Pra quê gastar tanto?

Chegamos no período financeiro mais crítico do ano para a maioria das famílias brasileiras.

Compras

A temporada das compras de Natal atinge o seu auge nos 10 dias anteriores a 25 de dezembro. Lojas de shoppings estendem seus horários de funcionamento aos domingos. Comércio de rua idem. As lojas virtuais intensificam a propaganda consumista em seus respectivos sites.

Os jornais impressos dominicais ficam impregnados de tantos encartes de “compre, compre, compre” que fica difícil achar os cadernos de notícias. A televisão é invadida por ofertas tentadores de produtos desnecessários.

Some-se a tudo isso a receita extra representada pelo décimo-terceiro salário, férias, abonos e outros “extras” + a analfabetização financeira da esmagadora maioria da população (inclusive entre quem é pHd acadêmico em seu ramo de atuação), e pronto: teremos uma receita de bolo infalível para a implosão do orçamento doméstico de final de ano.

Mas não precisa ser assim.

Quem tem um grau mínimo de educação financeira se conscientiza da necessidade de planejar bem as compras de final de ano, evitando comprar os presentes de última hora, até porque os vendedores dificilmente concedem descontos nessa época do ano, mesmo para pagamento à vista, sabedores que são da necessidade que a maioria coloca na cabeça de que precisa comprar naquele momento aquele produto por aquele preço.

Mas somos minoria.

A grande maioria, a grande massa da população brasileira e mundial, não quer saber de nada disso. Eles acham que existe uma correlação necessária entre gastos e felicidade, ou seja, quanto maiores forem os gastos, maiores seriam os índices de felicidade, e se há dinheiro extra entrando, pra quê se preocupar em poupar, não é mesmo? Afinal, dinheiro bom é dinheiro gasto.

Oh, bendita e santa ignorância!

Mal sabem essas pessoas que estão sendo tratadas pela mídia e pelo comércio em geral como verdadeiros fantoches, verdadeiras marionetes dessa sociedade de consumo irresponsável, que as avalia mais em função do “ter” do que em função do “ser”. Pessoas essas que compram coisas desnecessárias para impressionar pessoas que não conhecem, a fim de mostrar ao mundo o que não são, e no final das contas torram todo o seu dinheiro no presentem em prejuízo de um futuro em que sentirão falta do dinheiro que foi gasto hoje.

Como eu já disse em outro artigo, Quem controla a sua mente? Você é consumido por aquilo que consome?:

“Seus valores culturais e suas crenças, suas atitudes em relação ao trabalho, e praticamente todos os seus desejos de ter qualquer coisa própria, desde um um certo estilo de casa até um destino de férias, foram programados em você pelo resto do mundo. A maioria de seus desejos na verdade não são seus!”

E é isso mesmo. Você perdeu o controle da sua mente. Ela passou a ser comandada pelos blogueiros de consumo, que ditam onde, quando e a que preço você deve comprar as suas coisas; pelos anúncios publicitários, que dizem que você só será feliz se comprar as porcarias que eles vendem; pelos amigos, vizinhos e colegas de trabalho ultraconsumistas, que fazem você morrer de inveja pelas luxuosas viagens contadas, e pelos carros comprados a preço de diamante que estão estacionados na garagem ao lado.

Repito: a partir do momento em que você compra o que não precisa, com o dinheiro que você não tem, para impressionar pessoas que você não conhece, a fim de tentar ser uma pessoa que você não é, você automaticamente transfere o controle de sua mente, e por tabela o controle de seu próprio dinheiro, para pessoas e empresas interessadas em fazer você gastar e perder dinheiro. No final das contas, você acaba perdendo o controle de sua própria vida. Afinal, como sobreviver sem dinheiro?

Conclusão: você já tem o suficiente.

A solução para curar essa “gastonite” toda reside numa palavrinha mágica: suficiência. Você já tem o suficiente. Não precisa de outro celular (por favor, vamos parar com essa mania de trocar de iPhone toda vez que surge um modelo novo, gastando o equivalente a 27 compras semanais de mercado só para mudar de aparelho). Aquele celular que você já tem já dá pro gasto.

Não precisa de outro carro. O modelo que você já tem já supre todas as suas necessidades. Não precisa de mais milhas. As que você já tem já lhe permitem uma viagem legal. Não precisa de novas roupas. As que você já tem já lhe permitem se vestir de forma confortável. Pra quê mais? Pra atender aos interesses de quem? Aos seus interesses é que não são!

Parafraseando o que disse o Mr. Money Mustache em seu último artigo, Soldier of Luxury (Soldado do Luxo):

“Você não estará diminuindo a sua qualidade de vida quando você desiste dos mimos – na verdade, você estará dando a si mesmo a oportunidade de ter uma vida de verdade“.

