Resenha: A bola de neve: Warren Buffett e o negócio da vida [biografia], de Alice Schroeder. Parte IV: 8 lições extraídas da leitura da vida de Warren Buffett

Essa é uma continuação da resenha sobre a biografia de Warren Buffett, “A bola de neve: Warren Buffett e o negócio da vida“, de Alice Schroeder.

Nos textos anteriores, analisamos a vida e Warren Buffett sob todos os aspectos: familiar, profissional e na área de filantropia. Quais as lições que podemos extrair da leitura da vida dessa lenda de Wall Street? Aqui vão 8 dessas preciosas lições.

1) Seja uma máquina humana de aprendizagem. Buffett havia aprendido desde muito cedo que só se consegue alguma coisa na vida aprendendo como as coisas funcionam. E Buffet seguia rigorosamente essa lição, devorando tudo o que lhe aparecesse à frente. Sua curiosidade interminável e seu apetite insaciável por aprender mais e mais, não se contentar com aquilo que era explicado em sala de aula, ler aquilo que os outros desprezavam, e aproveitar todo o tempo que sobrava para ler, ler e ler foram fundamentais para modelar o cérebro de Buffett como o mais poderoso cérebro jamais visto de Wall Street. São incontáveis os trechos do livro em que a autora narra a perspicácia e a vontade incontrolável de Buffett de aprender mais. Seja na infância e adolescência, seja na universidade e na vida profissional, Buffett não se cansava de estudar. O conhecimento era o ferramental necessário para Buffett tomar sempre as melhores decisões, e fazer os prognósticos certos acerca dos fatos que lhe interessavam. Mesmo nos últimos anos, Buffett não delegava a tomada de decisões. Era sempre dele a última palavra em quais empresas decidir – como, aliás, sempre fizera em toda sua vida.

Desde quando começou a estudar investimentos, aos 7 anos, até o estudo sobre aplicações em ações sul-coreanas, aos 70 anos de idade, Buffett se dedicou com fervor à arte de aprender. Isso certamente lhe proporcionou formar conexões cerebrais que se tornariam únicas, das quais todos os investidores do mercado de ações desejam fervorosamente imitar.

2) Acorde cedo. Um aspecto em comum na vida de boa parte das pessoas de sucesso com as quais Buffett se relacionava, que também era algo inerente à vida de Buffett, consistia no fato de que elas todas acordavam cedo, às vezes muito cedo, para trabalhar. Quando entregava jornais na adolescência, o próprio Buffett tinha que acordar às 4 da manhã. Rose Blunkin, cuja vida foi comentada no segundo artigo da série, que ergueu a maior loja de móveis da América (comprada por Buffett), e que tinha, aos 99 anos, sido obrigada por Warren a assinar um contrato com cláusula de não-competição com ele, acordava todos os dias às 5 da manhã. Acordar cedo permitia à Buffett usar o tempo com mais alto grau de eficiência, e ele era mestre nessa arte de gerenciamento de tempo. Eles, na verdade, estavam concretizando as palavras de um provérbio chinês, que, milênios atrás, já dizia, conforme descrito no livro Fora de Série (a propósito, resenhado aqui no blog) há milênios:

“A pessoa que em 360 dias do ano acordar antes do amanhecer, não tem como não enriquecer sua família”.

3) Construa uma rede de relacionamentos. Buffett não tinha só o conhecimento como aliado na construção de sua riqueza: ele havia desenvolvido uma rede de relacionamentos ampla e que lhe permitia sempre escolher pessoas capazes de administrar com competência as inúmeras empresas que estavam sob o controle da Berkshire Hathaway. Lidar bem com as pessoas era uma das mais famosas habilidades de Warren, e isso ele fazia tanto em momentos de alegria, quando em momentos de tensão. Parceiros de negócios notáveis, como Charlie Munger, lhe davam conselhos preciosos, e permitia a Buffett refinar ainda mais sua já consagrada estratégia de investimentos.

Infelizmente, Buffett não soube sustentar justamente o relacionamento com a pessoa que mais lhe importava: sua própria esposa Susane, cuja separação Buffett admitiu, com a maior sinceridade, que havia sido culpa sua, conforme comentado no primeiro artigo da série. Aliás, o episódio da morte da esposa é um dos momentos mais tristes do livro, e que havia servido de mote para Buffett fazer uma reavaliação de sua vida, a começar pela questão da transferência de sua imensa fortuna pessoal para a fundação de Bill Gates.

