Resenha: A bola de neve: Warren Buffett e o negócio da vida [biografia], de Alice Schroeder. Parte II: A lenda

Essa é uma continuação da resenha sobre a biografia de Warren Buffett, “A bola de neve: Warren Buffett e o negócio da vida“, de Alice Schroeder. A primeira parte pode ser lida aqui: Parte I: Introdução, Família e Precocidade.

No texto anterior, analisamos aspectos da vida familiar de Buffett, bem como seu talento nato para os negócios. Nesse artigo, examinaremos a trajetória que fez dele uma lenda viva de Wall Street, uma pessoa que construiu uma fortuna bilionária a partir de suas habilidades como negociador de empresas e de ações.

Com tanta experiência prática adquirida na infância e na adolescência, e devido à sua natural propensão para aprender e ler tudo o que estivesse à sua volta, ou seja, ser um verdadeiro autodidata, Warren não ligava tanto assim para a educação formal. Aliás, a trajetória universitária dele foi um tanto quanto sinuosa: começou na Universidade da Pensilvânia, em 1947, tendo se transferido posteriormente para a Universidade de Nebraska, onde em 1950, aos dezenove anos (19!), concluiu o curso,  tornando-se um Bacharel em Economia. Após ter sido rejeitado pela Harvard Business School, no que considera o episódio mais importante de sua vida, Buffett começou a buscar outras escolas para fazer pós-graduação, tendo interesse em ingressar na Universidade de Columbia, pois lá dois de seus autores prediletos estavam dando aulas, Benjamin Graham e David Dodd. O livro de Graham, como quem está familiarizado com a história de Buffett já sabe, era “O investidor inteligente“, uma versão para leigos publicada em 1949, de um livro de teor mais acadêmico, publicado em 1934, em plena Grande Depressão, por Graham e Dodd, chamado “Security Analysis”, que é, por sua vez, o mesmo livro que aparece no filme À Procura da Felicidade.

Buffett concluiu o mestrado em economia em 1951 (aos 21 anos!), tendo sido o único aluno de Graham a conseguir um A+ (equivalente a uma nota 10 com louvor), e absorveu muito as ideias do professor no começo de sua carreira como investidor em ações. Benjamin Graham tinha sido a pessoa que mais exercera influência na  vida de Buffett, depois de seu próprio pai, Howard, uma vez que a abordagem de investimentos utilizada por Buffett, principalmente até o final dos anos 50, era baseada no método de Graham. Buffett gostava de comprar ações de empresas que estavam sendo negociadas abaixo de seu valor intrínseco (valor real de uma ação), com uma significativa margem de segurança. Era a época de caça às chamadas “guimbas de charuto”, empresas aparentemente moribundas, subvalorizadas em suas cotações, mas que justamente por isso tinham condições de dar retornos espetaculares para seus investidores (uma última “baforada” no charuto) – como de fato davam.

Após uma tentativa frustrada de tentar trabalhar na corretora de Benjamin Graham, Buffett resolveu trabalhar por conta própria, abrindo uma empresa de investimentos, em 1957, na cidade de Omaha, e administrando o dinheiro de outras pessoas para investir no mercado de ações. Usando suas habilidades nos relacionamentos sociais, Buffett corria atrás do dinheiro de outras pessoas para que elas o deixassem administrar em sua sociedade, ou melhor, nas várias sociedades que mantinha com diferentes pessoas. No mesmo ano de 1957, ele resolve enfim deixar o aluguel, e compra uma casa de cinco quartos em Omaha, pelo preço de US$31.500, casa onde ele ainda reside até hoje, como, aliás, mencionamos nos artigos: De quem é essa casa? e E a casa é de……………..

Em 1959,  Buffett conhece Charlie Munger, que viria a ser seu grande parceiro de negócios pelas próximas décadas. Foi Charlie quem lhe introduziu uma abordagem de investimentos diferente da de Graham, baseado nas ideias de Philip Fisher. De acordo com esse último, comprar ações baratas de empresas pequenas não era suficiente, pois era preciso também comprar papéis de grandes empresas, com vantagens competitivas duráveis em seus ramos de atuação.

