidade. Quer ter dinheiro para investir? Gaste menos do que ganha. Não há outra maneira de começar a investir. Quer aumentar o dinheiro para investir? Trabalhe mais. Lute por uma promoção. Mude de profissão. Mude de cidade. Saia de sua zona de conforto. Não há mágica. Tudo tem que ser produto de esforço e trabalho duro. Há tempo de plantar, e há tempo de colher. Mas só colhe quem planta.
Quanto maior a rentabilidade, maior o risco envolvido
Quem leu meu artigo O que é LCI: Letra de Crédito Imobiliário?, observou que, quanto maior era a taxa líquida de CDI prometida, mais desconhecida era a instituição financeira ofertante do produto, começando com a Caixa Econômica Federal (e seus parcos 83% líquido do CDI, mas que, em compensação, todo mundo conhece), e indo até os 98% oferecido pelo Banco BVA (sendo que alguns leitores foram apresentados a esse banco por meio da leitura do meu artigo).
Apesar de a rentabilidade prometida pelo Sofisa Direto ser maior do que a oferecida por bancos de primeira linha, é preciso também considerar o risco envolvido, principalmente nos CDBs com liquidez apenas no vencimento. Não por acaso, são eles que apresentam a taxa bruta do CDI mais alto, justamente para compensar a falta de liquidez. Trata-se da presença, mais uma vez, aqui, do prêmio de risco.
A garantia do FGC é um atrativo a mais, porém, pode acontecer de ela precisar ser acionada, como aconteceu, inclusive, com os investidores que tinham aplicações no Banco Morada, conforme explicamos em outro artigo: E se o banco, onde eu estiver investindo em CDB, quebrar? O FGC na prática (saiu na Folha de S. Paulo de domingo)…
O articulado leitor Finanças Inteligentes, autor, inclusive, de um ótimo e independente blog sobre análises econômicas (aliás, um dos poucos que sigo nessa área), disse, em comentários ao artigo acima citado:
“Não só o Sofisa assim como outros bancos pequenos e médios começaram a aumentar as taxas para correr atrás de CDBs e se capitalizarem mais no mercado. Tudo isso porque a inadimplência tende a aumentar neste segundo semestre (já deu sinais de aumento, devido à política de aperto monetário) e o grande risco do banco está aí. Contas inadimplentes podem gerar insolvência no banco, então nada mais certo do que reforçar o caixa para garantir a liquidez.
Lembrando que o FGC não é 100% garantido também. Na teoria dizem que sim, mas na prática não. Se o sistema financeiro sofrer um baque e algum banco de porte maior não resistir (ou vários bancos médios não resistirem), o FGC quebra junto, fica impossível resgatar todas as poupanças e CDBs e a confiança no sistema financeiro vai por água abaixo. Na verdade a economia inteira vai pro buraco, mas este cenário é bem improvável de acontecer, porém existe o risco e a crise não avisa antes de chegar. Assim como existe o risco de tomar um calote no Tesouro Direto, ou risco de perder a poupança, etc. Nada é 100% garantido”.
Nada é 100% garantido. Parece improvável saques em cash ocorrerem numa situação de crise sistêmica, mas isso está longe de ser impossível. Basta ver que é exatamente isso – corrida aos bancos para saques em dinheiro – o que está ocorrendo na Grécia, conforme reportagem publicada pelo portal Exame semana passada.
Conclusão
Nessa era dos investimentos eletrônicos (online), a possibilidade de fazer investimentos em renda fixa de forma totalmente online constitui um atrativo e tanto – vide os casos do Tesouro Direto, em que toda a forma de negociação é feita via Internet. Nesse sentido, é ponto positivo da plataforma Sofisa Direto a possibilidade de todo o processo de abertura e movimentação dos investimentos ser feita via Internet. Outros pontos positivos são a inexistência de pagamento de tarifas, com DOCs/TEDs e de manutenção de conta, bem como a própria rentabilidade expressiva dos CDBs ofertados, e a garantia de até R$ 70 mil do FGC.
