O que nós, brasileiros, podemos aprender com a vergonha secreta da classe média norte-americana

“Nas décadas de 50 e 60, o crescimento econômico democratizou a prosperidade. Nessa década de 2010-2020, nós estamos democratizando a insegurança financeira” (Neal Gabler).

Um excelente ensaio – que inclusive foi matéria de capa – foi publicado na revista norte-americana The Atlantic no mês de maio desse ano.

dinheiro afundando

Com o sugestivo título “a vergonha secreta dos americanos de classe média” (the secret shame of middle-class americans), o texto, de autoria do escritor Neal Gabler, comenta diversas pesquisas recentes conduzidas pelo Banco Central dos EUA e universidades americanas, que chegaram à conclusão de que aproximadamente metade dos norte-americanos (47%) não têm dinheiro para bancar uma despesa de emergência de meros 400 dólares.

Isso mesmo. O saldo disponível em conta-corrente para uso imediato não chega a USD 400 para metade da classe média dos EUA. Ou seja, para ter esse dinheiro, o cidadão ou teria que emprestar dinheiro (fazer um consignado, usar o cheque especial etc.), ou vender algo. Eles vivem de salário em salário (“living from paycheck to paycheck”), dependendo praticamente 100% do salário que ainda está por vir para quitar suas contas. Surpreendente, não?

O mais interessante dessa pesquisa não é nem esse dado alarmante revelado, mas sim o fato de que o próprio autor do texto, Neal Gabler, faz parte dos 47%. Mais: ele narra em detalhes como praticamente destruiu sua vida financeira pessoal através de uma sucessiva quantidade de erros grotescos na hora de tomar decisões financeiras, que foram desde não controlar os gastos à medida que a renda subia (a famosa “inflação do estilo de vida”), até tirar dinheiro do fundo de aposentadoria para bancar o casamento de uma das filhas (!!!), passando por pedir ajuda dos pais dele para bancar os estudos universários delas (e, consequentemente, não receber herança alguma).

O primeiro dado que chama a atenção, é logicamente, o resultado da pesquisa: como o país supostamente mais rico do mundo (ao menos em termos absolutos) pode ter metade de seus cidadãos de classe média absolutamente sem condições de arcar com uma despesa de emergência de meros USD 400? Não chega a ser isso um contrassenso?

Sim, chega, e, à primeira vista, parece realmente ser uma situação paradoxal.

Porém, como toda consequência tem uma causa, Gabler vai enumerando, ao longo do texto, diversos motivos que fizeram com que um de cada dois cidadãos da classe média não consiga bancar essa despesa.

Um deles está associado à rápida expansão do crédito fácil. É o famoso “compre sem ter dinheiro”. Com o crescimento das instituições financeiras e a criação de produtos financeiros cada vez mais complexos, muitos norte-americanos acabaram cedendo à tentação de financiar, através de cartões de crédito e de outras formas de financiamento e empréstimo, bens e serviços para a sua vida pessoal. “Compre agora, pague depois”, virou o lema da maioria das famílias norte-americanas.

O problema é que o crescimento das taxas de endividamento acabou sendo proporcionalmente maior que o crescimento da renda real (ajustada pela inflação). Por exemplo, enquanto a renda real aumentava, digamos, 1,2x, o nível de endividamento aumentava 1,9x, e o resultado disso, obviamente, era um só: inexistência de patrimônio líquido positivo. Inexistência de condições de quitar despesas de emergência. Inexistência de liquidez.

Não bastasse isso, somam-se ainda dois outros fatores-chave, que tiveram peso decisivo para a criação dessa “vergonha secreta”: a exposição a um ambiente de hiper-consumo, típico dos Estados Unidos, ambiente esse que estimula o consumo sem necessidade e, por via de consequência, incentiva as pessoas a se endividarem além de sua capacidade de poupança, e, mais grave do que isso, a própria analfabetização financeira:

“Basically, a good many Americans are “financially illiterate,” and this illiteracy correlates highly with financial distress. A 2011 study she and a colleague conducted measuring knowledge of fundamental financial principles (compound interest, risk diversification, and the effects of inflation) found that 65 percent of Americans ages 25 to 65 were financial illiterates”.

Isso mesmo: aproximadamente 7 em cada 10 americanos entrevistados não sabem nada de juros compostos, diversificação do risco e efeitos da inflação. No Brasil, certamente uma pesquisa semelhante traria resultados ainda piores.