Créditos da imagem: Free Digital Photos

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33 Responses to Pra quê gastar tanto?

  1. Davi 16 de dezembro de 2013 at 11:34 #

    Tão difícil de seguir isso no Natal, quando se você não quer participar das muitas confraternizações, amigos-secretos e presentes para crianças que mal conhece (não-carentes, na maioria das vezes, porque tem pai, mãe, tios… etc)

    Se você não estiver disposto a gastar no Natal, para benefício alheio, é visto por pãodurismo. rsrs

    Eita… Natal é uma das épocas do ano que eu queria me ocultar numa caverna e só sair depois que terminasse todo ar de gastança e artificialidade.

    Só que não dá… Vamos simplesmente sorrir, analisar e selecionar alguns gastos.

    E que viva o verdadeiro espírito natalino: a fé, a esperança (por meio do nascimento de Jesus, o Senhor) e o amor. Esses três, e o maior deles é o amor (já dizia o apóstolo Paulo) – e amor não custa nada, mas vale muito! :)

    • Guilherme 16 de dezembro de 2013 at 20:05 #

      Oi Davi, isso mesmo, o artificialismo do oba-oba consumista muitas vezes acaba ofuscando o verdadeiro sentido do Natal.

      O desafio de viver o verdadeiro espírito natalino é gigantesco, mas vale a pena! :-)

    • Nélio Oliveira 18 de dezembro de 2013 at 14:46 #

      Sobre o amigo-oculto eu desenvolvi uma tática há alguns anos que tem funcionado razoavelmente: compro UM presente. O que eu ganhar no primeiro amigo-oculto, eu uso pra presentear meu amigo oculto no evento seguinte. O que eu ganhar neste eu uso pra presentear meu terceiro amigo oculto, e assim vai. Geralmente recebemos presentes “genéricos” mesmo, então a tática funciona muito bem…

      • Flavio 19 de dezembro de 2013 at 11:15 #

        Hehehe, boa tática! Só não funciona muito bem se num ano você tirar a pessoa que te deu o presente no ano anterior.

        • Guilherme 28 de dezembro de 2013 at 6:23 #

          Realmente, a tática é muito boa……rsrs…

          Abç

    • Reginaldo de Souza 19 de dezembro de 2013 at 22:35 #

      Olá Guilherme.

      Na verdade isso tem muito a ver com a educação financeira mundial.
      Desde a existência das comemorações de Natal as pessoas adquiriram o hábito de dar presentes. E isso foi passado de pai para filhos até o dia de hoje.
      As pessoas ficam se dando presentes, e se a gente não faz o mesmo acaba sendo chamado de pão duro e insensível.

      • Guilherme 28 de dezembro de 2013 at 6:23 #

        Concordo Reginaldo, isso tudo acaba sendo resultado da tradição mesmo…

        Abç

  2. Alvaro Fonseca 16 de dezembro de 2013 at 13:08 #

    Nota 10 pra você Guilherme ! Mais uma boa matéria, limpa, certeira e direta !

    Escreveu muito bem, e esta é minha linha de pensamento.

    Os canais de comunicação em massa são bem pagos para nos induzir a consumir – diga-se gastar – além de nossas possibilidades, nos deixando endividados.

    É só ficar atento e não deixar-se influenciar pelo consumismo exagerado.

    Naqueles lançamentos do iPADs/iPODs da vida, divulgam as imagens da galera em filas de shoppings , em lojas especializadas, etc e eu só penso e comento que aquela galera ali está pagando os custos de fabricação e uma boa margem de lucros.

    Passada a euforia, o boom do lançamento, as vitrines ficam cheias e aí surgem as promoções que nem sempre são promoções de verdade.

    É o que eu sempre digo : se for comprar por impulso, vai pagar caro e quase sempre não é o top, ou seja, se pesquisar com paciência, vai encontrar melhores preços, melhores produtos etc.

    Abrs,

    Alvaro

    • Guilherme 16 de dezembro de 2013 at 20:07 #

      Perfeito seu raciocínio, Álvaro!

      O importante é usar o cérebro antes de usar o bolso.

      E obrigado pelos comentários!

      Abç!

  3. Luana 16 de dezembro de 2013 at 15:36 #

    Só para variar, um ótimo texto!
    Concordo com vcs, somos manipulados para comprar e comprar cada vez mais…..o importante mesmo muitos se esquecem, que é celebrar uma energia tão bacana que o Natal traz….

    um abraço

    • Guilherme 16 de dezembro de 2013 at 20:09 #

      Oi Luana, obrigado!

