Resenha: Inovação: A Arte de Steve Jobs

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É possível alcançar a inovação em sua área de trabalho. E essa não é uma pergunta. É uma afirmação. Mas que benefícios exatamente ela proporcionaria no seu modo de encarar suas atividades diárias? E mais: quais princípios estão por trás de um trabalho bem sucedido? Como eu disse no artigo [Vídeo legendado] Discurso de Steve Jobs na formatura dos alunos de Stanford 2004, “sempre que ouço/leio/escuto alguma notícia sobre as ações de Steve Jobs envolvendo produtos da Apple, a primeira palavra que me vem à mente é inovação. A inovação, antes de marcar presença nos produtos da ‘maçã’, marca presença no próprio comportamento e estilo de vida de Jobs”.

Num dos meus últimos passeios habituais pela livraria, me deparei com um título com exatamente essas palavras: Inovação: a arte de Steve Jobs. Dei uma folheada no livro, e pensei: vou comprá-lo, lê-lo e resenhá-lo. E aqui está a resenha! :D

Informações técnicas

Título: Inovação: a arte de Steve Jobs

Autor: Carmine Gallo

Número de páginas: 237

Editora: Lua de Papel

Preço médio: R$ 29,90

Compre o livro na Livraria Cultura (clique aqui).

Introdução e Capítulo I – O que Steve faria? 

Inicialmente, é oportuno observar que esse livro foi escrito durante a mais grave recessão econômica atravessada pelos Estados Unidos desde a Grande Depressão da década de 30. E isso constitui o mote perfeito para o autor dizer que são justamente dentro desses períodos de recessão que são lançadas as bases para as grandes inovações. Pode ser que, exatamente agora, estejam sendo incubadas as ideias e inovações que dominarão o cenário econômico no decorrer dos próximos anos.  É preciso, então, tirar proveito de suas forças para gerar as oportunidades que criarão valor para as pessoas.

Engraçado como isso se aplica com perfeição ao trabalho de Steve Jobs na Apple. Embora os últimos dez anos tenham sido praticamente uma década perdida para os investidores em ações, a Apple foi na direção diametralmente oposta. Graças às contínuas e surpreendentes inovações na área de entretenimento, computadores e telecomunicações, a Apple conseguiu, recentemente, se tornar a empresa mais valiosa do mundo, e isso mesmo após a mais recente, ainda, saída de Jobs do comando da Apple. Isso é um feito notável, ainda mais considerando que, quando Jobs, que foi co-fundador da empresa, reassumiu a presidência da Apple, nos idos de 1997, ela estava à beira da falência. Conseguir transformar a cultura de uma empresa, levando-a, em pouco mais de uma década, ao posto de empresa mais valiosa do mundo, indo totalmente na contramão do mercado de ações, que teve, como afirmamos acima, uma década perdida, é um feito, repito, notável.

O trabalho inovador de Steve Jobs está calcado em sete princípios, identificados pelo autor do livro, a partir de pesquisas junto a empregados e ex-empregados da Apple, estudos de outras pessoas de sucesso na área tecnológica ou de outros ramos de negócios, e, sobretudo, a partir de dados coletados do próprio Jobs, por meio de análises de suas entrevistas, discursos e apresentações. Vamos a eles? (obs.: as palavras entre colchetes não integram os princípios, apenas expressam, em uma única palavra, o núcleo essencial de cada princípio enumerado, de acordo com as conclusões que extrai da leitura do texto).

Princípio 1: faça o que você gosta [paixão]

É preciso, antes de mais nada, seguir seu coração, nem que para isso seja necessário quebrar paradigmas e fazer aquilo que parece loucura ou não tenha aparentemente nada a ver com aquilo que você espera de seu futuro. O autor exemplifica com curso de caligrafia que Jobs frequentou, quando ainda era universitário (nota: ele, assim com Bill Gates, abandonou a faculdade no meio do caminho). Caligrafia não tinha nada a ver com a paixão de Jobs por eletrônica, pareciam dois pontos absolutamente desconectados. Mas Jobs teve o “estalo”  de se interessar pela arte de caligrafia, e isso foi fundamental para que ele tivesse o insight necessário quando, dez anos depois, estava projetando o primeiro Macintosh. Como diz o autor (p. 17):

“Jobs fez o curso de caligrafia por um único motivo: ele o considerou fascinante. Ele não sabia como os pontos se ligariam em sua vida, mas se ligaram. Os pontos não se ligam olhando para frente, Jobs diria. Os pontos se ligam só quando olhamos para trás. Devemos confiar que, ao seguir nossa curiosidade, as peças, no fim, se encaixarão”.