Como consequência disso tudo, não é de causar estranheza que a causa número 1 de estresse nos EUA seja “dinheiro” – ou a falta dele:

“Financial insecurity is associated with depression, anxiety, and a loss of personal control that leads to marital difficulties,” says Brad Klontz, the financial psychologist. I know about that, too. Money may change everything, as Cyndi Lauper sang. But lack of money definitely ruins everything“.

Preste bem atenção nessa última frase: a falta de dinheiro definitivamente arruina todas as coisas.

Some os seguintes fatores: renda baixa (e que não cresce, ou seja, renda estagnada) + despesas altas (e que aumentam a cada ano, ou seja, inflação) + crédito fácil  (a juros pretensamente baixos) = e o que você terá será uma explosão na sua vida financeira, de consequências bastante previsíveis, tais como a dificuldade de lidar com uma emergência de simples 400 dólares, como é o caso de quase metade da classe média norte-americana.

Mas então, o que podemos aprender com a vergonha secreta da classe média dos EUA?

Ficam aqui, para nós, brasileiros, algumas importantes lições sobre essa vergonha – agora não tão secreta assim 😉 – da classe média norte-americana.

A primeira, e talvez a mais difícil de todas, é a de “segurar” o consumo quando a renda salarial aumenta. Isso porque faz parte da natureza do ser humano aumentar o consumo na mesma proporção do aumento da renda. Funciona quase como se fosse um instinto primitivo. Seu salário teve um aumento de R$ 1 mil? “Oba, então podemos aumentar os gastos em R$ 1 mil todo mês!”, é a primeira coisa que pensamos.

Não pensamos em aumentar os investimentos em R$ 1 mil, não pensamos em aumentar a massa de poupança para a aposentadoria em mais R$ 1 mil, não pensamos em aportar mais R$ 1 mil em ações e Tesouro Direto, mas sim… pensamos em no quê vamos gastar os R$ 1 mil a mais que temos no salário. Huuumm….. quem sabe dá pra fazer um upgrade da TV a cabo pro Telecine… ou até a prestação da próxima L-200 Triton pode se “encaixar” na parcela…. 😛

Isso tem um nome: inflação no estilo de vida, e, a longo prazo, é extremamente prejudicial para o equilíbrio das finanças pessoais, pois os gastos incorporados ao dia-a-dia poderão ser reajustados a taxas superiores à inflação e aos próprios aumentos salariais subsequentes (se houverem), o que, por via de consequência, aumentará as probabilidades de endividamento.

O segredo, portanto, aqui, reside exatamente em resistir às tentações, controlando os impulsos de consumo. “Dinheiro na mão é vendaval”, já dizia o poeta, e ter visão de longo prazo quanto às consequências de um aumento de renda é crucial para não cair na inflação do estilo de vida.

Além disso, é de suma importância manter os gastos sob controle. Ou seja, o bom e velho ditado popular das finanças pessoais: “gastar menos do que você ganha” continua sendo a regra número 1 para ter uma vida financeira bem sucedida.

Fazer sobrar dinheiro no final do mês, ter uma planilha de gastos bem executada, e saber distribuir bem o dinheiro entre as diferentes áreas de despesas que compõem um orçamento doméstico, são, nesse contexto, comportamentos mentais absolutamente essenciais para não cair nas armadilhas do (a) endividamento, e (b) dos instrumentos financeiros que só te fazem perder ainda mais dinheiro, tais como cheque especial, empréstimo consignado, Pague Contas nos cartões de crédito para rolagem de dívidas, crédito rotativo do cartão de crédito etc. etc. etc.

Sem gastar menos do que se ganha fica impossível, até por uma questão lógica, construir patrimônio e ter uma aposentadoria financeiramente sustentável.

Por fim, e aqui já abordando o cerne, o núcleo essencial, dessa “vergonha secreta”, a melhor maneira de eliminá-la por completo de sua vida pessoal é construindo uma bela reserva de emergências, o popular “colchão de segurança”.

Já discorremos sobre a importância de você ter um fundo de emergências bem parrudo em diversos artigos aqui no blog:

Voltamos a enfatizar novamente o tema simplesmente porque ele foi a manchete de capa de uma das mais conceituadas publicações dos EUA no mês de maio de 2016 e, apesar de ser um tema um tanto quanto “velho”, “gasto”, e até meio “sem graça”, ainda é um tema que choca pela atualidade e até pelo caráter paradoxal que encerra.

Afinal de contas, chega a ser risível que, no país mais rico do planeta, metade da classe média não tenha dinheiro em caixa para bancar uma despesa de emergência de módicos 400 dólares. Aliás, por falar nisso… você teria? 😉

Conclusão

hoje é o dia

Não preciso nem falar sobre a importância de se educar financeiramente para evitar ter essa mesma vergonha típica da classe média dos EUA, não é mesmo?