Porém, os pontos positivos devem ser sopesados com algumas observações, tais como a impossibilidade de movimentar a conta via saques em espécie, talão de cheques, cartão de débito ou cartão de crédito (o que já torna esse investimento não recomendável para a formação de um colchão de segurança, por exemplo. É o meu caso: só tenho CDB em banco de primeira linha. Não tenho interesse, por ora, em CDBs de bancos de pequeno/médio porte, embora nada impeça de alocar parcela de meu capital nesses investimentos, cujas taxas são bastante competitivas), e, no caso de CDBs com liquidez apenas no vencimento, a necessidade de deixar o dinheiro ilíquido para obter retornos mais expressivos, além, é claro, do risco inerente ao investimento em bancos de menor porte. Entretanto, esse é o preço que se paga para obter retornos diferenciados no mercado financeiro. Lembre-se mais uma vez da velha relação risco/retorno: quer mais retorno? Então assuma mais riscos.
Como eu disse em outro post, o Mauro Calil recomendou, certa vez, em matéria publicada na Exame, uma cesta de CDBs, em diferentes bancos, cada qual com valor limite não de R$ 70 mil, mas sim de R$ 60 mil. Isso porque, caso o valor inicial aplicado seja de R$ 70 mil, o FGC somente cobrirá esse capital, não abrangendo os rendimentos dessa aplicação financeira. É uma boa ideia.
É necessário, assim, avaliar seu grau de tolerância ao risco bem como o seu grau de conforto ao investir num produto/instituição de menor porte. Talvez você já tenha um bom relacionamento com seu banco, que lhe permita obter taxas interessantes em seus investimentos, vinculados a outros serviços de crédito/consumo que são importantes para você (tais como cartões de crédito, seguros, descontos/isenção em tarifas bancárias e previdência). Porém, só faça isso se você tiver a certeza de obter uma taxa de DI para um CDB realmente boa, sob pena de, na verdade, acabar “doando” parte da rentabilidade do investimento ao seu banco, e, assim, estar realizando um péssimo investimento. Li no blog do Beto Veiga o caso de um leitor que tinha obtido uma taxa de 90% do CDB DI do Banco Itaú aplicando, pasmem, R$ 200.000,00. DUZENTOS MIL! É muita grana para uma taxa de DI tão baixa. Assistindo uma palestra do Augusto Sabóia na ExpoMoney, foi relatado o caso de uma cliente que tinha uma taxa de 95% do DI num CDB de R$ 400.000,00 (não mencionou o nome do banco). Pô, só 95% do CDI para esse montante de investimento?
Por outro lado, talvez você entenda ser conveniente assumir um risco maior para obter uma rentabilidade diferenciada. Nesse último caso, o CDB do Banco Sofisa pode, sim, ser uma alternativa a ser considerada, como, aliás, está fazendo o Viver de Renda, levando-se em conta, dentre outros fatores, o baixo custo, a confiança no FGC, as atraentes taxas oferecidas, quando comparadas com outros produtos concorrentes, bem como, se o pior acontecer (leia-se: intervenção ou liquidação extrajudicial), o processo de pagamento não seja demorado, nem complicado, como afirmado pelo leitor Bruno Toso, em comentários a outro artigo.
Finalmente, não se esqueça de diversificar seus investimentos, uma vez que, na equação risco/retorno, o retorno é incerto, sendo que o único fator que você pode controlar é o risco.
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!



Primeira vez na sua página… gostei muito do que li e da forma não-superficial e não-supertécnica como você escreve. Sou psicólogo, ano passado comecei a investir em ações e também a construir meu blog. Ficaria honrado com sua visita e algum comentário.
GOD Bless You Too!
sinto um certo recalque do autor e de outros consultores financeiros sobre o sofisa direto. Claro que existe a relação risco retorno, mas o Sofisa é MUITO melhor do que o tesouro direto. A preocupação dos consultores é que o sofisa é muito simples, e os seus conselhos são dispensáveis.
E, já que o autor citou Keynes, permita-me fazer o mesmo: “no longo prazo, estaremos mortos”