Por isso, a lição que fica aqui é: construa relacionamentos com pessoas de fora de sua família sem prejudicar relacionamentos com pessoas de dentro de sua família. Se quiser saber mais sobre a importância dos relacionamentos sociais, e como aprimorar técnicas de conexão em networking, não perca a resenha que fizemos do livro Nunca almoce sozinho, de Keith Ferrazzi.

4) Busque a excelência. Warren não se contentava em fazer um trabalho qualquer, e não admitia decepcionar as pessoas. Por isso, principalmente na fase inicial de sua carreira como investidor em ações, Buffett se esforçava ao máximo para administrar bem seus investimentos, afinal, era o dinheiro de outras pessoas que estava em jogo. Para Buffet, a intensidade de seu trabalho era o preço da excelência, e ele estava disposto a pagar esse preço durante toda a sua carreira como investidor em ações. A excelência, como consequência de um trabalho bem realizado, sempre tem uma causa, e pode-se afirmar que três dessas causas são justamente as três lições acima descritas: uma combinação poderosa de vontade de aprender + sair da cama bem cedo + relacionamentos bem construídos. Isso tudo misturado turbinou a carreira de Buffett.

5) Fortaleça seus pontos fortes. Tendo Buffett testado diferentes maneiras de ganhar dinheiro (como fazer trabalhos manuais, vender bolas de golfe usadas etc.), ele chegou à conclusão de que a melhor maneira de alcançar a independência financeira era administrando o dinheiro dos outros por meio do investimento em ações. Para conseguir ao seu objetivo de administrar o dinheiro dos outros, ele usava principalmente suas habilidades de relacionamento (item 3), e, para investir em ações, seu cérebro (item 1), tudo visando à excelência (item 4). Ou seja, ele delimitava um círculo de competências, e não saía desse círculo, procurando reforçar cada vez mais suas habilidades em (a) relacionar-se com as pessoas (tanto para conseguir dinheiro, no começo da carreira, como também selecionar bons administradores, para administrar bem suas empresas) e (b) selecionar os melhores negócios (daí a necessidade de ser uma máquina de aprender, pois, quanto mais conhecimento acumulasse, menos chances haveria de erros). Como bem diz a biógrafa do livro Bola de Neve:

“Ele deixou de lado as atenções para quase tudo que não fossem negócios – arte, literatura, ciência, viagens, arquitetura – para poder se concentrar na sua paixão. Definiu um círculo de competência para evitar cometer erros” (p. 851).

6) Não deixe ninguém fazer sua cabeça. Ou: não dê ouvidos para as baboseiras que andam dizendo a seu respeito. Durante toda a sua vida, Warren foi severamente criticado: seja por sua mãe, com  a qual teve um relacionamento difícil (tanto que ela é pouco citada na obra, exceto na parte inicial do livro), seja por não ter entrado na febre da bolha da Internet na virada do século, seja ainda pelos seus hábitos frugais. Mas importa dizer que também durante toda a sua vida Warren não deixou que as críticas interferissem em seu trabalho. Isso é muito importante na medida que, por sermos seres emocionais, tendemos a abrir uma brecha em nossos sentimentos para que as críticas nos impeçam de desenvolver nossas habilidades. Pois Warren fechou desde muito cedo essas brechas emocionais. Toda a sua energia era devotada à sua paixão, e não para sua reação às críticas e ao falatório alheio. Deixe os outros falarem o que quiserem: enquanto eles estão desperdiçando tempo, você está trabalhando.

7) Faça a ética ser um imperativo em sua vida. Warren Buffett tinha princípios e regras de conduta, herdados sobretudo de seu pai, que não o deixavam concluir negócios se isso implicasse uma violação desses mesmos princípios e regras de conduta. Buffett era leal com seus parceiros de negócios, e exigia a reciprocidade dessa lealdade para manter suas relações sociais. Construir uma reputação ímpar em Wall Street (que é justamente conhecida pela sua antítese, ou seja, a corrupção) lhe deu um grau de influência e poder que nenhum outro investidor jamais conseguiu. Ele, assim, tornou-se uma autoridade não pelo poder de sua riqueza, mas pelo poder de seu exemplo de vida, de sua força moral. Faça você também da ética um imperativo em sua vida: você só tem a ganhar com isso, até porque reputação é uma qualidade cujo valor não pode ser comprado.