Então, pelas décadas seguintes, com a bola de neve (de dinheiro) aumentando cada vez mais, Buffett não comprava apenas porções pequenas de ações: com mais dinheiro para investir, Buffett se tornava cada vez mais um investidor do tipo ativista, que buscava comprar ações que lhe permitissem ter uma cadeira no conselho de administração das empresas das quais mirava, e, assim, influenciar no rumo dos negócios dessas mesmas empresas. Muitas vezes, Buffett acabava comprando empresas inteiras mesmo, ou seja, uma quantidade de ações que lhe permitisse ser o acionista majoritário, capaz de influir de modo mais completo nas decisões das empresas que estava comprando. Dentre as várias empresas que ele estava adquirindo, uma em especial era alvo de constantes compras de ações: Berkshire Hathaway, uma fábrica têxtil que já fora grande no passado, mas que, devido à competitividade principalmente com o exterior, estava cada vez mais em declínio. O conglomerado de Buffett viria a se concentrar, no final das contas, na própria Berkshire, sob cujo comando ficavam as demais empresas que ele compraria nas décadas de 60, 70, 80, 90, 00 e 10. Devido às pressões da SEC, Warren e Charlie resolveram concentrar todas as suas empresas na Berkshire, e abrir o capital na Bolsa de Nova York em meados da década de 80.

Durante os anos 70, Buffett adquiriu participações nos jornais Washington Post, Buffalo Evening News e no grupo de mídia televisiva ABC. Sobre o Washington Post, aliás, ele desenvolveu uma grande amizade com a dona do jornal, Katharine Graham (nada a ver com o Benjamim Graham), o que despertou ciúmes na sua esposa Suzie.

Na década de 80, duas de suas grandes aquisições foram ações da Coca-Cola (razão pela qual decidiu parar de tomar Pepsi) e do Salomon Brothers, que era a primeira incursão de Buffett num banco de investimentos de Wall Street. Aliás, a Salomon deu muito trabalho para ele, pois um de seus empregados havia fraudado negociações com Títulos do Tesouro Americano, o que quase levou à bancarrota não só o banco, mas também o próprio sistema financeiro da época (embora o banco fosse de fato extinto anos depois, sendo incorporado pelo Citigroup). Narrada com tintas épicas, a negociação de Buffett com agentes da SEC (a CVM americana) e o Federal Reserve, visando salvar o banco, foi bastante tensa. No final, Buffett acabou arriscando sua reputação para tirar o Salomon do “pé da lama”, e defendeu, perante as autoridades do Congresso Americano, uma forte investigação no referido banco, o que causou grande admiração por parte do povo americano, o que só reforçava a identificação de Buffett com valores como a ética e a honestidade nos negócios, acima de tudo. Curiosamente, o vídeo contendo o depoimento inicial de Buffett no Congresso, e que havia causado, no povo americano, forte impressão de honestidade dele, está disponível no YouTube:

Clique aqui para abrir o vídeo direto no YouTube

Na verdade, Warren era um crítico feroz da opulência, corrupção, luxo e arrogância que imperavam em Wall Street, o que contrastava fortemente com seus hábitos simples:

“Dia após dia, Buffett ia ficando abatido, chocado com o estilo de vida luxuoso que era considerado normal em Wall Street. Para Buffett, a sala de jantar [do edifício-sede do Salomon Brothers] simbolizava a cultura de Wall Street, que ele achava abominável. Ele nascera numa época em que o dinheiro era escasso e a vida das pessoas tinha um ritmo humano, e organizara a própria existência para manter as coisas dessa maneira” (p. 628-629).

Buffett também adquirira, por meio da Berkshire, ações da American Express, Gillette, See´s Candies (fábrica de doces) e Walt Disney, mas apenas quando atendiam aos seus critérios de margem de segurança, vantagem competitiva durável em seus respectivos ramos de atuação, e cotações a preços de barganha, normalmente em épocas de crise dos mercados ou de má percepção da avaliação das empresas pelo Sr. Mercado.

Mais recentemente – e agora já falando de coisas que não estão no livro – Buffett adquirira participações, em 2008, no banco Goldman Sachs (aquele mesmo cujo dono o havia impressionado em 1940, lembram-se?) e, em 2009, fizera a maior compra de sua história de vida, ao adquirir uma empresa ferroviária, a Burlington Northern Santa Fe Corp, por um total de espantosos 44 bilhões de dólares, o qual, segundo Buffett, seria uma aposta na economia dos Estados Unidos.

É interessante como passado e presente se interconectam de maneira profunda e absolutamente sem paralelo, na vida de Buffett:

O garoto que tinha que acordar às 4 da manhã, pegar a bicicleta e suar para entregar os jornais dentro rigorosamente do horário para manter o emprego… agora era dono de vários jornais, tendo inclusive participação no conselho executivo do Washington Post.

O garoto que um dia ficou fascinado com a atenção de um figurão do Goldman Sachs na década de 40… agora ajudava o próprio Goldman Sachs a tirar o pé da lama no auge da crise em 2008.

O garoto que vendia chicletes com 6 anos de idade, tendo um lucro de 2 centavos por cada embalagem (e que explodia de alegria ao encher seu porta-níquel com todas aquelas moedinhas)… agora era dono de sua própria fábrica de doces (See´s Candies).