É por esses e outros motivos que sigo recomendando: adquira o máximo de conhecimento financeiro que for capaz. Seja um leitor ávido por novidades nessa área. Alimente seu cérebro com material oriundo desse blog e de tantos outros empenhados no mesmo propósito de abrir sua mente para a importância de cuidar de suas próprias finanças pessoais. Isso depende 100% de você. Ninguém vai cuidar por você de suas finanças. Os outros estão interessados é em tirar dinheiro de você em benefício deles.

Mais: coloque esse conhecimento em prática. Execute a sua própria instrução financeira. Alinhe seu comportamento aos novos valores que aprendeu. Faça uma escolha pela redução dos excessos. Simplifique. Apare as arestas. Viva com menos, e você verá que viverá mais. E melhor. 😉

Créditos das imagens: Free Digital Photos

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42 Responses to O que nós, brasileiros, podemos aprender com a vergonha secreta da classe média norte-americana

  1. SwineOne 20 de junho de 2016 at 9:02 #

    Guilherme,

    Esses dias estava “filosofando” sobre como a maioria das pessoas simplesmente vive no piloto automático, como um zumbi, deixando a vida os levar passivamente. Acorda de manhã, vai trabalhar, volta à noite, assiste TV, dorme. No final de semana, vai para um bar encher a cara e pronto. São poucos os que pensam em buscar mais conhecimento, em otimizar sua vida financeira, sua saúde, sua nutrição, enfim, qualquer aspecto da sua vida. Fico impressionado, por exemplo, como pode ainda existir tanta gente aí fora, em tantos países, votando em candidatos socialistas/comunistas quando se sabe que tal ideologia só trouxe desgraça, fome, morte e regresso por absolutamente todos os lugares que passou. Tenho a sensação que se todo mundo resolvesse sair desse mundo zumbi e aprender um pouco sobre as principais questões que nos rodeiam, o mundo progrediria algo como 200 anos em 20.

    Mais especificamente sobre o que é dito no artigo, e fazendo um paralelo com a realidade brasileira, podemos comentar:

    1. Se as porcentagens levantadas por essa pesquisa já são vergonhosas nos EUA, onde a mentalidade é muito mais avançada que a nossa, aqui devem ser verdadeiramente deprimentes.

    2. O americano médio pode, a qualquer momento, tomar as rédeas da sua vida, por mais endividado que esteja. A economia lá é pujante, o desemprego está baixo, todos tem oportunidade, e principalmente, as modalidades de crédito mais caras de lá, como cartão de crédito, ainda devem ser mais baratas (ou no mínimo muito parecidas) com as modalidades mais baratas daqui, como financiamento imobiliário e de veículos novos. Basta a pessoa sair do círculo vicioso do consumismo que rapidamente coloca sua vida em dia. Agora, o brasileiro que entrou numa enrascada de ficar devendo no cartão ou no cheque especial, e que realmente quiser honrar a sua dívida e não conseguir negociar taxas melhores, está ferrado.

    • Guilherme 22 de junho de 2016 at 6:52 #

      Olá, Swine, ótimos comentários.

      Sem dúvida, a maioria é, como se costuma dizer, “massa de manobra”, e vive como zumbi. Vivem na zona de conforto, e acham que a vida se resume a fazer as coisas de modo passivo.

      Quanto a sair do endividamento, concordo que o brasileiro terá muito mais dificuldades de sair desse buraco que o americano, pelos diversos fatores apontados.

      Abç!

  2. Rintintin 20 de junho de 2016 at 9:11 #

    Que loucura desses gringos…têm o Ynab em sua lingua nativa e não usam!

    • Guilherme 22 de junho de 2016 at 6:52 #

      Pois é, Rintintin….eles têm a faca e o queijo na mão… e não fazem nada!

  3. Investidor de Risco 20 de junho de 2016 at 10:45 #

    Já dizia Adam Smith que o efeito colateral da divisão do trabalho é a imbecilização, a ignorância e o embotamento. O indivíduo que executa as mesmas tarefas a maior parte da sua vida, perde a capacidade de pensar, raciocinar, filosofar de forma mais ampla… Como disse o SwineOne, torna-se um zumbi, cumpridor de rotinas simples e não consegue desbloquear esta prisão mental…

    O americano é exemplo disso em diversos aspectos, não só no financeiro. Enquanto uma minoria atinge os mais altos níveis de desenvolvimento e produz as maravilhas tecnológicas que só o capitalismo é capaz de alcançar, uma ampla maioria simplesmente passa pela vida… Alienados, abestalhados, entorpecidos pelo consumo…

    Se perguntarem para um americano comum onde fica o Brasil, onde fica a Europa, ou até mesmo onde fica os EUA num mapa mundi, boa parte não sabe! Sequer cogitam a possibilidade de viver de forma diferente ao que determina o estilo de vida norte-americano… O desconhecimento do sistema de juros compostos é só uma faceta disso… A ignorância é generalizada!