Encontrar aquilo que você gosta vai demandar trabalho, portanto, não se acomode. É preciso perseverança e muita força de vontade para encontrar uma atividade que esteja em linha com suas aptidões e suas paixões. O primeiro passo para inovar, consiste, assim, em, uma vez encontrada sua paixão, você confiar nela, mesmo nos momentos de adversidade. Logo, é preciso ter essa “sede” de buscar algo que te apeteça, ainda que, para isso, seja necessário mudar de emprego. Conclui o autor (p. 28, 42):

“Siga seu coração e não se acomode em um caminho que é inconsistente com o que você sente que é seu destino verdadeiro [...] Se você for um funcionário preso a um emprego que odeia, tome providências hoje, mesmo pequenas, para encontrar uma empresa ou um cargo mais compatível com suas habilidades e sua verdadeira vocação. Você nunca se sentirá suficientemente inspirado para criar inovações estimulantes se não gostar da sua função.”

Princípio 2: cause impacto no universo [visão]

Carmine Gallo trabalha, nos dois capítulos que compõem esse princípio, com a importância de desenvolver uma visão, capaz de inspirar pessoas e de criar produtos que atendem as expectativas dessas pessoas. Para ter visão, é indispensável enxergar além do horizonte, sendo que ela, a visão, motiva a inovação, conservando a energia num nível elevado, mesmo diante de inevitáveis contratempos.

E o que é visão? Basicamente, a visão é uma imagem, uma imagem de um mundo melhor construído a partir de seu produto ou serviço. Uma visão que inspira deve satisfazer três critérios: deve ser concisa, específica e constante.

Princípio 3: ponha seu cérebro para funcionar [criatividade]

Inovação tem tudo a ver com criatividade, e criatividade consiste em conectar coisas, em fazer associações, ou seja, conectar com êxito questões, problemas ou ideias de diversos campos aparentemente sem relação. Para que você seja um ser mais criativo, é preciso, digamos assim, “pensar fora da caixa”, e isso se consegue mais facilmente quando você “obriga” seu cérebro a trabalhar de forma diferente, bombardeando-o com novas experiências e novos problemas. Isso criará novos campos de conexão e novas associações entre suas sinapses cerebrais, fazendo com que seu cérebro enxergue as coisas de modo diferente, realizando novos julgamentos e novas percepções.

Lembre-se do curso de caligrafia realizado por Jobs na sua fase “hippie”. Justamente por não ter aparentemente nada a ver com eletrônica é que tal curso despertou em Jobs o insight necessário para criar um tipo de arte de caligrafia (tipologia de fontes) que faria distinguir o Macintosh dos demais computadores pessoais fabricados na época. Isso é criatividade. Jobs inovou porque “enxergou” as coisas de modo diferente, e enxergou as coisas de modo diferente porque se submeteu a experiências diferentes, que fizeram seu cérebro trabalhar com novas associações, e criar ideias novas a partir dessa percepção inteiramente distinta da realidade.

Isso pode levar anos. Não quer dizer que escapar de sua rotina o levará instantaneamente a ser criativo de uma hora para outra. Não é fazendo um curso de cerâmica agora que o levará a ter poderosos “eurekas” já amanhã. Não, não é bem assim. O processo de criatividade e inovação pode levar anos. Mas você deve confiar na sua intuição e na sua curiosidade. Volto a enfatizar a questão da ligação dos pontos, por sua relevância (p. 101):

“‘Você não pode ligar os pontos olhando para a frente; você só pode ligá-los olhando para trás’, Steve Jobs afirmou, em seu discurso de paraninfo, em Stanford. ‘Assim, você tem de confiar que os pontos, de alguma forma, se ligarão no futuro. Você tem de confiar em alguma coisa: intuição, destino, vida, carma, seja o que for. Essa abordagem nunca me desapontou e fez toda a diferença na minha vida'”.

Princípio 4: venda sonhos em vez de produtos [cliente]

Um dos princípios que sustentam a inovação é a capacidade de satisfazer as necessidades dos clientes. Eles, os clientes, devem ser o foco final de sua ação, e não o produto ou serviço que você fabrica. O problema, nos negócios de hoje, é que muitos empresários veem os clientes como cifrões, e nada mais. É por isso que Jobs não gosta de trabalhar com os grupos de foco: porque eles não funcionam. Os clientes só sabem que tem uma necessidade, segundo Jobs, quando se preenche uma lacuna que os clientes não sabiam que tinham. É daí que vem um dos mantras da inovação: criar sentido para as coisas. A inovação encontra seu ambiente propício para florescer quando se percebe que inovar não é criar produtos melhores, mas sim criar pessoas e famílias mais felizes. Em certo sentido, os clientes são egoístas, e aí é que está a chave para o sucesso: atender o desejo de egoísmo deles, por mais paradoxal que isso possa parecer. Essa passagem do texto esclarece o princípio 4 de forma magistral (p. 133):