O garoto que um dia tinha que se contentar com um catálogo de brinquedos de ferrovias porque era a única coisa que podia comprar com dez centavos, e ficava sonhando com a ferrovia de brinquedo espetacular que ficava do lado de lá da vitrine da loja de departamentos… agora era dono de uma ferrovia de verdade – aliás, da maior ferrovia dos Estados Unidos.

Para mim, todos esses fatos dão um belo de um filme, e não haveria script melhor do que a própria realidade vivida por Buffett.

Estilo de investimentos

Warren, diferentemente de Ben Graham, pregava a concentração de investimentos, e não a diversificação (como defendida pelo autor do “O investidor inteligente”), como forma de ter sucesso em sua própria carteira de ações. Além disso, ele procura se manter rigorosamente dentro do seu círculo de competências, não investindo em outra coisa que não fossem boas ações e boas empresas, das quais ele entendia o modelo de negócios. Justamente por isso, ele não investia em imóveis:

“Warren não gostava particularmente de comprar casas, considerando-as um sumidouro de capital que não compensava as despesas” (p. 367-368).

Também por conta disso, ele não investia em empresas do setor de tecnologia, como Intel e Microsoft, nem embarcou na bolha pontocom do final dos anos 90. Aliás, ele foi fortemente atacado durante esse período, chamado de ultrapassado, antiguado, retrógrado. Ele ficou muito triste com todas essas baboseiras, mas se manteve firme com suas convicções. Afinal… quem ri por último ri melhor. E mais uma vez o mundo teve que se render ao talento e genialidade do Oráculo de Omaha, quando a bolha estourou. Enquanto o mercado entrava novamente em crise, Warren aproveitava o momento e ia enchendo seu carrinho de compras… como, aliás, já fizera em tantas outras oportunidades nas décadas de 90, 80, 70, 60 e 50…

Outra coisa que Warren fazia questão de frisar era escolher empresas bem administradas, por pessoas cuja competência ele gostava de analisar conversando cara-a-cara. Já na fase em que tinha condições de adquirir negócios inteiros, ele valorizava muito as pessoas que eram habilidosas na arte de administrar empresas…e  isso inspirava as pessoas a de fato manterem essa reputação. Buffett foi o mestre na arte de lidar com as pessoas, cultivando relacionamentos dentro de um círculo de amizades onde qualidades como honestidade, lealdade e ética eram valorizados como ouro na vida de Buffett. Ele particularmente ficava tocado com a história de vidas dessas pessoas, pois a maioria absoluta delas tinha conseguido vencer na vida por conta própria, e muitas, inclusive, tiveram que lidar com terríveis privações em épocas de crises. Assim fora as amizades construídas com Charlie Munger, seu parceiro de negócios na Berkshire, Walter Schloss, outro discípulo que seguia fielmente os princípios do mestre Benjamin Graham, e que havia conseguido bater o S&P 500 por mais de 5 décadas (!!!), e o próprio Benjamin Graham.

Porém, de todos os homens e mulheres de negócios com os quais se relacionou, Rose Blumkin foi certamente uma das que Buffett mais reverenciou. Ela havia saído – ou melhor, fugido – da Rússia (que estava eclodindo numa revolução) numa jornada épica em que atravessou mais de 14 mil quilômetros por quase todo o continente asiático, até chegar aos Estados Unidos, onde fundo e consolidou a maior loja de móveis da América, através de muito trabalho duro e dedicação:

“Todo o seu trabalho, segundo ela, era inspirado pela sua ‘preciosa mãe’, que administrara uma mercearia na Rússia. Ela jamais esqueceu as vezes em que acordava no meio da noite e encontrava a mãe lavando a roupa e assando pães às 3 horas da manhã. ‘Ela carregava 45 quilos de farinha por 20 quarteirões, para ter um lucro de 3 centavos’, afirmava Rose. ‘Aquilo rasgava meu coração’. Portanto, o calcanhar-de-aquiles de Rose eram os refugiados e os imigrantes. Às vezes, ela os colocava para trabalhar no departamento de contabilidade, dizendo: ‘você não precisa saber inglês para contar” (p. 512).

Apesar de ter vendido sua loja de móveis para Buffett, Rose não aguentou ficar sem fazer nada, e, vendo que estava sendo trapaceada por seus netos, na administração da loja, ela resolveu voltar ao batente com força total. Isso aos 95 anos. E então passou a fazer competição feroz com a própria loja de móveis que havia fundado. Repito: aos 95 anos (!).