    Foquei nos EUA por que o post é sobre as pessoas deste país… Mas esta característica está presente na população da grande maioria das nações, inclusive no Brasil…

  4. Scant Tales 20 de junho de 2016 at 11:38 #

    excelente texto!

  5. Cleiton Oliveira 20 de junho de 2016 at 12:07 #

    Excelente texto para reflexão. Pagar-se primeiro, gastar menos do que ganha e constituir uma reserva de emergência, são pilares fundamentais para obter qualidade de vida hoje e para um futuro próximo.

    • Guilherme 22 de junho de 2016 at 6:55 #

      Obrigado, Cleiton!

      Concordo, é a aplicação de princípios básicos que faz a pessoa ser bem-sucedida financeiramente.

      Abraços!

  6. Jackie 20 de junho de 2016 at 13:17 #

    Um ponto que destaco no texto é o investimento na própria educação financeira. Com a internet, temos acesso a informações muito bacanas sobre orçamento doméstico, investimentos, empreendedorismo e muitos outros assuntos relevantes para o nosso bolso. Aliás, meus primeiros conhecimentos sobre tesouro direto foram adquiridos aqui no seu blog, Guilherme. Muito obrigada 🙂 Em um ano, passei de mera “investidora” na poupança a investidora no tesouro direto e em outros produtos financeiros mais interessantes. Quanto mais aprendo, mais tenho sede de conhecimento. Só não busca informação quem não quer, não é mesmo?

    Esses dias, indo para o trabalho de metrô, parei para observar o que as pessoas a minha volta faziam em seus smartphones e fiquei estarrecida: uma parte estava imersa em bobagens de Facebook, rolando a tela freneticamente, enquanto outra jogava candy crush. Será que é isso mesmo que as pessoas fazem com o seu tempo livre? Não se preocupam nem um pouquinho com seu futuro? Não buscam nada melhor para si? Indo e voltando do trabalho, já li muita coisa bacana sobre investimentos e demais assuntos de meu interesse, dessa forma, não dá para dizer que não mudamos nossa história por falta de tempo. As pessoas precisam tomar as rédeas da própria vida e a educação financeira é item obrigatório para qualquer virada.

    Dificilmente encontro pessoas para conversar sobre finanças e investimentos na minha vida offline, assim, foi na internet que encontrei a minha “turma” e, hoje, tomo decisões mais conscientes e embasadas em informação de qualidade.

    No geral, colegas de trabalho e conhecidos adoram jogar conversa fora sobre o que pouco me interessa, mas quando o assunto é dinheiro, cada um pega o caminho da roça e a gente é que vira “chato materialista”.

  7. dskol 20 de junho de 2016 at 13:58 #

    Poxa , estava justamente pensando em me presentear com uma L200, hj tenho um corsa 2008, segue abaixo meu perfil:

    33 anos casado um filho
    8k de renda passiva (RF,FII,Immoveis alugados, cerca de 1kk de ativos)
    7k salario liquido(Servidor publico)

    Estava pensando em gastar no max 70k em uma usada. O que acha, eu poderia me fazer esse agrado? abraço.

    • Leonardo 21 de junho de 2016 at 14:12 #

      Permita-me responder…
      Eu estou numa fase similar! Só que um pouquinho mais velho 39 anos.
      Comprei a Pajero dakar 7 lugares 2015 usada.
      Mas… O segredo… Me preparei pra isso!
      De fato temos que ter cuidado com o aumento das nossas despesas… Mas se preparando tudo Ok. Afinal temos que dar uma destinação ao dinheiro e a nossas felicidades, pois a vida é curta e passageira!
      Parabéns pela disciplina e sucesso!
      Ah… E nada de comparar preço de carro aqui com o exterior!!! Rsrs

      • Guilherme 22 de junho de 2016 at 7:01 #

        dskol, faço minhas as palavras do Leonardo: desde que você se prepare para isso, não vejo problema em gastar com coisas que trazem satisfação à sua vida pessoal.

        Repito: desde que haja uma preparação prévia no orçamento para tal, assim como fez exemplarmente o leitor Leonardo.

