Como começar o ano de 2018 no azul. ;-)

Não, você não leu errado.  😉

E não, eu tampouco me enganei ao redigir o título desse artigo. 😀

É isso mesmo: o artigo de hoje tem como objetivo fazer uma conexão, uma ponte, entre o seu futuro financeiro esperado, em 9 janeiro de 2018, e sua realidade financeira de hoje, de 9 de janeiro de 2017.

É inegável o fato de que a maioria das famílias brasileiras começa todo santo ano no vermelho, entulhada de dívidas e mais dívidas, e sem dinheiro suficiente para abastecer um plano de investimentos minimamente decente.

E também é inegável que, não bastasse essas dificuldades criadas por gastos precedentes, que excederam – e muito – o dinheiro proveniente da renda ativa (presentes de Natal, festas de Reveillon, viagens de férias, e tudo o mais), ainda por cima essas mesmas famílias têm que enfrentar os pesados gastos futuros, de começo de ano, que chegam com toda a força, principalmente os relativos aos impostos, taxas e tarifas de todo o tipo (mas não só isso): IPTU, IPVA, renovação de seguros de carro e de casa, matrícula escolar (e materiais escolares) etc.

Como evitar esse sufoco de começo de ano, de modo a que, na próxima virada de ano, ou seja, de dezembro de 2017 para janeiro de 2018, você tenha muito mais folga no bolso e tranquilidade financeira?

A resposta está no texto de hoje. E mais: é tão simples que pode ser iniciada ainda nesse mês de janeiro de 2017, ainda que você esteja com a corda no pescoço.

Trata-se de mensalizar as grandes despesas anuais. Incluir no orçamento doméstico de todo e de cada mês, sem exceção, despesas grandes que ainda estão por vir – e que certamente virão, como os clássicos exemplos dos carnês do IPVA e do IPTU.

Se você é leitor antigo e assíduo do blog, sabe não só que esse é um tema que eu já tratei em outros anos, mas também que eu gosto de frequentemente retomar certos temas, justamente para fixar na cabeça dos leitores a ideia de que só com a implementação de bons hábitos financeiros é que você consegue ter estabilidade em sua relação com o dinheiro.

E não, eu não estou falando de algo relativo a investimentos, que requer, sim, um esforço adicional de tempo para estudos, pesquisas e reflexões.

Estou, sim, falando de algo muito mais simples, que está ao alcance de qualquer pessoa, afinal, todo mundo precisa de dinheiro para sobreviver.

A planilha de orçamento doméstico é sua melhor amiga

Para realizar algo que você nunca fez, você precisa trabalhar com ferramentas que nunca utilizou.

Dentro desse contexto, é indispensável que você comece a utilizar uma planilha financeira. Pode ser uma planilha criada no Excel, tomando como base algum dos milhares de modelos existentes na Internet. Pode ser também um software como o excelente YNAB. Pode ser uma folha de papel organizada em forma de tabela. O importante é ter a ferramenta, pois é ela quem fará a ponte entre as ideias e os atos materiais de execução.

Com a ferramenta em mãos, você precisa definir quais são as grandes despesas anuais de começo de ano que precisam ser mensalizadas. Descobri-las é muito fácil: basta você verificar quais contas precisa pagar agora em janeiro de 2017, para as quais você não tem e não fez provisão alguma.

Eis uma lista exemplificativa desse tipo de despesa:

  • IPTU: é o clássico exemplo de carnê que nunca vai sair de janeiro;
  • IPVA: se você é proprietário de um carro, adicione mais esse item para a categoria de gastos que vêm implacavelmente em janeiro (em boa parte dos Estados brasileiros);
  • Matrícula escolar e materiais escolares: para quem estuda ou têm dependentes que estudam em escolas ou faculdades particulares, essa também é uma despesa que vem em todo começo de ano. O problema não é tanto a matrícula em si, que não costuma fugir do valor médio de uma mensalidade (ou não?), mas sim a temível lista de materiais escolares e livros;
  • Viagem de férias: some os gastos com transporte (combustível de carro, ou passagens aéreas), com hospedagem, alimentação, passeios e lembranças, e você terá um belo montante que precisará ser liquidado também.