A cada ano, o depósito de vendas de móveis de Rose, conhecida também como “Sra. B”, ganhava espaço no mercado de Omaha, fazendo com que os lucros de sua antiga loja, agora já de propriedade da Berkshire, e, portanto, de Buffett, caísse ano após ano (!!) Então Buffett teve que propor a ela um contrato de “não competição”, para que Rose jamais pudesse competir com ele:

“O absurdo de se impor um contrato daqueles a uma mulher de 99 anos não lhe passou despercebido. O contrato foi redigido com perspicácia, de modo a durar mais do que a Sra. B. Caso ela se aposentasse, ou abandonasse o negócio num rompante de fúria, ou por qualquer outro motivo, independentemente da sua idade, não poderia competir com os parentes e com Buffett por um prazo de cinco anos. Mesmo que a Sra B vivesse até os 120, Buffett não queria se arriscar. ‘Achava que ela viveria por toda a eternidade‘, ele diz. ‘Eu precisava de cinco anos a mais que a eternidade, no caso dela‘” (p. 520).

O desempenho espetacular de Warren Buffett à frente da Berkshire Hathaway pode ser observado pelo quadro que sempre aparece nas cartas aos acionistas que ele divulga a cada ano. O último, apresentado em fevereiro desse ano, e disponível na Internet, apresentava a seguinte tabela:

Observe que, na última década, os ganhos foram bem mais modestos. Tal se deveu a uma série de fatores: além de o próprio mercado americano ter apresentado um desempenho pífio, com o Dow Jones não saindo do lugar, é preciso levar em consideração também que a Berkshire a cada ano que passava se tornava uma empresa ainda mais gigantesca, ficando cada vez mais difícil obter rentabilidades extraordinárias. Soma-se a isso a teoria da regressão à média, verdadeira lei da gravidade dos mercados financeiros, e o fato de esse período ter coincidido com uma diminuição na marcha de atividades do próprio Warren, particularmente após a morte de sua esposa Susie, em 2004, que o fez refletir muito sobre o significado de seu próprio trabalho e da consequente riqueza que havia acumulado. Como o próprio Buffett reconhecia, os bons tempos de retornos extraordinários haviam se acabado. Mesmo assim, ter obtido uma taxa composta de retornos de mais de 20% a.a. durante quase 50 anos é um feito e tanto. Segundo cálculos abrangendo o período em que Buffett trabalhou antes de 1964, na época de suas diversas sociedades (cujos retornos não estão incluídos na tabela acima, que começa em 1964), os ganhos totais acumulados teriam superado a fantástica soma de 1.000.000% (um milhão por cento). Trata-se da maior rentabilidade de todos os tempos obtida com investimentos em ações. Ninguém conseguiu até hoje obter o que ele obteve, usando o mercado de ações. Ele não só é a pessoa mais bem sucedida da História na Bolsa de Valores, como também é a que conseguiu permanecer por mais tempo no topo de Wall Street. Trata-se de uma pessoa que construiu sua riqueza no mercado de ações não com base em herança, loteria ou acaso, mas basicamente com o uso de seu cérebro, suas habilidades sociais e cognitivas, e seu insaciável apetite pelo aprendizado. Seus resultados falam por si. E é justamente por isso que muitos tentam imitá-lo.

No próximo artigo dessa mega resenha, iremos analisar exatamente como foram esses últimos 10 anos na vida de Buffett. Ele teria acertado alguma das previsões que havia feito desde então? E por quê, numa atitude que surpreendeu o mundo, ele resolveu doar mais de 85% de sua fortuna pessoal para a filantropia?

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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5 Responses to Resenha: A bola de neve: Warren Buffett e o negócio da vida [biografia], de Alice Schroeder. Parte II: A lenda

  1. MJC 10 de outubro de 2011 at 8:00 #

    Muito bom o artigo. Aguardando ansiosamente os próximos 2 da série!

    Guilherme, terão outras atualizações daqueles posts (Tipo esse: http://www.valoresreais.com/2011/06/17/rentabilidade-atualizada-das-debentures-bndespar-de-2010/) sobre as debentures do bndespar?

  2. Rosana 10 de outubro de 2011 at 14:01 #

    Guilherme,
    Muito boa a resenha que tem feito do livro!
    Abraços,

  3. Guilherme 12 de outubro de 2011 at 13:12 #

    MJC, obrigado! Sobre as atualizações das debêntures, há sim a possibilidade! Aliás, quem investiu nelas deve estar sorrindo de orelha a orelha com a queda da SELIC + diminuição dos juros reais no Brasil…!

    Rosana, obrigado!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  4. Victor 18 de outubro de 2011 at 14:44 #

    Demorei um pouco pra ler essa segunda parte, mas cada vez que leio fico mais interessado na resenha… parabéns ..

    um abraço

  5. Guilherme 19 de outubro de 2011 at 9:25 #

    Victor, thanks! 😀

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