        No mais, parabéns pela sua disciplina! Até porque, se você tiver um gasto mensal abaixo de 7k, você já alcançou a independência financeira.

        Abç!

    • LisoLeso&Louco 22 de junho de 2016 at 15:44 #

      Até aqui tem trolls !

    • Marcelo 2 de julho de 2016 at 14:17 #

      Está bem pra kct, desde que tenha RE, não precisa nem aportar mais já que a renda passiva é maior que a renda do trabalho. Só manter a diversificação afiada e reinvestir a renda passiva até atingir os objetivos desejados. Só chegarei nessa realidade aos 45 anos ou mais e já estou feliz com isso.

  8. Adriana 20 de junho de 2016 at 15:26 #

    O estilo de vida americano de consumo, gastança e megalomania fica evidente nos programas de tv americanos. Compra de casas absurdamente grandes para famílias pequenas e que não parecem ter renda e riqueza para tanto e acúmulo de bens de consumo parecem ser a regra. Sempre que assisto fico me perguntando: “O que essa gente tem na cabeça?” e imaginando como eles conseguem viver acumulando tanta tralha!
    Óbvio que um padrão de gastos megalomaníaco só poderia resultar em endividamento e falta de “colchão de segurança.

    • Guilherme 22 de junho de 2016 at 7:02 #

      Com certeza, Adriana!

      Aliás, como li num livro: “o tamanho da casa de um americano é um indicador mais provável do nível de seu endividamento do que do nível de seu patrimônio líquido”. 🙂

      Abç!

  9. Ricardo 20 de junho de 2016 at 20:40 #

    Parabéns pela exposição do tema. Sempre me agrada quando você expõe suas fontes de conteúdo. Já estou interessado no conteúdo desta revista. Uma ótima semana para todos.

    • Guilherme 22 de junho de 2016 at 7:03 #

      Obrigado, Ricardo! Essa revista costuma receber críticas positivas por parte de muitos blogs de finanças pessoais gringos, por isso, acaba sendo uma fonte confiável de estudos para o blog.

      Boa semana também!

  10. Douglas 21 de junho de 2016 at 8:47 #

    Este fato não me surpreende. Nem um dos 2 fatos me surpreende. 1) Falta de educação financeira existe em todo o mundo, apesar do brasileiro sempre se achar menos que os outros. 2) Na maioria dos países desenvolvidos, senão em todos, é normal as pessoas comprarem muito e pouparem pouco. Nós brasileiros vivemos isso durante pouquíssimo tempo e em grau infinitamente menor do que os americanos e europeus tiveram durante toda a vida. Quando tivemos a taxa Selic a 7% a ordem era comprar. Muitas pessoas compraram o primeiro carro zero, muitos compraram a primeira casa. Não há erro nisso, uma vez que não adianta, por mais educado financeiramente que a pessoa seja, ter uma casa própria e um carro para se locomover hoje vale mais do que qualquer cálculo financeiro.

    O cálculo financeiro serve para a pessoa que já tem uma casa e quer trocar, para a pessoa que já pagou pela casa e irá refinanciar como muitos americanos fazem, ou para a pessoa que já tem um carro e quer trocar só para ter mais conforto.

    Tanto nos EUA como na Europa, a taxa de juros é muito baixa. Você pode deixar o dinheiro investido durante anos sem ver retorno algum. Na Europa em alguns países a taxa de juros é negativa. O que significa que deixar o dinheiro parado na poupança gera custo ao invés de juros. Os bancos não querem o seu dinheiro, porque eles querem que o dinheiro vá para a economia. Como? Gastando ou investindo em empresas, novos negócios, ou seja, um grande “Vá Trabalhar!”. Investir para ficar a toa em casa é um privilégio do brasileiro. Com baixa inflação, baixa taxa de juros e economia estável não há motivo para economizar, e sim aproveitar.

    Se os americanos e europeus soubessem como seus dólares e euros multiplicariam absurdamente ao investir no Brasil eles não perderiam tempo e economizariam.
    No Brasil, pelo menos para minha geração (32 anos) acredito que muitos saibam da importância de economizar, pelos diversos problemas enfrentados pelo país e alta inflação. A geração mais nova é que está acostumada com relativa estabilidade econômica que infelizmente foi quebrada a partir de 2014.

