A importância de evitar o vício em distrações mentais

Seja em edifício comerciais, seja em edifício residenciais, quando estou próximo de entrar em elevadores, onde já estão outras pessoas (ou em vias de entrar), uma coisa que eu percebo com cada vez maior frequência é como o celular toma a atenção delas.

Nesses curtos intervalos de tempo, onde poderia haver algum tipo de interação social, acaba prevalecendo a isolação social. Às vezes, nem mesmo um “bom dia”, ou “boa tarde” é pronunciado. As pessoas ficam mais preocupadas com o que está dentro da tela do celular, do que o que está ocorrendo à sua volta física.

Mas o problema não se resume aos encontros fortuitos em elevadores. Mesmo em encontros sociais programados e previamente planejados, como reuniões de trabalho e jantares – para ficar em dois exemplos clássicos – é cada vez maior o número de pessoas que simplesmente não está na reunião, ou no jantar. Elas podem até estar fisicamente, mas a atenção está concentrada no que ocorre nos celulares.

O problema consiste não na ferramenta em si, como todos já sabemos, mas sim no modo como a utilizamos. Ou seja, no fato de o celular roubar e prender nossa atenção mental, mesmo que não queiramos admitir essa verdade.

Além do evidente prejuízo causado pela alienação social, na deterioração do convívio com as pessoas que estão ao nosso redor, o uso frenético e não disciplinado dessa ferramenta eletrônica pode causar, em um plano mais profundo, um efeito ainda mais perigoso.

Trata-se da deterioração da nossa própria consciência. Alimentamos um vício constante de querer saber as últimas notícias. Desejamos matar nossa sede por novidades, acompanhando as últimas atualizações nas redes sociais (Twitter, Facebook, Instagram, WhatsApp etc.), a tal ponto, que perdemos a capacidade de usufruir dos benefícios da atenção mental concentrada, do foco em atividades de longo prazo, e dos cuidados com coisas que realmente nos importam no momento presente.

O vício do século XXI

O vício da era tecnológica não é o vício em álcool, não é o vício em drogas. É o vício em distrações mentais.

Os vícios nas distrações acabam contaminando a nossa mente, a ponto de orientar e dirigir nossas próprias ações – que em tese deveriam ser conscientes – no curto prazo.

Por exemplo: em vez de você utilizar, às 9 da manhã de uma terça, o computador, para realizar uma tarefa de trabalho ou de estudo, a primeira coisa que você acaba fazendo, assim que o computador é ligado, é acessar o Globo.com, UOL, G1 ou qualquer outro portal de notícias. Afinal, são só 5 minutinhos, ninguém vai ligar, não é mesmo?

Você está em casa estudando. Recebe um telefonema qualquer. Atende. Depois que você completa a ligação que recebeu no celular, em vez de retomar o estudo, você aproveita que o celular está na mão, ligado, e com dezenas de notificações de novidades, e resolve conferir as últimas atualizações em sua timeline da rede social que mais usa.

Academia. Ao utilizar a esteira para fazer o aquecimento, você percebe que a maioria das pessoas que utilizam esse equipamento estão mais concentradas na tela do celular, do que nos exercícios cardiovasculares que estão realizando.

Em mesas de restaurantes, saguões de aeroportos, e salas de faculdades, a mesma cena se repete. O mundo virou um lugar de pessoas viciadas. Viciadas em distração.

O grande problema desse vício em distrações é, como eu disse acima, a perda da própria consciência do momento presente. As tarefas que deveriam ser realizadas em um intervalo “X” de tempo, são concluídas em um tempo maior. Um trabalho escolar que poderia ser concluído em menos de uma hora leva três. Uma atividade física que poderia ser revigorante para o corpo (e para a mente) acaba se tornando num mero meio para continuar a conversa de Whatsapp iniciada em casa.

Uma geração de pessoas impacientes

Junto com a distração vem a ansiedade. Você pode ser uma pessoa ansiosa mesmo sem estar consciente disso. Aquilo que eu falei anteriormente – os vícios em distrações orientam nossos comportamentos – não ocorre apenas quando consumimos informação de modo passivo (lendo o que ocorre nas redes sociais, por exemplo), mas extrapola esse campo, atingindo duramente a área de nossas interações e diálogos ativos.