O problema do começo do ano é que o salário não acompanha o gigantismo desses gastos anualizados. Dessa forma, já que não dá pra melhorar o tamanho dos ativos, a única saída é diminuir o tamanho dos passivos, fatiando-os em 12 parcelas mensais do ano antecedente ao da despesa.

Veio o boleto do IPVA no valor de R$ 1.260,00 agora em janeiro de 2017? No ano que vem, provavelmente o imposto virá em valores próximos, de modo que é prudente que você vá separando R$ 100 todo mês numa aplicação conservadora de alta liquidez (como a poupança), e anote, em sua planilha de orçamento doméstico, tal investimento como despesa: uma despesa de R$ 100 para o IPVA.

O IPTU tá custando outros R$ 900? Então faça o seguinte: todo mês, assim que receber o salário, separe R$ 75 para um envelope de investimentos, que pode ser a mesma poupança onde você está colocando o dinheiro do IPVA (desde que você tenha um bom controle da organização dessas despesas).

Viagem de férias com as crianças custando, em média, R$ 6 mil, e você ainda pagando no cartão de crédito a compra que fez na CVC referente à viagem de janeiro… de 2016?

Vamos modificar esse cenário, mas sem perder as férias: aplique em torno de R$ 500 num investimento conservador de alta liquidez, e tenha férias mais tranquilas em janeiro de 2018 – e o melhor, já integralmente pagas quando você voltar para a casa.

Matrícula + lista de materiais e livros custando R$ 2 mil? É, a instrução realmente é cara… mas não tão cara quanto a ignorância.

Por isso, não seja ignorante na hora de lidar com essa despesa, e adicione mais R$ 175 todo santo mês para a despesa de começo de ano, a título de instrução.

Para facilitar o entendimento, façamos uma comparação unicamente do mês de janeiro de 2018 de quem não se programou para as grandes (e certas) despesas, com quem se programou para essas mesmas despesas. Na imagem abaixo, temos o resumo simplificado de dois orçamento. No primeiro, você não se programou, ao longo desse ano de 2017, para as despesas de janeiro de 2018, ao passo que, na tabela de baixo, você se precaveu ao longo de 2017:

despesa-mensali-x-nao-mensal

O que você prefere? Começar o ano com uma conta de R$ 10.200,00 para ser liquidada (fora as despesas normais), ou começar o ano tendo um desembolso efetivo de dinheiro de apenas R$ 850 (e mais as despesas normais)?

Veja que não existe mágica aqui, e para começar o ano pagando apenas R$ 850 (ao invés de astronômicos R$ 10.200) você precisa pagar um preço: o preço de fatiar as despesas sazonais de grande impacto ao longo do ano anterior.

A planilha abaixo demonstra bem isso:

despesa-mensal-visao-ampla

Veja que foi preciso, sacrificar de cada mês do ano, uma certa quantia em dinheiro, mais precisamente R$ 850, sacrifício esse totalmente necessário, uma vez que as despesas sazonais que vêm com data certa precisam ser distribuídas uniformemente ao longo do ano, uma vez que seu salário não aumenta de tamanho em janeiro para acompanhar e fazer face a essas despesas sazonais de grande monta.

E isso nos leva a uma outra conclusão: você precisa visualizar seu orçamento em termos anuais, para ter a exata noção de cada despesa. Pense, por exemplo, num pacote de serviços bancários que custe R$ 55 mensais. Ora, R$ 55 mensais até que não é grande coisa – mal paga um jantar para uma pessoa, em boa parte das cidades brasileiras.

Porém, R$ 55 mensais fixos correspondem a R$ 660 anuais. No exemplo acima, é como se metade de seu IPVA saísse “de graça”, se você resolvesse migrar do pacote de R$ 55 para um pacote 0800 do BACEN ou para uma conta digital.

Guarde para um dia chuvoso – ou, no caso, para um mês chuvoso

Quem aplica a filosofia YNAB no controle do orçamento doméstico sabe bem do que estamos falando: trata-se da aplicação direta e sem rodeios dos princípios 1 e 2 dessa metodologia, a saber: dê a cada real um emprego, e guarde para um dia chuvoso – ou um mês chuvoso, que é o mês de janeiro de cada ano.