“Seus clientes não se interessam por você. Soa desagradável, mas é verdade. Eles não se interessam pelo sucesso de sua empresa. Eles não se interessam por seu produto ou serviço. Eles se interessam por eles mesmos, por seus sonhos, por seus objetivos. No entanto, eles se interessarão muito mais se você ajudá-los a alcançar seus objetivos, e, por isso, você deve entender seus objetivos, assim como suas necessidades e desejos mais profundos”.

Dentro desse contexto, não poderia deixar de mencionar a inovação proporcionada por um brasileiro, noticiada nessa terça-feira pela Folha e republicada no meu Twitter: a invenção de um fogão a lenha que cozinha e gera energia ao mesmo tempo. Isso não é somente criatividade, isso é inovação. O Brasil precisa de mais engenheiros como Ronaldo Sato, o criativo autor da invenção. Certamente, ele projetou esse fogão multiuso não pensando na criação do produto como destinatário final, mas sim em como esse produto poderia melhorar a vida de pessoas onde a energia elétrica é um bem de escassa disponibilidade, como a região amazônica. Aliás, é público e notório que, nesse denominado “país dos bacharéis”, onde se tem mais faculdades de Direito que o resto do mundo inteiro (1.200 no Brasil contra 1.100 no resto do mundo, segundo estimativas), é necessário investir mais na formação de engenheiros e outros profissionais de ciências exatas.

Por isso, é salutar a iniciativa do Governo Federal em investir em programas de bolsas de estudos no exterior, principalmente da área de ciências exatas, pois é sabido que o mercado com maior deficiência de mão de obra qualificada no País, é aquele das áreas de tecnologia da informação e de engenharia.

Princípio 5: diga não para mil coisas [simplicidade]

Um dos sucessos dos produtos da Apple reside na sua simplicidade, que significa não só “dizer não para mil coisas”, como também enfocar no significado essencial do produto. Especificamente em relação aos produtos como iPod, iPhone e iPad, dentre outros, Jobs acredita que o design não é apenas aparência: ele integra e diz respeito ao próprio funcionamento das coisas. Em outros termos, design é função. Nisso, aliás, reside um dos grandes trunfos da Apple, pois a simplicidade atrai mais pessoas, e permite, portanto, que mais pessoas possam usar seus produtos, e o melhor, sem ter que recorrer a manuais de instrução.

Atire o primeiro iPod quem não conhece alguém que não tenha desejado um produto da Apple, ou quem efetivamente não tenha um. É qualquer coisa de impressionante a universalidade dos usuários da Apple, particularmente do último deles, o iPad. Pessoas tão diferentes de tão diferentes áreas estão usando o aparelho: a presidente Dilma, a criança de 2 anos que aparece no vídeo do YouTube, seu pai (ou, mais incrível ainda, seu tio, ou, o cúmulo do incrível, sua avó), representantes de vendas de laboratórios farmacêuticos, políticos dos mais diversos sistemas de poder do mundo (incluindo, claro, Obama, que deu até autógrafo num iPad), pilotos de aviação comercial, garçons em restaurantes, substituindo os menus (com sensores de segurança, obviamente, para que nenhum cliente tente levar o menu para casa), apresentadores de TV, eu :P … É uma coisa que “pegou”, e pegou, dentre outros motivos, porque tinha a simplicidade no seu núcleo conceitual. Simples assim. :wink:

Princípio 6: Crie experiências incríveis [serviço]

O autor destaca a necessidade de as empresas prestarem um serviço de excelência no atendimento aos clientes, citando casos de sucesso nessa área, envolvendo não só a Apple (no caso, o serviço prestado nas Apple Stores), como também outras empresas, sobretudo algumas que ganharam destaque nesses três últimos anos, justamente na contramão da recessão na economia norte-americana. Um ponto em comum entre elas residia exatamente no atendimento diferenciado, personalizado e de qualidade.

Com efeito, numa era em que redes sociais (blogs, Facebook, Twitter etc.), funcionam como espécies de “SACs expostos em praça pública“, ter capacidade de criar experiências incríveis funcionam como um dos pilares de sustentação da inovação. Empresas que maltratam seus clientes correm o sério risco não só de perderem os clientes que foram maltratados (o que é natural), como também virarem (com razão) motivo de chacota nas redes sociais, afastando os potenciais clientes (que é tão ruim quanto, ou pior que, perder clientes que já estavam em sua base).