Um exemplo: antigamente, se você recebesse um email hoje, segunda, era normal responder somente amanhã, na terça.

Hoje em dia, se você recebe um email hoje, e até o final do dia não responde, é bem capaz de você receber outro email da mesma pessoa perguntando quando você irá responder. As pessoas perderam a paciência. As pessoas têm pressa. E têm pressa porque estão contaminadas pela velocidade das atualizações das notícias que correm em suas outras interações sociais, principalmente nas interações passivas, em que há apenas o consumo de informação.

Junto com a impaciência vem a ansiedade, e junto com a ansiedade vem a dificuldade de se concentrar.

Como esse é um problema que tem afetado a Humanidade em escalas cada vez maiores, já há alguns estudos científicos atestando que os vícios em distrações podem causar danos na maneira como o cérebro processa as informações.

Mas nem é preciso um estudo científico para comprovar essa afirmação. Basta lembrarmos que o excesso de informações, a sede por novidades chegando a qualquer momento, acaba sim causando um ônus para o cérebro, que tem muita dificuldade de processar as informações quando há excesso de dados a serem examinados. Não funcionamos bem em modo multitarefa, e funcionamos menos ainda quando a parte primitiva do nosso cérebro tem cada vez mais sede por novidades, pois elas matam a nossa sede de curiosidade pelo “novo”.

Descanse a mente

Mas então, o que fazer para controlar essa perigosa tendência à dispersão e à facilidade de ser atingido pelas distrações?

Adquirir consciência. Consciência de que é preciso ter atenção total ao momento presente. Atenção total ao ambiente que nos circunda – ambiente físico, diga-se de passagem.

Quando chegar à porta de um elevador, resista à tentação de logo sacar o celular. Aprecie o momento presente. Se estiver sozinho, pratique exercícios de respiração, inspirando e expirando o ar lentamente. Sinta o momento presente. Medite. Adquira a consciência da importância de se manter longe da “necessidade” de novidades.

Depois que terminar um longo projeto em frente ao computador, resista à tentação de logo ir para os portais de notícias. Alimente seu cérebro com descanso, em vez de “novidades” no mundo dos esportes, da economia, das celebridades, ou da política.

Dê à sua mente a paz e o silêncio que ela tanto precisa, para poder processar as informações e os conhecimentos até então utilizados no trabalho anterior. Valorize os períodos de descanso, entendendo-os como oportunidades para aquietar o seu cérebro, e não para drogá-lo com mais vícios e mais distrações.

Quando você pratica a respiração controlada, quando você dá tempo ao tempo, quando você se dá uma chance de apreciar o silêncio, você adquire a consciência de como é bom ter as rédeas da sua própria atenção.

Sim, a sua atenção, que antes estava sequestrada pela “necessidade” de saber as últimas novidades do que quer que seja, agora é inteiramente sua novamente. Está em suas mãos o poder de rejuvenescê-la, de filtrá-la, de tirar dela as impurezas provocadas pelo barulho insistente da mídia e dos outros, ou de deixá-la ser dominada pela agitação da vida moderna.

Conclusão

Quanto mais você adquire a consciência de estar no momento presente, mais você ganhará nas habilidades de manter o foco, a acuidade cerebral, e a capacidade mental de fazer boas escolhas a longo prazo.

Em termos financeiros, quanto mais consciente você estiver, quanto mais capaz você for de evitar distrações, menos influência terão os mercados e o marketing sobre suas escolhas e decisões de consumo.

Não há motivos para seguir a manada. Se esse é o preço para pensar e agir de modo independente, então que se pague esse preço. Afinal de contas, ninguém melhor do que você para decidir o que fazer com a sua vida.

Como eu já disse em outros artigos do blog, não deixe ninguém fazer a sua cabeça. E isso começa, claro, com a consciência: ela é propriedade sua, e não um depósito de entulho a serviço dos outros. Use-a, adquira-a e desenvolva-a: você só tem a ganhar. 😉

Créditos da imagem: Free Digital Photos

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32 Responses to A importância de evitar o vício em distrações mentais

  1. Além do Mar 12 de fevereiro de 2018 at 0:59 #

    Ótimo artigo, Guilherme (como sempre!)