Mas existe uma implicação ainda mais positiva no fato de você se antecipar e começar a pagar desde já as despesas que só serão cobradas em janeiro de 2018: é a possibilidade de ganhar mais dinheiro em duas múltiplas dimensões.

A primeira dimensão é, logicamente, a dimensão da reserva: ao se programar para fazer depósitos mensais visando ao pagamento de uma despesa futura, você necessariamente estará ganhando dinheiro, pois os depósitos estarão sendo alocados em investimentos que rendem juros.

É seguro afirmar que, no mínimo, você estará ganhando de 6% (poupança) a 10% (Tesouro SELIC, CDBs e fundos referenciados DI) a mais sobre uma despesa programada.

Exemplo: ao separar R$ 100 mensais para a despesa IPVA 2018, ao final de 12 meses, você não acumulará apenas R$ 1.200,00, que seria a soma de 12 prestações mensais de R$ 100 cada. Você acumulará R$ 1.239,72 (supondo juros compostos de 0,5% ao mês). R$ 39,72 extras.

E a segunda dimensão se refere à dimensão do gasto propriamente dito: consiste na possibilidade de obter descontos pelo pagamento à vista. E, sim senhor, nessas despesas sazonais de grande impacto, costuma haver descontos generosos para quem tem o poder de pagar à vista.

Supondo que haja um desconto de 10% no IPVA à vista, os R$ 1.200 caem para R$ 1.080. Você ganha mais R$ 120.

Resultado: quem se planejou e se programou para essa despesa teve um desembolso efetivo de R$ 1.080, tendo acumulado R$ 1.239,72. Sobraram na conta R$ 159,71.

Quem não se planejou e vai pagar os R$ 1.200,00 parcelado em 5 vezes, vai gastar R$ 1.200,00, não tendo acumulado nada. Sobrou R$ 0,00, o que é o mesmo que dizer que não sobrou.

Agora, imagine o mesmo cálculo sendo feito para uma multiplicidade de despesas anuais, sendo o comportamento repetido ao longo de anos e décadas. Quem acumulará mais dinheiro?

Conclusão

Planejamento financeiro é isso: é poder começar o ano no azul, sem sufoco, e com tranquilidade total quanto às despesas sazonais de alto impacto orçamentário.

Se a formação de uma reserva de emergências é fundamental para cobrir eventos imprevistos e imprevisíveis, a estratégia de guardar para um dia chuvoso (princípio nº 2 da filosofia YNAB) ou, trocando em miúdos, mensalizar as despesas recorrentes que vêm em uma tacada dó, é essencial para manter o domínio sobre o dinheiro durante todos os meses do ano.

Se você começou 2017 tendo que se virar nos 30, lanço um desafio: fazer 2018 diferente. Isso mesmo, 2018 – no caso, o mês de janeiro.

Pera lá, mas 2017 mal começou e você já tá falando de 2018? Claro! Pois janeiro de 2018 dependerá fundamentalmente dos hábitos que você desenvolver em 2017.

Portanto, para fazer 2018 diferente, aja em 2017 de modo mais planejado e mais racional do que agiu nos anos anteriores. A oportunidade é agora.

E aí, que topa começar 2018 melhor do que começou 2017? 🙂

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16 Responses to Como começar o ano de 2018 no azul. ;-)

  1. Cleiton Oliveira 9 de janeiro de 2017 at 6:42 #

    Perfeito o raciocínio Guilherme. Adoto esse hábito e dá muito certo. Efetuo a divisão por 12 das contas mencionadas e incluo algumas outras contas específicas.

    Muitas pessoas agem com surpresas quando chegam algumas dessas contas para o pagamento. Isso acontece justamente pela falta de planejamento financeiro e por não contabilizá-las como um gasto mensal.

    Vou aproveitar o gancho e compartilhar um artigo sobre como começar o ano no azul (que servirá para 2017, 2018, 2019…) – http://ead.li/comecar-ano-azul

    Um grande abraço

    • Guilherme 10 de janeiro de 2017 at 7:22 #

      Excelente iniciativa, Cleiton!

      Planejar o orçamento em termos anuais é o que há em matéria de orçamento doméstico. É uma das coisas mais importantes a serem incluídas num bom controle das finanças pessoais.

      Seu artigo está excelente, particularmente a regra dos 70-10-20.