Princípio 7: domine a mensagem [comunicação]

De nada adianta você ter uma ideia inovadora se não souber comunicar essa ideia, e isso só se faz se você tiver a capacidade de transmiti-la de modo convincente e persuasivo. Jobs tem, dentre uma de suas qualidades, a capacidade de criar, segundo os “entendidos do ramo”, um denominado “campo de distorção da realidade” quando faz (ou fazia) as apresentações (keynotes) dos produtos da Apple. Na verdade, a excelência na comunicação pode ser percebida não só nessas apresentações, mas também nos comerciais de TV da empresa, alguns considerados os melhores de todos os tempos, como esse e esse.

Mais uma coisa…não se deixe desanimar pelos tolos

Todas as pessoas passam por adversidades, no entanto, só terão sucesso com a inovação aquelas que forem corajosos o suficiente para “acreditar em seus princípios e de lutar por eles diante de grandes adversidades” (p. 225). Todo grande inovador tem sua cota de céticos, ainda mais nesse período recessivo pelo qual passa a economia mundial, por isso, é importante não se deixar abater por eles. Achei muito apropriada a citação de Thomas Friedman, nesse contexto recessivo americano, que expressa bem a mentalidade que precisa ser assumida pelas pessoas (p. 228):

“Para o país prosperar, ele precisa de mais novas empresas e não de socorros financeiros [...] Os empregos bem remunerados não resultam de socorros financeiros. Eles resultam de novas empresas. E de onde as novas empresas surgem? Elas surgem a partir de pessoas inteligentes, criativas e inspiradas que assumem riscos”.

Conclusão

Trata-se de um excelente livro, com conteúdo de primeira linha. É evidente que a inovação nem sempre produz resultados de sucesso, e a própria Apple lançou, ao longo dos últimos anos, produtos que foram um fiasco de vendas. Porém, isso é absolutamente natural e faz parte dos riscos do negócio. O importante, no final das contas, é acertar mais do que errar. E, se uma empresa saiu da beira da falência, para ser a mais valiosa do mundo, é de se supor que ela tenha acertado mais do que errado. E foi isso que aconteceu e tem acontecido com a Apple. Aliás, ela acertou muito mais (mas muito mais mesmo) do que errou.

A inovação não ocorre sozinha, e é preciso se cercar de pessoas mais talentosas, sendo isso justamente um dos pilares de sustentação da Apple. Isso ficou um pouco ofuscado no livro, o que é natural, pois o autor focou no fundador da empresa e que comandou a reviravolta de inovação dela. Tampouco foram abordados aspectos polêmicos de sua personalidade (como a fama de ele ser rude com funcionários), o que igualmente é natural num livro que pretenda privilegiar pontos positivos de seu trabalho. No entanto, fazendo um balanço geral, pode-se afirmar que o livro foi bem escrito e, ademais, recheado com “links” para artigos da Internet e vídeos do YouTube, ou seja, um livro próprio dessa era digital.

Inovação: a arte de Steve Jobs é um “manual”, digamos assim, com princípios básicos que acendem a chama da inovação, e que pode ser útil tanto para empreendedores que querem desenvolver e aprimorar seus negócios, quanto para outros profissionais e outras pessoas que apenas querem melhorar aspectos de sua vida pessoal e profissional. Leitura recomendada! :D

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

4 Responses to Resenha: Inovação: A Arte de Steve Jobs

  1. André Cavalcante 9 de setembro de 2011 at 10:14 #

    Estava sem ler o blog há alguns meses pelo desiteresse por investimentos e dinheiro em geral, afinal estava desempregado. Agora consegui meu primeiro emprego, é so meio expediente mas o salário é bem necessário. Queria uma ajuda de vcs em aonde investir meu dinheiro, bolsa, poupança, ganho meio salário mas não gasto muito!!

  2. Guilherme 9 de setembro de 2011 at 12:43 #

    Poupança.

  3. Douglas 25 de outubro de 2012 at 3:10 #

    Pootz, parece que o autor simplesmente pegou os conceitos determinados por Guy Kawasaki em “A Arte do Começo” e encheu linguiça, hein???

    Esse mundo é podre, cara ='(

Trackbacks/Pingbacks

  1. 7 Princípios para inovar | Atitudes para Vencer - 24 de maio de 2014

    […] para acreditar nos seus princípios e de lutar por eles diante de grandes adversidades.    Aqui fica o link do artigo Pensamento sempre Positivo! —» […]

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