    Esses exercícios de atenção plena são importantíssimos para aproveitar de um bem tão importante e que todos, indistintamente, temos de forma igual: o tempo. Quando aproveitamos do momento, notando os detalhes e sem procurar distrações que nos leva a uma inundação de pensamentos, conseguimos fazer com que o tempo mais mais “lentamente”, de forma que entendemos o fluxo de pensamentos, cada detalhe que nos afeta negativamente e os que nos leva para frente e num nível mais elevado, chegaremos a auto-consciência.

    Enfim, todo esse assunto de auto-consciência deveria ser tão mais debatido/incentivado. Vivemos numa sociedade que, como bem dito por você, enfrenta um crescimento estrondoso nos níveis de ansiedade, o que se não bem tratado, vai nos levar para um mundo cada vez mais estressado, impulsivo e depressivo.

    Bom que temos esses espaços para discutir esses assuntos.
    Vida longa ao ValoresReais.

    Abssss

    ALEMdoMAR

    • Guilherme 14 de fevereiro de 2018 at 16:06 #

      Obrigado, AdM!

      Você abordou bem a questão fundamental que permeia o texto: o bom uso desse bem tão precioso e gratuito, que é o tempo!

      Abraços!

  2. A Virada do Jogo 12 de fevereiro de 2018 at 8:08 #

    Muito boas as dicas Guilherme,

    Esses dias atrás o meu celular deu uma pane. Fui “obrigado” a ficar uns cinco dias sem ele, e surpreendentemente, foram dias em que eu tive muito mais paz, presença de espírito, tranquilidade etc. Tanto que, após o mesmo voltar a funcionar, eu procurei (e estou procurando) acessar menos a internet, sobretudo as redes sociais que na maioria das vezes não trás nenhum conhecimento relevante para a nossa vida.

    Um forte abraço.

    • Guilherme 14 de fevereiro de 2018 at 16:08 #

      Valeu, VJ!

      Muito interessante esse seu depoimento pessoal, a respeito do não uso do celular por conta desse incidente. Os efeitos são bem poderosos, quando conseguimos achar que vivemos sem uma coisa tão aparentemente indispensável nos dias atuais.

      Abraços!

  3. SARAH IPIRANGA 12 de fevereiro de 2018 at 8:13 #

    Bom dia. O artigo é esclarecedor e enfático na sensatez dos argumentos. Sem nos aperceber, somos tomados pela emergência de tantas conexões e perdemos a principal: com nós mesmos.
    Nesse momento, é necessário ter disciplina e discernimento bastante para colocar a vida num ritmo natural.
    Parabéns pelo texto.

    • Guilherme 14 de fevereiro de 2018 at 16:09 #

      Obrigado, Sarah!

      Muito legal o foco que você deu no comentário. Trata-se disso mesmo: de restaurar o “eu interior” para o ponto central de nossas vidas.

      Abraços!

  4. Simplicidade e Harmonia 12 de fevereiro de 2018 at 8:22 #

    Guilherme,

    Magnífico post! 🙂
    Tem tudo a ver com o que penso e com o que escrevo no Simplicidade e Harmonia.

    Se antigamente a mente vagava basicamente entre passado e futuro, hoje há também a distração com celular, que como você disse, tornou-se um vício.

    Até hoje não entendi o motivo de dar-se tanta importância à notícias que em nada afetam a vida cotidiana de cada um.
    Muitos dirão: para ficar informado.
    Mas para que ficar tão informado, qual utilidade isso trará em sua vida pessoal?

    O que percebo é que quanto mais estamos ocupados com tais distrações, menos tempo, consciência e interesse sobram para o autoconhecimento.

    Além disso, distrações servem também para que não pensemos que somos mortais – isso é algo que incomoda, mas é real.
    Repare que quando começa-se a pensar sobre o assunto, muda-se o foco rapidamente. Mas se tivermos mais consciência sobre esse assunto, mais aproveitaremos a vida, o momento presente, as relações que valem a pena, os hobbies e atividades que realmente nos são agradáveis, que o SER é mais importante do que o TER, enfim, as possibilidades são inúmeras de acordo com a personalidade de cada um.