    Eu acho que infelizmente não há muito o que aprender com eles. A medida que o nosso país for desenvolvendo teremos obviamente aumento do custo de vida, juntamente com a baixa da taxa de juros e maior oferta de emprego e também de produtos. Isso significa que comprar um casa fica cada vez mais inviável e os outros produtos ficam mais baratos. Temos casas cada vez menores e possibilidade de ter mais coisas. Economizar fica cada vez mais sem graça, a medida que você tem poucas perspectivas de salto no padrão de vida. Vejam os europeus: a maioria mora de aluguel porque comprar um imóvel é totalmente inviável. Montar uma empresa ainda mais inviável. O custo para abrir uma franquia do McDonalds na Alemanha é de 1 milhão de euros (1 única loja). Enquanto isso, você tem alta oferta de todo tipo de produto, com preços baixos. É a classe média que será sempre classe média desde que a economia se mantenha estável.

    Vê isso claramente no livro Pai Rico, Pai Pobre. Onde o autor diz que a classe média compra coisas pensando que são ativos, como casas, barcos, carros. Sendo que ativos são coisas que geram renda e não despesas. O exemplo do autor do artigo que tirou dinheiro da aposentadoria para pagar o casamento das filhas é um ótimo exemplo. Enquanto o “Pai Rico” compra ativos como empresas que dão retorno, geram renda.

    O problema é você querer que a classe média faça isso em um país onde a concorrência é muito mais feroz que no Brasil, onde grandes empresas já dominaram o país e onde o investimento em renda fixa gera virtualmente nada.

    • SwineOne 21 de junho de 2016 at 14:12 #

      “Muitas pessoas compraram o primeiro carro zero, muitos compraram a primeira casa. Não há erro nisso, uma vez que não adianta, por mais educado financeiramente que a pessoa seja, ter uma casa própria e um carro para se locomover hoje vale mais do que qualquer cálculo financeiro.”

      Errado, errado, errado, completamente errado! Sem querer ofender, mas isso que você disse exemplifica perfeitamente o conceito de “um pouco de conhecimento é algo extremamente perigoso”. Muita gente toma contato com um assunto, estuda por algumas horas, e num primeiro momento fica com a impressão de que “isso é fácil, não tem erro, etc.” Quanto mais estudar o assunto, mais ela descobre que na verdade ela não sabe quase nada. Mas com uma quantidade razoável de estudo, percebe-se que há alguns pontos pacíficos, entre eles esses que você citou (mas ao contrário do que você acha).

      Comprar um apartamento hoje, na rabeira da maior bolha imobiliária da história do mundo (incrível como o Brasil só bate recordes quando se trata de questões negativas), quando o mercado está para virar mas ainda não virou, aliado aos piores juros e condições de compra dos últimos 10 ou 15 anos, é basicamente assinar uma carta de alforria ao contrário. Você estará se escravizando a essa dívida por 35 anos, até depois de se aposentar. Ou, mais provavelmente, perderá o emprego no meio de alguma das diversas crises que ocorrerão ao longo desses 35 anos, e após ficar sem pagar 3 parcelas, o valor será tomado pelo banco e leiloado por uma mixaria. A solução? Com metade (ou menos) do valor pedido pelo imóvel, você investe em um produto como uma NTN-B, paga o aluguel com os juros, e protege o principal com correção pela inflação. E como é sabido que, a longo prazo, o preço da moradia segue a inflação (consultar por exemplo o livro Irrational Exuberance de Robert Shiller), você pode se manter nessa situação indefinidamente, ou aguardar a virada do mercado, o que é tão inevitável de ocorrer quanto o sol nascer amanhã, e compra por um preço justo.

      Carro zero vale mais que qualquer cálculo financeiro? Especialmente se você estiver começando na vida, compre um carro popular usado, de boa procedência, com no mínimo 3-5 anos de uso, e fique com ele até gastar. Carro zero é, ou pelo menos deveria ser, privilégio de pessoas muito ricas, que não tem tempo de garimpar um bom negócio no mercado. Carro zero tem IPVA alto, gastos com revisão, juros do financiamento, depreciação alta, e assim por diante. Só mesmo no Brasil que se vê pé-rapados, que não tem onde cair morto, trocando o carro zero a cada 2 anos. Sem contar que tem cada vez mais gente percebendo que entre ficar com o nosso deficiente transporte público, ou ficar preso num carro por horas a fio em congestionamento, a primeira opção pode ser preferível — imagine se tivéssemos um transporte público com um mínimo de qualidade.