      Abraços!

  2. Longe do Limite 9 de janeiro de 2017 at 8:26 #

    Mais um ótimo texto, Guilherme! Parabéns!

    Como forma de contribuir: eu costumo utilizar o título NTN-F do Tesouro Direto como garantia de recursos no começo do ano.

    Uma vez que este título paga cupons no primeiro dia útil de janeiro e de junho, ele não só elimina a despesa semestral de custódia do TD, mas assegura também uma renda extra sem a necessidade de movimentação – leia-se venda – do mesmo.

    No meu caso, estou tão bem organizado que consigo reinvestir a totalidade dos cupons, o que acaba gerando uma renda maior a cada semestre.

    Abraço!

    • Guilherme 10 de janeiro de 2017 at 7:24 #

      LL, obrigado!

      Você também está de parabéns por essa estratégia! Aliás, nunca tinha pensado nessa hipótese de utilizar o NTN-F para provisionar os gastos com taxas de custódia semestral do TD… grande sacada! 😀

      Abç!

  3. 9 de janeiro de 2017 at 16:09 #

    Eu topo!! E olha que já comecei 2017 muito bem!! Mesmo com atrasos nos pagamentos do salário e 13º, não fui afetada graças à minha organização e disciplina de 2016. Já comecei 2017 tranquila e no azul!! Obrigada mais uma vez por compartilhar conosco dicas tão preciosas!! Abraços!!

    • Guilherme 10 de janeiro de 2017 at 7:25 #

      Parabéns pela disciplina e organização, Cá!!!!

      São atitudes como essas que nos ajudam a ter um começo de ano muito mais organizado e menos estressante, mesmo com imprevistos como atrasos nos pagamentos de salários e receitas extras, como o 13º!

      Abraços!

  4. Marcos 10 de janeiro de 2017 at 14:06 #

    Legal!!!

  5. Investidor de Risco 11 de janeiro de 2017 at 8:01 #

    Nada como o planejamento financeiro para organizar suas finanças. É simples, funciona, mas a maioria das pessoas insiste em não investir alguns minutos por dia nessa tarefa. Ma quem o faz dificilmente passa por dificuldades financeiras!

    • Guilherme 11 de janeiro de 2017 at 9:12 #

      De fato, IR!

      Temos que aproveitar essa capacidade do cérebro de programar decisões, para facilitar nossa vida financeira!

      Abç!

  6. Investidor 12 de janeiro de 2017 at 22:17 #

    Olá Guilherme,

    Coincidentemente acabei tratando da importância do orçamento doméstico em minha página no facebook. Segue o link se me permite: https://m.facebook.com/notes/guia-financeiro-e-previdenci%C3%A1rio/finan%C3%A7as-pessoais-a-import%C3%A2ncia-do-or%C3%A7amento-dom%C3%A9stico/337486899983542/

    • Guilherme 13 de janeiro de 2017 at 16:25 #

      Excelente artigo, Investidor!

      Sem dúvida, o orçamento doméstico é a ferramenta central para a organização das contas familiares.

      Abraços!

  7. Nordestino Pirangueiro 13 de janeiro de 2017 at 8:26 #

    Grande Guilherme!

    Parabéns pelo blog! Não o conhecia e esse foi o primeiro post que vi!

    Também “trabalho” desta forma. Costumo anualizar minhas despesas para não ser pego de surpresa.

    Me permita acrescentar uma informação, pois ainda temos outra vantagem planejando desta forma: desconto para pagamento à vista!

    No meu município o IPTU tem um desconto de 30% para pagamento em parcela única! Acho isso fantástico e sempre pago desta forma. O IPVA também, se não me engano, tem 5% ou 10% de desconto!

    Então, em resumo, ganhamos em todas as frentes. Planejamento, juros compostos e desconto para pagamento à vista!

    Abrs.

    • Guilherme 13 de janeiro de 2017 at 16:26 #

      Oi NP, legal que você tem um blog também!!!

      Realmente, essa forma de organização das contas é fantástica e traz benefícios em múltiplas frentes de batalha.

      Abraços!

  8. Micro Investidor Nerd 14 de janeiro de 2017 at 14:45 #

    Olá, VR!
    Te adicionei ao meu blogroll.
    Abraço.

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