    Ninguém sabe ainda quais impactos o excesso de estímulos sensoriais causarão futuramente na população atual, mas pelos sintomas atuais (fadiga, esquecimentos, etc), parece que não são bons, pois a maioria, além dos excessos de conexão e encadeamento exagerado de pensamentos, ainda dorme pouco, o que piora ainda mais a própria condição cerebral, através do excesso de beta-amilóides e todas as complicações causadas por essa substância.

    Abraços,

    • Guilherme 14 de fevereiro de 2018 at 16:11 #

      Oi Rosana, excelentes comentários!

      O excesso de estímulos sensoriais, como você bem abordou no seu depoimento, acaba causando toda uma rede intrincada de problemas conexos, cujas consequências ainda não foram totalmente esclarecidas pela ciência, mas que é fácil perceber, no dia a dia, que são muito negativas e prejudiciais para o ser humano.

      Abraços!

  5. André 12 de fevereiro de 2018 at 10:00 #

    Olá Guilherme! Excelente artigo! Posso o mesmo pensamento do que você. O que me deixa preocupado e também um pouco pessimista com o mundo atual, por estamos ultrapassando uma fronteira importante para nossa contínua evolução como sociedade.

    Permita-me adicionar um comentário adicional na sua frase: “Junto com a impaciência vem a ansiedade, e junto com a ansiedade vem a dificuldade de se concentrar” (…), prejudicando assim nossa empatia com o outro, nossa serenidade em resolver os verdadeiros problemas e nossa responsabilidade como agentes de mudança.

    Grande abraço!

    • Guilherme 14 de fevereiro de 2018 at 16:12 #

      Excelente complemento, André!

      Também vejo com pessimismo o rumo que a sociedade está tomando, coletivamente falando, nos termos atuais. Parece um círculo vicioso difícil de quebrar.

      Abraços!

  6. Termos Reais 12 de fevereiro de 2018 at 14:58 #

    Guilherme, que texto épico!

    Não vou me recordar agora a fonte, mas vários estudos científicos apontam que as notificações de redes sociais atingem as mesmas áreas neurais que substâncias como cocaína, cafeína e açúcar.

    A descarga de dopamina é realizada quando a pessoa vê a notificação e confere a atualização. Perceba que todos os aplicativos se utilizam desta técnica.

    O objetivo maior deles é tornar o usuário um dependente do app, visto que quanto mais tempo utilizando a plataforma, maior o poder de barganha em relação aos anunciantes.

    Tempos difíceis para aqueles que não tem consciência disto!

    Forte abraço!

    • Guilherme 14 de fevereiro de 2018 at 16:14 #

      Olá, TR, muito obrigado!

      Gostei bastante do seu comentário, pois demonstra, assim como a Rosana mencionou no comentário dela, que há um perigoso elo entre os vícios mentais atuais e o mal funcionamento dos sistemas neurológicos.

      Temos que ficar bem alertas em relação a isso!

      Abraços!

  7. Michael 12 de fevereiro de 2018 at 17:23 #

    Excelente e esclarecedor o seu artigo, Guilherme!

    Conhece as obras do autor e educador Neil Postman? Ele escrevia, decadas antes dos aplicativos, midias sociais, e smartphones, sobre como a tecnologia poderia ‘utilizar’ e manipular as pessoas – em vez do inverso.

    Tambem escrevia como a explosao de informaçoes apenas ‘resultou em lixo, incapaz de contribuir a resolver os problemas fundamentais, ou ate em ser util para resolver os problemas mais triviais cotidianos’ das pessoas, no livro ‘Technopoly.’

    Parece que o Roger Waters foi suficientemente inspirado por um livro dele ‘Amusing Ourselves to Death’ para criar o seu CD e cançao ‘Amused to Death’ que fala mais sobre tais e outros temas.

    Abraço!

    • Guilherme 14 de fevereiro de 2018 at 16:16 #

      Olá Michael, valeu!