8) Doe. Em suas palestras para grupos de universitários, Warren gostava de dizer que “ficar rico não é o objetivo mais digno da vida” (p. 849). Uma vez que o dinheiro era apenas um meio, ou seja, o produto final do processo de investir, no qual Warren havia se tornado gênio, e, tendo Warren já obtido o suficiente para viver, passou ele a procurar meios de fazer com que mais pessoas se beneficiassem da riqueza gerada por obra e talento de suas próprias mãos. Daí surgiu a impactante decisão de Buffett de fazer a doação da maior parte de sua fortuna para a fundação de Bill Gates. Ciente de sua própria mortalidade, Warren Buffett descobriu que um dos objetivos da vida é deixar um legado que ultrapassasse sua própria duração, e ele não teria cumprido esse objetivo se deixasse sua fortuna tão somente para seus herdeiros. Fizemos um artigo sobre isso no post Isso é o que faz Warren Buffett ser “o” cara…

É paradoxal que o homem que passou a vida inteira acumulando dinheiro viesse agora, no final de sua vida, trabalhando no processo oposto de “desacumulação”. Mas isso também tinha a ver com a coerência interna, com o placar interno, dele, uma vez que, agindo dessa forma, ele poderia tornar a vida dos outros melhor, e nisso reside uma dos grandes virtudes de Warren Buffett: no começo de sua carreira, ele se preocupava em administrar bem o dinheiro dos outros, que depositavam total confiança nele. No final de sua carreira, ele se preocupava em fazer com que o dinheiro acumulado pudesse melhorar a vida de muitos milhões de pessoas em todo mundo. Tanto num quanto noutro caso, o objetivo era o mesmo: fazer pessoas felizes. E ele proporcionou isso através de suas habilidades em ganhar dinheiro. Não apenas para si próprio, mas sobretudo para os outros. Em resumo: ele tirou dinheiro dos gananciosos e aproveitadores de Wall Street, e o colocou – e está colocando, por meio da fundação de Bill Gates – para estender as mãos para pessoas pobres que nunca teriam uma oportunidade na vida. Em suma: ele usou o capitalismo como ferramenta para diminuir a desigualdade entre as pessoas ricas e as pessoas pobres. Isso é Warren Buffett.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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13 Responses to Resenha: A bola de neve: Warren Buffett e o negócio da vida [biografia], de Alice Schroeder. Parte IV: 8 lições extraídas da leitura da vida de Warren Buffett

  1. Jonas 24 de outubro de 2011 at 19:13 #

    Fantástica essa mega resenha de uma mega biografia.Não é nada fácil filtrar e esquematizar tanta informação de forma clara e concisa, parabéns! Achei particularmente curiosa nessa última parte a questão do círculo de competência e o fato dele ignorar o que não era relacionado aos negócios.Isto é basicamente o oposto do que pregava Steve Jobs no livro Inovação:A arte de Steve Jobs (que você também resenhou) com a filosofia de que pontos aparentemente aleatórios se conectam em algum momento, e o exemplo dado foi o curso de caligrafia.Fica claro que não existe uma receita de bolo para o sucesso, o que estes homens extraordinários tem em comum é a paixão por aquilo que fazem.
    Um abraço!

  2. Glauber 24 de outubro de 2011 at 22:25 #

    “Ele deixou de lado as atenções para quase tudo que não fossem negócios – arte, literatura, ciência, viagens, arquitetura – para poder se concentrar na sua paixão. Definiu um círculo de competência para evitar cometer erros”

    Eu jamais sentaria numa mesa de bar com um homem desse. Nem se ele pagasse a cerveja, o que eu acho muito dificil. rsrsrsrs

  3. David 25 de outubro de 2011 at 16:47 #

    Glauber, olhe bem que fala que ele deixou de lado as atenções para se concentrar na sua paixão. Pelo que podemos ver, isso não eram paixões para ele. Ele deixou de lado coisas que não tinham muita importância na vida dele (para ele) e focou em algo que ele é apaixonado.
    Nunca em minha vida eu largaria de minhas paixões para focar apenas em negócios. Mas eu poderia largar coisas que não sou apaixonado para me concentrar em negócios :-)

  4. Guilherme 26 de outubro de 2011 at 12:12 #

    Jonas, obrigado!