      Isso mesmo, é preciso ter bastante paciência e perseverança para cultivar os verdadeiros valores reais que essa época do ano traz.

      Abç

  4. Pobre Poupador - www.pobrepoupador.com 16 de dezembro de 2013 at 21:08 #

    Belíssima postagem meu caro!

    Esta época do ano é complicada para a maioria dos Brasileiros sem preocupação com as finanças…

    Fizemos uma postagem com perspectivas para 2014 em nosso portal agorinha, dá uma passada e faz teu parecer por lá! Abraço camarada!

  5. Gouvea 17 de dezembro de 2013 at 1:12 #

    Olá Guilherme, parece que todas datas comemorativas foram deturpadas pelos comerciantes.

    Mas, o pior de tudo é que as pessoas querem compensar algum problema na vida comprando, quando na verdade, comprar mais não vai resolver nada.

    Então a falta de educação financeira, é apenas um reflexo do desequilibrio e falta de objetividade na vida.

    A maioria das pessoas trabalham muito apenas para manter o alto padrão de consumo, quando na verdade devemos trabalhar o suficiente para ter uma vida equilibrada e claro trabalhar é servir ao próximo, ao cliente, ao contribuinte etc.

    Antes de tudo, o mais importante é enxergar o porque de estarmos vivos e lembrar que estamos aqui para evoluir vivenciando inúmeras situações através da grande experiência da vida.

    Abraço.

    • Guilherme 18 de dezembro de 2013 at 9:12 #

      Excelentes reflexões, Gouvea!

      Destaco particularmente esse trecho singular:

      “A falta de educação financeira, é apenas um reflexo do desequilibrio e falta de objetividade na vida.”

      Abç!

    • Rosana 31 de dezembro de 2013 at 9:19 #

      Gouvea,

      Gostei muito da sua frase:
      “Parece que todas datas comemorativas foram deturpadas pelos comerciantes.”
      Por não existir consciência sobre a importância da educação financeira, as lojas aproveitam cada comemoração popular para induzir cada vez mais o consumidor a comprar mais do que realmente seria necessário e adequado.

  6. Kleber Rebouças 17 de dezembro de 2013 at 6:21 #

    A pressão para se gastar nessa época vem de todos os lados: comerciais, outdoors, vitrines…

    E até da família! Segurar a onda não é fácil!

    Quando não posso dar presentes, simplesmente não dou! Se quiserem me achar pão duro, paciência! Pelo menos não fico endividado!

    http://www.ricodinheiro.com.br

    • Guilherme 18 de dezembro de 2013 at 9:13 #

      Exato, Kleber!

      Pressão vem de todos os lados! Tem que aguentar firme, porque não é fácil!

      Abç!

  7. Lucas Cruz 17 de dezembro de 2013 at 8:26 #

    É por isso que este é o melhor blog de finanças do Brasil!! Mantenha o ótimo trabalho. Este ano me formo e ano que vem pretendo usar com sabedoria meu dinheiro, dando importância aos valores reais. Parabéns. Feliz Festas de Ano Novo! Abraços.

    • Guilherme 18 de dezembro de 2013 at 9:15 #

      Muitíssimo obrigado pelas palavras, Lucas!

      Um Feliz Natal e Próspero 2013!

  8. Bruna 17 de dezembro de 2013 at 10:28 #

    Oi Guilherme! Gostei muito do seu site. É a primeira vez que visito e já dou de cara com esse texto super bacana! :) Esse fds que passou mesmo fui ao Shopping por insistência do namorado que queria comprar nossos presentes lá. Acabou que ele me deu dois livros e, com tantas opções, saímos de la sem o presente dele. A cada dia eu tenho menos vontade de comprar. Estou em um projeto de ficar um ano sem comprar nada e juro, nunca estive tão feliz e realizada como agora. Sei do que sou, do meu valor, não preciso mostrar nada pra ninguém, não preciso provar aos outros que o que eu tenho mostra o quão bem sucedida eu sou. Eu SEI o que eu sou e ponto.

    Parabéns por essa bela reflexão!

    Abraço!

    • Guilherme 18 de dezembro de 2013 at 9:16 #

      Muito bacana seu depoimento, Bruna!

      Esse projeto é bastante interessante, e mais interessante ainda pelos resultados alcançados!

      Obrigado por começar a frequentar o blog, espero que goste!