      Não conhecia esse autor, Neil. Vou me informar mais sobre ele.

      É interessante que as artes se inspiram nessas obras científicas, e traduzem de forma lírica os problemas pelos quais a Humanidade passa.

      Abraços!

  8. Anônimo 12 de fevereiro de 2018 at 20:35 #

    Muito bom esse artigo!

  9. anônimo 13 de fevereiro de 2018 at 0:40 #

    muito bom.

    alguém que ler este texto também pode refletir quando ela mesmo todo dia tem que postar no timeline do whatsapp , instagram , facebook… será que precisam mostrar todo dia ?
    qual a sua contribuição em ajudar as pessoas também a ocuparem melhor seu tempo? será que saber o que faz todo dia é importante para todos que estão na sua rede social.. ?

  10. Puigllum 13 de fevereiro de 2018 at 0:43 #

    Caro Guilherme:
    Conheço inúmeros exemplos que demonstram como é daninha a interferência da tecnologia no cotidiano das pessoas, de como isso não somente atrapalha a interação com os demais, mas diretamente anula a sensação de usufruir do presente. Justamente eu que tenho fixado numa parede da minha casa um quadrinho com uma frase mui pertinente nesta reflexão: «O passado é história; o futuro a Deus pertence; o presente é uma dádiva e é por isso que ele tem esse nome!». Ou seja, só podemos interferir/interagir no presente, mas percebe-se que cada vez mais há pessoas desperdiçam essa capacidade, em busca de algo que está noutra dimensão, noutro continente, no mundo virtual, não na esfera imediata.
    Uma imagem que define bem nossa época é a dum casal jantando num restaurante: ela olha fotos e mensagens no telefone celular; ele faz o mesmo, com os lances mais geniais do jogo do Fluminense e Palmeiras a que ele não conseguiu assistir nesta tarde… Seus olhares quase não se encontram. Quando isso acontece, eles são interrompidos pelo toque dalguma ligação ou mensagem que chega. Esta mesma cena pode ser transposta para o quarto de dormir, talvez já não mais com os celulares, mas com um laptop e um tablete, como se a simples presença do outro não fosse suficiente, é preciso completar isso com a interferência do que está ocorrendo mundo afora, para tentar saber o que ocorreu no momento em que se deslocavam do restaurante até a casa, a conversa rápida com o porteiro, a ducha, até chegar ao quarto…
    Há infinitos outros exemplos de como isso ocorre de forma desastrosa no cotidiano. Há uns dias, fui ver um concerto duma orquestra sinfônica e percebi que muitíssimas pessoas não viam a música sendo executada, pois estavam sintonizadas em seus celulares. No meu entender, quando se vai a um concerto [assim como numa peça de teatro], tem-se o privilégio de ver uma partitura ser recriada no momento mesmo em que ela é executada. O regente dá a pauta, através de sinais, de códigos estabelecidos entre ele e os músicos, para que estes procedam duma certa forma que não ocorrerá noutro momento, com arranjos e interferências sonoras irrepetíveis. Aliás, aquela partitura pode ser executada noutra ocasião, mas os fatores que interferiram para que o resultado desse trabalho fosse o que se presenciou naquele momento não se repetirão jamais novamente da mesma maneira. Para muitos dos que estavam ali, essa constatação é irrelevante.
    Aliás, havia em tal concerto outro grupo que igualmente utilizava o celular, não para interagir com outras pessoas que estavam noutros ambientes, mas para gravar o concerto, o que demanda configuração do aparelho, busca duma posição correta, ajuste de luminosidade, enquanto ocorre a execução da música, que certamente é secundária em face da necessidade de registrar convenientemente o espetáculo.
    Da mesma forma, tenho percebido em salas de cinema que muitas pessoas não desligam os seus celulares e utilizam-nos para «conversar» com outras pessoas durante a exibição do filme. Independentemente do fato de atrapalharem os que estão sentados nas proximidades, pois há uma luz que o aparelho irradia num momento em que a escuridão deveria ser total, para que a luz da tela ganhe todo o protagonismo, novamente percebe-se que tais indivíduos não estão ali, que somente usufruir da obra exibida não é suficiente, pois há outros atrativos que desviam a sua atenção.
    Como alegoria, poderíamos considerar a necessidade daquela prima cujo voo acaba de chegar a Jacarta e precisa agora, neste exato momento, da senha de abertura do armário onde ficou guardada a mala que lhe servirá nos dez dias em que permanecerá na Ásia. Eu fiquei de passar-lhe tal número no momento em que ela ali chegasse, mas houve atraso numa escala em Roma e somente agora ela ali chegou e será imperativo passar-lhe esse código AGORA, justamente quando falta menos de um minuto para a conclusão do segundo movimento do concerto para piano no 1 em ré menor, op. 15, de Johannes Brahms…
    Bateram de cheio na lateral do meu carro esta semana, situação que danificou muitíssimo a porta. Tive uma grande dificuldade para negociar com a seguradora o conserto, pois há um problema na franquia, que poderia não cobrir esse tipo de ocorrência, pois eu estava em situação, digamos, irregular… Mas o próprio rapaz que me atendeu passou a indicação dum latoeiro que tem convênio com a seguradora, a quem eu levei o carro, pois vou precisar dele para tratar duns negócios para a empresa. Como o latoeiro não poderia dar o seu parecer na mesma hora, prometeu de, a qualquer momento, mandar-me uma mensagem por whatsapp, para dizer se poderia «salvar» a porta, senão eu terei de trocá-la inteiramente. Neste último caso, seriam mais de R$ 3.000 que teria de pagar, valor do qual eu não disponho neste momento e nem tenho como conseguir. Então, o telefone soou com uma mensagem desse sujeito, no momento em que estávamos numa reunião com os colegas do escritório, mas eles nem perceberam que durante escassos minutinhos [mas eu continuei a ouvir o que eles diziam] devi resolver essa questão na mesma hora, pois, como disse, é muito dinheiro e a franquia não poderia cobrir esse conserto ou, o que seria pior, a troca da porta inteira.
    Como essas, há infinitas situações nas quais o uso imediato do celular se justifica. O curioso é que já nos esquecemos da forma como se resolviam essas questões antes da existência desse recurso do imediatismo. Era possível esperar? Ligar mais tarde? Deixar recado na secretária eletrônica? Mandar um telegrama? Como será que essas questões urgentes e totalmente inadiáveis se ajustavam à nossa disponibilidade?
    Cordialmente,
    Puigllum