  11. Vania 21 de junho de 2016 at 12:14 #

    Olha, não acho o assunto velho nem sem graça. Acho que nunca se falará o suficiente sobre a importância de manter os gastos sobre controle e ter uma boa reserva de emergencia.
    Creio que no Brasil os percentuais são ainda piores que nos EUA. Mas esse despreparo financeiro realmente é mais “vergonhoso” lá do que cá.
    No Brasil boa parte da população compra a ilusão que é vendida: aposentadoria pelo INSS, saúde e educação públicas e gratuitas. Dependendo do nivel de vida e das expectativas da pessoa, ela pode se sentir atendida com essa rede oficial de segurança .
    Nos EUA essa ilusão não é vendida em nenhum momento, todos sabem desde sempre que tem que juntar recursos para a velhice, que terão que pagar por seus tratamentos médicos, etc. É de fato inacreditável que tantos se arrisquem a viver assim, de salário em salário.

    • Vania 21 de junho de 2016 at 19:50 #

      corrigindo: sob controle e não sobre controle…

    • Guilherme 22 de junho de 2016 at 7:06 #

      Oi Vania, obrigado!

      Vou publicar então mais textos com essa pauta, já que isso é ainda muito pouco difundido no Brasil, e há uma carência enorme de blogs de educação financeira e investimentos em língua portuguesa, apesar de esse número ter aumentado bastante nessa década. 🙂

      Acho que essa crise no Brasil pode ter o pequeno efeito colateral positivo de fazer as pessoas repensarem o modo como organizam suas vidas financeiras.

      Abç!

  12. Miletto 21 de junho de 2016 at 20:05 #

    Ótimo texto, como disseram acima, apesar de já ter esse entendimento, é um assunto que nunca se esgota, pois cada nova geração enfrenta esse mesmo problema, mas muitas vezes em cenários diferentes.

    O que eu acho interessante abordar é que com essa onda de educação financeira vieram muitos aproveitadores com os mais diversos produtos ou cursos para alcançar a riqueza de maneira desordenada, o que acaba se tornando uma outra pedra no caminho daqueles que buscam uma qualidade de vida maior, mas se enganam com propostas com perda certa!

    Educação financeira é bom, mas tem que vir acompanhada com evolução na carreira/profissão/renda principal.

    abraços

    • Guilherme 22 de junho de 2016 at 7:07 #

      Oi Miletto, ótimo comentário!

      Gostei da sua última frase:

      “Educação financeira é bom, mas tem que vir acompanhada com evolução na carreira/profissão/renda principal.”

      Abç!

  13. Zé da Silva 22 de junho de 2016 at 16:23 #

    “aproximadamente metade dos norte-americanos (47%) não têm dinheiro para bancar uma despesa de emergência de meros 400 dólares” …

    O que falar de tal estatística ?

    – “Ah, mas garanto que o número de brasileiros que não têm R$400 guardados é infinitamente maior !!”. Certamente que é: o povo brasileiro ganha BEM MENOS do que o americano … E sim, isso deve ser levado em consideração.

    (na verdade eu acho que este é um dos motivos para que o brasileiro seja um dos povos que menos têm poupança – na forma mais pura da palavra, financeiramente falando – do mundo …)

    Triste, afinal de contas o custo de vida de um americano normal é bem inferior ao nosso. Claro, existe o gasto com educação superior, mas se formos ver aqui o Brasil, ainda poucos são os que têm acesso a ela …

    Metade da população não tem o dinheiro necessário para se comprar um iPhone … Opa, espere só um pouco … Ah, isso eles têm. O iPhone, não o dinheiro.

    ps: sobre 70% da população americana não ter conhecimento do conceito de juro composto, o número provavelmente seja bem parecido com o nosso. E olha que a parcela da população deles com nível superior é maior que a nossa …

    Ótimo post Guilherme ! Mostra que nem tudo são flores na terra do Tio Sam. 😉

    • Guilherme 22 de junho de 2016 at 19:23 #

      Grande Zé, ótimas reflexões entabuladas na forma de um diálogo! 🙂

      É bem por aí mesmo… eles têm o dinheiro, mas tudo “imobilizado” em bens de consumo, duráveis e não duráveis, cujo valor vai se depreciando com o tempo.

      Essas revelações chocam tanto os brasileiros – afinal, achamos que por lá tudo vai como um mar de rosas – quanto os próprios americanos, dada a repercussão da matéria nas mídias sociais de lá. 🙂

      Abraços!

  14. Paulo R.G. Oliveira 22 de junho de 2016 at 18:07 #

    Fico muito contente com o que Valores Reais nos transmite, pois vem ao encontro da forma que administro minha vida financeira há décadas. Lógico que não tenho os mesmos conhecimentos na área de aplicações financeiras e, ao longo do tempo, entrei em algumas “furadas”, porém tenho uma planilha de controle muito eficiente, que me permite controlar meu fluxo de caixa pessoal e meus investimentos com total precisão.