    Glauber, sobre a frase que a escritora colocou no livro, acho que vai ao encontro daquilo que o David disse, ou seja, evitar distrações para se concentrar no principal.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  5. Franco 27 de outubro de 2011 at 17:25 #

    Sabia pouco do Buffett qdo li a biografia. Achava que ele devia ser um daqueles capitalistas antigos, do tempo dos trustes e cartéis, onde se acumulava grana com a fórmula: seja amigo dos ricos para explorar os pobres.
    Me surpreendi.
    O cara tem espírito de cientista. No vale do silício trabalharia na Hewlet Packard! Como cresceu na depressão, a sobrevivência falou mais alto. Acidente histórico. A grana pra ele é menos um objeto de poder do que um marcador de competência: ela simplesmente serve para provar que ele está certo! Fim de papo. É um cara super simples, à moda antiga, sem afetação, que não gosta de ostentar pq isso era muito feio na sua época. O prazer dele é provar o seu ponto de vista. Além disso, tem umas tiradas bem vôzão, super inteligentes carregadas de ironia, p.ex., uma +/- assim:
    “É um privilégio jogar xadrez contra um adversário que prefere não olhar para o tabuleiro”. Um direto de direita na turma do mercado eficiente, Fama, French e Cia. Ele é a pedra no sapato desses caras: o seu sucesso vai diretamente contra a teoria e não pode absolutamente ser atribuído ao acaso. Aí os caras em vez de baixar a crista e rever a opinião, preferem fingir que ele não existe. Bem coisa de acadêmico.
    O livro é legal e o Buffett é gente fina. Saiu do meio do nada e venceu onde só tem VIP metido a besta. Nessa época cheia de maria vai com as outras o cara não abre mão de pensar por si mesmo e tomar decisões que contrariam a opinião estabelecida. Pra posteridade ele vai deixar pelo menos esta frase:
    “Wall Street é o único lugar onde um sujeito que anda de limusine vai pedir conselhos para outro que anda de metrô”!

  6. Luciano Buzzacaro 27 de outubro de 2011 at 23:14 #

    Parabéns! Mais uma ótima resenha. Muito bom!
    Grande abraço.

  7. Andreia 29 de outubro de 2011 at 0:54 #

    Ótimo! Adorei!
    Estava ansiosa pela última parte da resenha…Obrigada!
    Fique com Deus…

  8. Guilherme 30 de outubro de 2011 at 17:59 #

    Franco, excelentes comentários! Não sabia dessa frase do xadrez…..rsrsrsr

    Luciano e Andreia, obrigado!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  9. Tiago Pimentel 1 de novembro de 2011 at 23:34 #

    Fiquei com curiosidade de ler este livro… Estas lições valem ouro!

  10. Willy Fog 2 de novembro de 2011 at 23:08 #

    Valeu pela resenha Guilherme! Perfeita!
    .
    Você conseguiu captar as principais mensagens do livro, que aliás, deveria ser leitura obrigatória para todo investidor. O Sr. Buffett é uma lenda viva.
    .
    Abcs

  11. Guilherme 4 de novembro de 2011 at 9:32 #

    Tiago, vale a pena!

    Willy, thanks! Concordo plenamente: lenda viva que continua operando a pleno vapor nos mercados. Ter 81 anos e ainda dar as cartas em Wall Street – detalhe: sendo o maior de todos, e de todos os tempos – é um feito absolutamente ímpar. Que ele viva até os 100 dando lições a todos nós!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  12. Someone 7 de novembro de 2014 at 1:09 #

    “No final de sua carreira, ele se preocupava em fazer com que o dinheiro acumulado pudesse melhorar a vida de muitas milhões de pessoas em todo mundo.”
    Errado. MuitOs milhões de pessoas (e não muitAs).
    De resto, ótimo post.

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