    • Guilherme 14 de fevereiro de 2018 at 16:23 #

      Depoimento magistral, Puigllum!

      Os exemplos do jantar, e do concerto são excelentes, e dão bem a dimensão de como as interações sociais têm se transformado para pior.

      Em outros tantos casos, o uso imediato do celular se justificaria, como nas emergências citadas por você. Quanto a essas situações, antigamente, acho que também havia uma maior paciência (provavelmente) por parte do emissor da mensagem, caso isso fosse possível, tendo em vista as dificuldades de haver disponibilidade de encontrar a pessoa.

      Abraços!

  11. Honey 13 de fevereiro de 2018 at 7:18 #

    Excelente artigo.

  12. 13 de fevereiro de 2018 at 15:23 #

    Olá Guilherme, que excelente texto! Retrata com exatidão o momento em que estamos vivendo. Eu faço parte de um movimento contrário, o JOMO (joy of missing out). Na minha casa cancelamos a tv por assinatura e não assistimos mais televisão; não participo de nenhuma rede social e não procuro notícias na internet. O whatsapp uso com cautela, participo de pouquíssimos grupos e mesmo assim meu grau de interação é mínimo. Gosto mesmo é de VIVER a MINHA VIDA, estar presente com aqueles que amo, ler e estudar assuntos do meu interresse. Não quero saber o que as pessoas estão fazendo, comendo, para onde estão viajando, exibindo suas vidas perfeitas na internet, da mesma forma como não quero divulgar aquilo que faço. As coisas realmente importantes chegam até nós de um jeito ou de outro. No meu trabalho atendo pacientes e preciso conversar muito com eles. No final do dia estou com a cabeça cheia, e não tem coisa que mais aprecio quanto o silêncio. Venho pra casa em silêncio e nele permaneço até a chegada do meu marido. Eu PRECISO desse tempo, desse silêncio, desse detox de informações. Meus amigos brincam que sou pior que marido traído (por ser sempre a última pessoa a saber das coisas) e de vez em quando eles falam “nós vamos te contar o que está acontecendo no mundo”. Eles não se incomodam com meu jeito e nem eu com o deles, mas vejo uma diferença brutal entre minha vida tranquila e a vida agitada, ansiosa e insatisfeita deles. Levarei seu texto para que mais pessoas reflitam!! Grande abraço!!