    • Guilherme 22 de junho de 2016 at 19:24 #

      Legal, Paulo, parabéns pelo controle financeiro de sua vida!

  15. Clerton 22 de junho de 2016 at 18:54 #

    Excelente artigo sobre a vergonha secreta da classe média Americana, fiquei perplexo com essa informação, nunca imaginei uma situação dessas para um Americano de classe média, justamente por se ter nos EUA uma inflação baixíssima. Parece que um mal da sociedade moderna, a ordem é consumir mesmo sem necessidade, consumir para apenas consumir. Sou contra essa carga de incentivo ao consumo veiculado por toda a mídia, acho que até por uma questão ambiental devemos dizer NÃO a esse consumo desmedido, aonde vamos parar????
    Agradeço ao Guilherme pelo antídoto que sempre aplica em nós leitores, assim, ficamos mais resistentes a tais apelos…rs…rs…
    Podemos viver bem com pouco, podemos qualidade de vida gastando pouco, podemos ser felizes sem consumir loucamente, basta tirar a venda dos olhos e não se deixar levar pelos apelos do sistema maluco que não pensa no amanhã do planeta.

    Clerton George.

    • Vania 23 de junho de 2016 at 11:08 #

      Gostei mto do seu comentário, Clerton George. Consumir menos é bom para nossas finanças, é claro. Mas tbem é fundamental para o planeta. Definitivamente, não podemos seguir nessa escalada de consumo em que estamos.
      Inclusive, e principalmente, em termos mais amplos, de países por exemplo. Não é razoável imaginar que se possa crescer indefinidamente, ano após ano. Isso é uma impossibilidade material. Um país não pode imaginar que possa haver demanda sempre crescente para coisas como petróleo ou minério de ferro. É preciso que a demanda para essas coisa diminua, e não cresça.

      • Guilherme 24 de junho de 2016 at 11:02 #

        Bem observado, Vânia. Os impactos ambientes do consumo irresponsável cobram sua conta mais cedo ou mais tarde.

        Abç!

  16. Guilherme 22 de junho de 2016 at 19:25 #

    Pois é, Clerton, nem eu imaginava. Mas a tentação de consumo acaba sendo maior, principalmente num país cujas taxas de juros são bem baixas.

    Gostei particularmente da sua última frase:

    “Podemos viver bem com pouco, podemos qualidade de vida gastando pouco, podemos ser felizes sem consumir loucamente, basta tirar a venda dos olhos e não se deixar levar pelos apelos do sistema maluco que não pensa no amanhã do planeta”.

    Excelente!

    Abraços

  17. Rosana 25 de junho de 2016 at 13:20 #

    Guilherme,

    Gostei do seu post e dos ricos comentários dos leitores do blog.

    O consumo em excesso é ruim, mas o marketing agressivo está aí para inventar necessidades. Cabe à nós filtrarmos muito bem as informações e questionarmos se realmente necessitamos de tantas coisas. A facilidade de pagamentos incentiva muito o consumo.

    Comparar Brasil e EUA chega a ser covardia, pois se lá a situação é essa, imagine aqui… Além disso, com educação financeira e menos consumo é infinitamente maior a possibilidade deles conseguirem os 400 dólares mensais, pois os salários são maiores e os produtos mais baratos. Enquanto aqui ocorre exatamente o contrário: salários baixos e produtos caros.
    Em ambos os casos vive-se praticamente no limite dos salários, mas lá a chance de recuperação das finanças domésticas e pessoais é infinitamente maior, se houver educação financeira de qualidade. Aqui há bons sites nesse sentido, mas infelizmente as pessoas não se interessam.

    Gostei das suas dicas finais:
    1) Execute a sua própria instrução financeira.
    2) Alinhe seu comportamento aos novos valores que aprendeu. Senão, de nada adiantam novos valores.
    3) Faça uma escolha pela redução dos excessos.
    4) Simplifique.
    5) Apare as arestas.
    6) Viva com menos, e você verá que viverá mais. E melhor. Excelente dica a última!

    Abraços,

    • Guilherme 26 de junho de 2016 at 10:39 #

      Oi Rosana, obrigado!

      Gostei da sua frase: “o marketing agressivo está aí para inventar necessidades.” É bem isso mesmo. É como se tivéssemos vendedores profissionais, de um lado, contra consumidores amadores, de outro.

      E a melhor maneira de os consumidores se tornarem também “profissionais” passa, necessariamente, pela educação financeira de qualidade.

      Abraços!

  18. Leandro Fonseca 7 de outubro de 2016 at 10:13 #

    Sensacional post e sensacionais comentários. Que conteúdo! 😀

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