      Abç

  9. Lívia França 17 de dezembro de 2013 at 15:57 #

    Oi, Guilherme.
    Excelente artigo, outra vez. Uma vez que a gente decide usar com mais inteligência nosso próprio dinheiro, sem dar satisfação a ninguém, muda tanto de cabeça, que não faz mais sentido voltar atrás.
    Me programei, para não deixar de presentear nessa época as pessoas que são importantes pra mim, porém economizando nos excessos.
    Muita coisa, providenciei em meses anteriores, poupando bastante.
    E agora, não invejo quem for ao shopping lotado, se desgastar e gastar desnecessariamente.
    Aproveito para agradecer a sua ‘parceria’ este ano, sua ajuda foi, e é sempre, muito valiosa.
    Que os verdadeiros valores reais do Natal floresçam por toda a parte, para aqueles que tiverem ‘olhos de ver’.
    Deus o abençoe e ilumine, para que continue o belíssimo serviço prestado à sociedade.
    Forte abraço.

    • Guilherme 18 de dezembro de 2013 at 9:18 #

      Olá Lívia, é isso aí, com planejamento é possível atender aos diversos momentos de confraternização de final de ano e ainda assim manter o orçamento doméstico sob controle.

      Eu é quem agradeço a oportunidade. Você apresentou uma incrível evolução nas finanças pessoais durante esse ano, e certamente isso está causando impactos positivos extraordinários nas demais áreas de sua vida.

      Obrigado e que Deus te abençoe também!

      Abç!

  10. Hugo Loureiro 18 de dezembro de 2013 at 10:35 #

    Concordo em parte com o texto, acredito que sabendo do que ocorre nesta época com consciência podemos levar vantagem neste jogo, pois na verdade esta é a melhor época para se comprar, para aqueles que se planejaram. Quem teve um ano com as finanças em dia e agora ao receber os abonos, 13 e férias não vai usá-los para quitar dívidas, pode ir as compras, veja bem, compras planejadas. Pois nesta época o comércio sabe que o dinheiro está circulando e eles querem captar este recurso então a disputa se acirra. Não digo que precisa ser antes do Natal, pode ser depois ou inicio de janeiro. Digo isso pois desde outubro estou monitorando preços de equipamentos linha branca e alguns eletrônicos e nas últimas semanas foram quando atingiram o menor preço do período.

    Veja o exemplo desta lava louça da GE, estava R$ 1342,08 em 04/11 e agora está R$ 967,91, diferença de R$ 374,17 quase 28%.

    http://compare.buscape.com.br/ge-llge009cqd3a1-de-piso.html?pos=1#historico-de-preco

    Abraço.

    • Guilherme 18 de dezembro de 2013 at 12:23 #

      Olá Hugo, muito pertinentes seus comentários. Com planejamento e análise cuidadosa dos preços, como você vem fazendo de modo bastante apropriado, é possível realizar excelentes aquisições.

      Abç!

  11. Gustavo 18 de dezembro de 2013 at 21:56 #

    Muito bom o post. Criei um blog para quem deseja entender certos conceitos básicos:

    http://rendaextraonline.blog.br

  12. Rosana 31 de dezembro de 2013 at 9:25 #

    Gostei muito do seu post, com destaque para a última frase:

    “Você não estará diminuindo a sua qualidade de vida quando você desiste dos mimos – na verdade, você estará dando a si mesmo a oportunidade de ter uma vida de verdade“.
    A vida de verdade não tem relação nenhuma com as coisas, com o TER, mas sim com o SER.
    Viver de forma mais simples trará naturalmente maior equilíbrio em relação ao consumo e ficaremos estarrecidos ao ver o quanto gastamos com coisas inúteis, as quais satisfizeram nosso ego apenas por breves momentos. Experiência própria…

    • Guilherme 5 de janeiro de 2014 at 8:24 #

      Exatamente, Rosana. A grande questão é fazer reflexões realmente sérias sobre o papel e o significado das coisas e dos valores imateriais que incorporamos em nosso dia-a-dia.

      Abç

  13. Bruna 14 de dezembro de 2015 at 13:28 #

    Fantástico, como sempre. Suas reflexões são muito simples e sensatas e nos permitem excelentes reflexões. Esse ano não tem presente pra ninguém, não precisa. Não preciso de uma data comercial pra presentear por obrigação com coisas desnecessárias!

    • Guilherme 7 de janeiro de 2016 at 9:24 #

      Obrigado pelas palavras, Bruna!

      Achei excelente sua última frase: “Não preciso de uma data comercial pra presentear por obrigação com coisas desnecessárias!”

      Abraços!

  14. Lud 18 de dezembro de 2015 at 12:00 #

    Já faz uns anos que combinei com a família que presentes, só para as crianças. Com os amigos, convido que a gente se encontre para “trocar abraços, não presentes”. Teve um estranhamento inicial, mas hoje funciona bem.

    Quanto aos rótulos, as pessoas não acham que eu sou pão-dura: elas têm certeza! E quer saber? É um título do qual eu até me orgulho.

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