    • Guilherme 14 de fevereiro de 2018 at 16:25 #

      Olá, Cá, excelente depoimento!

      Não há nada melhor do que tomar as rédeas da própria vida, deixando-a seguir seu ritmo natural, e não artificial das demandas produzidas por outros, que servem mais a interesses alheios.

      Não conhecia esse movimento, o JOMO, e acho que se encaixa exatamente dentro do propósito do artigo, a de restaurar a consciência.

      Abraços!

  13. Marcos Arcanjo 13 de fevereiro de 2018 at 21:29 #

    Muito bom!!!
    Tentarei me políciar mais com celular!!
    Obrigado pelo alerta.

  14. Valéria Silva 15 de fevereiro de 2018 at 2:43 #

    Olá Guilherme! Excelente texto! (Como sempre!)

    Só complementando, além de todas as questoes relacionadas no texto e nos comentários, existe também a questão anti ética , pois as pessoas não se dão conta de que este vício afeta e muito a sua produtividade. Horas e horas desperdiçadas dentro do ambiente de trabalho por exemplo.

    • Guilherme 16 de fevereiro de 2018 at 16:03 #

      Oi Valéria, obrigado!

      Bem lembrada a questão da falta de produtividade decorrente desse vício em distrações mentais.

      Abraços!

  15. Iossef 15 de fevereiro de 2018 at 21:30 #

    Parabéns ótimo texto. Veio em boa hora.

  16. genesis douglas godoy 18 de fevereiro de 2018 at 0:41 #

    Alguem ja ouviu falar nas 10 formas de manipulação das massa, que o autor noam chomsky explicou em um de seus livros? Uma das formas de manipulaçao seria a distração do povo, com um fluxo enorme de informações sem importancia, para que não tenhão tempo de pensar no que é realmente importante; ciencia, economia, autoconhecimento. Assim a distancias entre as elites globalistas e o povo ficaria praticamente insulperavel para um cidadão comum.

    • Guilherme 18 de fevereiro de 2018 at 17:31 #

      Interessante essa teoria, Genesis, nunca tinha ouvido falar.

  17. Vania 20 de fevereiro de 2018 at 1:07 #

    Esse seu post pede reflexão, auto-análise.
    É incrivel como nos tornamos dependentes da tecnologia, em tão pouco tempo.
    Em janeiro, eu estava de férias em uma cidade praiana. Feitos os cálculos de custo/beneficio, a decisão era de usar sempre os serviços de Uber, em vez de alugar um carro.
    Em determinada noite, após sair de um restaurante, fui chamar um Uber para retornar ao hotel. Estava sem conexão com a Internet. Dei um tempo, tentei de novo, e de novo, e nada. Bateu um total desespero, sensação de desamparo e isolamento. Como se eu, sem internet, estivesse em alguma ilha deserta. No entanto, eu estava numa cidade cheia de gente, com lojas abertas apesar do horário, certamente com transporte publico funcionando.
    Foi preciso que eu me perguntasse “como eu faria antes da internet?” pra finalmente entrar numa loja, perguntar onde tinha um táxi, ver que era ali na esquina, entrar num veículo e chegar tranquilamente ao hotel.
    Depois disso, tenho saído sem celular algumas vezes, só pra quebrar essa dependencia absurda.

    • Guilherme 20 de fevereiro de 2018 at 17:27 #

      Oi Vania, muito bom seu depoimento.

      Essa dependência excessiva da tecnologia realmente é assustadora.

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